Futebol

História de Neto, sobrevivente da tragédia da Chape, vai virar filme de ficção

"O Último Sobrevivente" terá direção do cineasta colombiano Gustavo Nieto Roa (dono do estúdio Centauro)

Neto, ex-zagueiro da ChapecoenseNeto, ex-zagueiro da Chapecoense - Foto: Márcio Cunha/Chapecoense

A tragédia da Chapecoense em 2016 já foi relatada por uma série de reportagens, documentários e livros. Agora será a vez da ficção, baseada nos fatos reais do acidente aéreo.

O longa-metragem "O Último Sobrevivente" contará a história do ex-zagueiro Neto, 35, e terá direção do cineasta colombiano Gustavo Nieto Roa (dono do estúdio Centauro).

"Já foram feitos muitos documentários na televisão, muitas matérias, no Youtube você encontra muitos vídeos do que aconteceu. [Com a ficção] temos a liberdade de recriar situações que para um documentário não seria possível. É uma história que quero que sirva de testemunho do que Hélio viveu, mas em terceira pessoa, com atores", afirma Roa.

Hélio, no caso, é o primeiro nome de Hélio Hermito Zampier Neto. A produção já passou da etapa de pesquisa, mas não tem data para ser lançada: está em fase de captação de recursos e busca por investidores, inclusive ex-jogadores. O diretor acredita que até agosto consiga financiar o projeto.

A narrativa pretende recordar desde a infância de Neto, quando ele jogava no time do colégio Mercúrio, em Pavuna, subúrbio da cidade do Rio de Janeiro onde nasceu.

O ex-zagueiro da Chapecoense lembra que, até chegar à final da Copa Sul-Americana de 2016, por diversas vezes pensou em largar o futebol e tentar ganhar a vida de outra forma. Segundo o próprio, pairava sobre ele uma "aura negativa para desistir".

Em todas essas ocasiões, porém, surgiram pessoas importantes da sua vida, como o pai, Helam, a mãe, Valéria, e a esposa, Simone. Um episódio emblemático envolveu todo o trio, quando sua companheira descobriu um cisto no ovário.

O jogador resolveu parar a carreira, que lhe rendia pouco mais de R$ 1.000 por mês. Resolveu voltar a estudar, atuar no futebol amador e trabalhar em bares. Pouco tempo depois, no começo de 2007, soube que seria pai de gêmeos.

"Quando meus filhos foram fazer um ano, não tinha dinheiro nem para festa. Meu pai estava aposentado, pegou um avião, foi até o interior do Paraná com minha mãe. Ela organizou uma festa, ele me chamou de canto e falou: 'Você saiu de casa para jogar bola. É pai, casou, mas não foi por isso que saiu de casa, saiu por um sonho, não pode parar de jogar'", relembra o ex-jogador à reportagem.

Então ele vivia em Francisco Beltrão (no Paraná), cidade de Simone, de quem recebeu apoio. Foi quando voltou a jogar, pelo Francisco Beltrão Futebol Clube. Depois, defendeu Cianorte e Guarani, onde foi vice-campeão da Série B. Em 2013, foi contratado pelo Santos, seu último time antes da Chapecoense.

Foi na Chape que ele viveu seu auge como jogador. O ápice seria a final da Copa Sul-Americana. Até que, quando viajava para disputar a partida mais importante de sua vida (e do clube), o avião do voo 2699 da LaMia caiu na Colômbia.

"Antes da tragédia, eu estava no meu melhor. Quando eu acordo, estou no pior. Não sabia andar, mastigar, minha coluna estourou, o parafuso que tinha na cervical quebrou, meu joelho estourou, fiquei com asma. O jogador cheio de vigor e forte teve que reaprender a fazer tudo, um bebê nascendo de novo, usava fralda. Não conseguia me limpar, escovar os dentes", conta.

Se muitas vezes pensou em desistir do futebol, essa não foi uma delas. Neto passou três anos fazendo fisioterapia. Sem ter perdido nenhum membro do corpo, acreditou que seria possível. Conseguiu deixar as muletas, voltou a andar. Mas nada foi capaz de fazê-lo, de novo, ser um atleta. "Isso me arrebentou por dentro." Em 2017, enquanto Neto buscava, de todas as maneiras possíveis, voltar a jogar, o cineasta Gustavo Nieto Roa se encontrava com um amigo que trabalhava na polícia de Medellín, na Colômbia.

Este amigo conhecia o tenente Marlon Lengua, que resgatou Neto dos destroços. "Concluímos que a história [a ser contada no filme] tinha que ser através da vida de Hélio", diz Roa.

Desde então, o diretor conheceu Neto e estima que os dois já passaram pelo menos 60 horas conversando –são três viagens a Chapecó, inclusive dormindo na casa do ex-jogador.

O roteiro está pronto e se divide em três histórias principais: a do jogador até a tragédia, o próprio acidente e o resgate. Foram entrevistados controladores de voo, policiais, integrantes das equipes de resgate, jogadores e ex-jogadores, amigos e familiares.

Neto afirma que não pensava em ter sua vida contada em um filme, mas uma das coisas que o convenceu foi a religiosidade, algo que se tornou fundamental para ele sobretudo após o acidente. "Quero mostrar para o mundo algo relatado sobre a fé. Não a fé doentia que a gente vê no mundo e que não tolera nada a não ser aquilo que a pessoa pense."

Hoje superintendente de futebol da Chapecoense, ele viu no início do ano o time ser campeão da Série B do Campeonato Brasileiro pela primeira vez na história.

"De Deus eu falo com facilidade. Ele reorganizou a minha vida quando ficou tudo desorganizado."

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