Esportes

Fragmentos de paz em meio ao desalento

Brasileiros que atuam em regiões de conflito relatam atmosfera acolhedora que encontraram em ambientes inóspitos

Torres joga na JordâniaTorres joga na Jordânia - Foto: Divulgação

As ideias, em geral, são construídas através de uma associação de palavras. Pensar em Brasil, por exemplo, remete a “fu­tebol” e “samba”. É um exer­cício que traduz, ainda que de forma substancial, as simila­ridades entre os termos. Um julgamen­to que por vezes pode cair no pe­rigo da unilateralidade. Nem tudo que reluz é ouro. Provar que existe mais de um lado em cada história é o mote para redefinir opiniões.

Se fos­se uma redação, essa seria a conclusão após a Folha de Pernambuco conversar com jogadores de fute­bol que atuam em países que passam por conflitos civis ou guerras. Por mais que o cenário seja desalen­tador, os personagens desta matéria alteraram o argumento inicial de que em locais como Israel e Jordânia é impossível viver em paz. Sem fechar os olhos para a realidade que assola milhões de habitantes nessas regiões, os atletas enfatizam que há como manter-se seguro até mesmo nos ambientes mais inóspitos.

“Normal” é uma palavra superes­timada para quem mora no Orien­te Médio. Não que isso seja uma crítica. Poder viver sem receio de atentados terroristas é o desejo dos habi­tantes da região. Caso do meia Diogo Kachuba, que após passagens por Criciúma e América/RN decidiu deixar o Brasil para vestir a camisa do Hapoel Kfar Saba, de Israel. “Pe­la televisão, eu só via notícias ruins falando do conflito deles com a Palestina, mostrando atentados e mortes. Meu medo era maior, antes, por não conhecer nada. Mas isso mu­dou completamente”, afirmou o atleta.

A desconfiança, aos poucos, virou admiração. “Os israelenses são muito receptivos, tratam todos bem. Aqui eu ando tranquilo de noite pela rua, vou ao banco e saio com dinheiro. Não fazia isso no Brasil. Sem falar que meu clube paga em dia. Minha filha está feliz, aprendendo hebraico, e minha mulher também gosta da região”, apontou Diogo, que vive na cidade de Jerusalém.

O jogador contou que os “sustos” já estão integrados ao dia a dia de quem vive em Israel. “O que mais deixa o povo nervoso aqui é o toque de recolher. O país tem uma tecnologia que avisa quando uma bomba está prestes a cair e uma sirene é acionada. Todo mundo precisa sair da rua e ir para um lugar seguro até o barulho parar. A minha casa tem um quarto revestido de aço justamente para aumentar a segurança de um impacto. Eu ficava muito assustado no começo, mas agora já acho normal”, citou. Para Diogo, essa última palavra tem um valor inestimável.

Natural de Baturité, no Ceará, o atacante Torres, de 27 anos, chegou em janeiro do ano passado ao Al Wehdat, atual tricampeão da Jordânia. Eleito melhor jogador e vice-artilheiro da liga local na última temporada, ele teve pouco tempo para tomar a decisão que mudaria sua vida.

“Estava de férias no Brasil quando recebi a ligação do meu empresário. Eram quatro e meia da tarde e a janela (de transferências) fechava em uma hora. Não tive tempo de pesquisar nada sobre o país. Mas não me arrependo”, apontou. “Pode parecer estranho, mas eu me sinto protegido aqui em Amã (capital do país). Durmo de janela aberta, vou ao campo de refugiados e tenho até alguns amigos lá. Fizeram até uma música para mim, falando que sou ‘filho’ deles”, explicou.

Parte da idolatria por Torres começou em um clássico. “O maior jogo daqui é entre nosso time e o Al-Faisaly. Existia um jejum de três anos sem vitórias contra eles. ‘Podemos perder o campeonato, mas não para eles’, me disseram. Ganhamos por 1x0, com um gol meu. Até bandeira do Brasil pintou no estádio”, brincou.
Torres frisou qual a maior lição após um ano na Jordânia. “Vou confessar: vim para cá pensando no lado financeiro. Mas, assim que cheguei, percebi que cometi um erro. Subestimei o país por não conhecê-lo. Agora, eu amo a Jordânia e não penso em sair”, completou.

Próximo de Iraque, Síria, Israel e Palestina, a Jordânia está localizada praticamente no centro dos conflitos no Oriente Médio. Com uma política externa pró-Ocidente e uma relação próxima com os Estados Unidos, a nação é “casa” para centenas de milhares de refugiados sírios que conseguiram escapar dos conflitos civis - o que gerou um clima de rivalidade com alguns países asiáticos.

Regresso frustrado
Entre os anos de 2012 e 2013, o volante Gilson Tussi, presen­te no último título pernam­bu­cano do Náutico, em 2004, vestiu a camisa do Al-Shorta, da Síria. O atleta desembarcou no país justamente na época em que os conflitos civis - moti­vados por um protesto antigoverno em março de 2011, na cidade de Daraa -, atingiram o ápice. A guerra, que começou com a disputa entre os pró e anti Bashar al-As­sad (presidente da Síria), ga­nhou propor­­ções gigantescas. Hoje, envol­ve forças internacionais (EUA, Turquia e Rús­sia) e grupos como o Estado Islâmico.

“Os conflitos eram maiores nos subúrbios e não em Damas­­co, onde eu morava. Eu sabia do perigo que existia e, in­clusive, vim para cá sem minha família. Todo dia tinha bar­­ri­cadas nas ruas, mas eu comparo com o seguinte: no Rio de Janeiro, por exemplo, vo­­cê sabe que existem áreas pe­rigosas, mas tem outras on­de é possível ficar seguro. Os a­tentados geralmente aconteciam em locais específicos, em zonas de guerra. Graças a Deus nunca presenciei nada”.

A passagem do jogador pela Síria, inclusive, foi encurtada por conta da guerra. “Algumas cidades foram devastadas e os clubes perderam muito dinheiro. Depois, a federação criou uma lei que proibiu joga­dores estrangeiros de atuarem no campeonato nacional. Por isso fui embora. Mas continuo tendo amigos lá e considero que, em termos de experiência, foi muito bom para mim”, completou.

Por mais irreal que pareça, a Sí­ria, mesmo vivendo uma guer­ra civil, tem um número me­nor de homicídios que o Brasil. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pú­blica, o País teve um total de 278.839 assassinatos entre janeiro/2011 e dezembro/2015. Já a Síria, no mesmo período, te­ve 256.124 mortes, de acordo com números da Agência da ONU para os Refugiados.

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