Homofobia: Não basta punir, é preciso educar

Enquanto potências agem para tentar erradicar problema, futebol brasileiro ainda carece de discussão sobre esse e outros preconceitos

FutebolFutebol - Foto: Léo Malafaia/Folha de Pernambuco

Qualquer tipo de problema precisa passar por, no mínimo, três fases. A descoberta, o debate e a resolução. A existência da homofobia no futebol não é mistério. As discussões sobre o assunto e as sugestões para lutar contra o preconceito ao público LGBT, com participações de torcedores, clubes, federações e políticos têm ajudado a tornar o tema mais presente no futebol.

O fatídico 7x1 aplicado pela Alemanha no Brasil, na Copa do Mundo de 2014, também poderia ser o placar envolvendo a interação de cada país sobre o assunto. Um ano antes do quarto título mundial em solo verde-amarelo, a Federação Alemã de Futebol (DFB) lançou uma cartilha chamada “Futebol e Homossexualidade”. Um documento de 28 páginas entregue a clubes e associações sobre o tema.

O goleiro da seleção e do Bayern de Munique, Manuel Neuer, se posicionou a favor da ideia. “O que importa é o rendimento em campo, não a preferência sexual”. Um ano depois, Thomas Hitzlsperger, ex-jogador que disputou o Mundial de 2006 pela Alemanha, revelou ser gay. Ainda entre os alemães, o St.Pauli foi o primeiro clube do mundo a eleger um homossexual para o cargo de presidente. Durante uma temporada, a equipe atuou com um uniforme principal em alusão à causa - ideia que também foi utilizada por outros times, como Rayo Vallecano/ESP e Guadalajara/MEX. Há, infelizmente, quem vá na contramão do progresso. Em 2012, torcedores do Zenit/RUS fizeram um manifesto pedindo para o clube não contratar atletas homossexuais.

Nos últimos anos, a Fifa passou a punir atos homofóbicos nos estádios - cena vista, por exemplo, durante a Copa do Mundo de 2014. Nos tiros de meta, eram comum os gritos de “bicha” de um grupo de torcedores contra o goleiro adversário. Uma ideia que surgiu no México (sob os gritos de “puto”) e se alastrou por outros países. A entidade máxima do futebol mundial arrecadou no ano passado mais de R$ 4 milhões em multas contra posicionamentos preconceituosos. No ranking dos locais mais punidos, o Brasil está em sexto, atrás de Chile, Argentina, Honduras, México e Peru.

Há dois meses, a Aliança Nacional LGBTI e o Grupo de Advogados pela Diversidade Sexual (GADvs) enviaram um comunicado à Confederação Brasileira de Futebol (CBF) solicitando que o tema da LGBTfobia fosse mais debatido no País. Como resposta, a entidade falou apenas que repassaria a carta para os clubes, reconhecendo como um problema "cultural".

Procurados pela reportagem, Náutico, Santa Cruz e Sport não apresentaram projetos envolvendo o público LGBT, mas são a favor da luta pelo fim do preconceito sexual nos estádios. No Nordeste, o clube mais ativo na discussão é o Bahia. O Tricolor de Aço anunciou que todos os transgêneros terão o direito de usar seus nomes sociais em qualquer procedimento administrativo relacionado ao clube. Há dois anos, quem também deu bom exemplo foi o Rio Claro/SP, ao publicar em uma rede social o convite para torcedores LGBTs irem aos jogos do clube.

Algumas ações também ajudaram a fomentar o debate sobre a discriminação contra homossexuais no Brasil. O site "Vice" produziu no ano passado um documentário intitulado “Bicha!”, sobre a homofobia no futebol nacional. Além disso, a Editora Record publicou um livro em quadrinhos intitulado “O outro lado da bola”, abordando questões envolvendo preconceitos no esporte, entre eles os de orientação sexual.

"A Fifa fez neste ano uma seletiva mundial para achar representantes que tenham condições de atuar em políticas contra a homofobia. Acredito que a ideia é ter pelo menos um ou dois em cada continente. A CBF poderia seguir um caminho assim e não somente repassar a demanda para os clubes. Ela deveria comandar não somente o debate sobre esse problema, mas também citando outros como racismo, lesbofobia e transfobia, com políticas nacionais”, afirmou o antropólogo Wágner Camargo.

No Brasil, o Estatuto do Torcedor dedica apenas uma linha sobre o assunto, indicando a proibição de cânticos discriminatórios, racistas ou xenófobos. No mais, a legislação brasileira não classifica homofobia como crime. Mas isso pode estar com os dias contados. O senador Alessandro Vieira (PPS-SE) é o autor de um Projeto de Lei (PL 860/2019) para tornar crime os atos de intolerância, discriminação ou de preconceito por sexo, orientação sexual e identidade de gênero. O tema já foi pauta em quatro sessões no plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) e deve ter a discussão retomada na próxima quinta. Essa é a iniciativa mais atual, porém não a primeira. Em 2001, a então deputada federal Iara Bernardi (PT-ES) apresentou uma PL com o mesmo fim, mas, após oito anos de tramitação no Senado, o projeto foi arquivado.

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