Homofobia: torcidas apoiam punição, mas citam resistência

Organizadas aprovam determinação sobre punição contra atos homofóbicos, porém esbarram em "problema cultural"

LGBTs lutam pelo direito de torcer com respeito e liberdadeLGBTs lutam pelo direito de torcer com respeito e liberdade - Foto: Léo Malafaia/Folha de Pernambuco

“Bicha”. "Veado". "Boiola". São alguns dos termos utilizados por torcedores nos estádios para xingar os adversários em uma partida de futebol. Adotada na tentativa de depreciar um atleta, torcedores ou o clube ao qual ele faz parte, a conduta integra uma série de comportamentos e atitudes homofóbicas nas arquibancadas, ao ponto em que os gritos são associados negativamente ao público LGBT+. No entanto, a prática está com os dias contados. Norteado sobre essa realidade, o Supremo Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) determinou na semana passada que gritos homofóbicos nos estádios podem ocasionar na punição dos times, com retirada de três pontos na tabela ou mais, dependendo da reincidência. Em Pernambuco, líderes de torcidas de Náutico, Sport e Santa Cruz opinaram sobre a determinação.

“Não só concordo como briguei lá dentro para aos poucos a gente ir abolindo. Fica mais difícil controlar os arredores da torcida, mas aos poucos já estamos controlando. Esses gritos, por exemplo, a banda da torcida não toca. É um posicionamento não só meu, mas também da maioria do núcleo (da torcida)”, explicou Marcelo Gouveia, um dos que estão à frente da torcida organizada Os Centenários dos Aflitos, do Náutico.

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Apesar do esforço relatado, apelos homofóbicos ainda são frequentemente ouvidos nas arquibancadas, e tomam corpo através de músicas, falas e ações efetivamente mais violentas. No dia 17 de maio deste ano, data marcada pela celebração do Dia Internacional de Enfrentamento à LGBTfobia, o Trio de Ferro da Capital pernambucana relembrou em suas redes sociais o dia de luta da comunidade. Na ocasião, a Folha de Pernambuco também publicou uma série sobre o assunto, intitulada "Homofobia: um jogo sem graça".

Líder da Brava Ilha, associada ao Sport, Renato Vieira compartilha de sentimento semelhante ao do líder da torcida alvirrubra. A torcida, no entanto, também resvala em elementos culturais para explicar a dificuldade que alguns membros têm em combater a LGBTfobia na Ilha do Retiro. Uma das soluções encontradas para minimizar os gritos preconceituosos no estádio foi recriar um trecho da música "87 é Nosso", em que os torcedores se referem ao Náutico como “Barbie”. A música faz alusão ao título brasileiro de 1987 conquistado pelo time rubro-negro.

"É uma barreira que tentamos quebrar já há muito tempo", defende Vieira. "Tento repassar para os demais, mas infelizmente a cultura da gente é muito diferente”, explica o torcedor, enfatizando que a parte da música recriada é um grito contra o Flamengo e uma emissora de televisão. Segundo o torcedor, o novo trecho do cântico havia sido divulgado nas redes sociais, inclusive, mas no estádio os torcedores acabam cantando na versão antiga. A Brava Ilha abriga cerca de 70 pessoas por jogo.

Os posicionamentos adotados pelas torcidas alvirrubra e rubro-negra acabam se chocando com a realidade expressa por grande parte dos membros que as integram, o que gera dualidade: por um lado, pessoas interessadas em exterminar a discriminação dos estádios. De outro, integrantes que ainda precisam ser reeducados. Situação também vivenciada pela Portão 10, do Santa Cruz.

“A determinação é positiva. O País atravessa um momento complicado, em que o preconceito caiu de berço em todos os ambientes em que vivemos. A Potão 10 se policia muito para que não gere a homofobia, sobretudo com gritos, mas obviamente isso ainda acontece por ser muito cultural. A gente tenta trabalhar isso dentro da torcida. Mas, dentro da própria arquibancada, quando você se posiciona politicamente, você é criticado. Então, na medida em que nos posicionamos, temos que nos policiar", afirmou Gilson de Barros Filho, conselheiro da Organizada tricolor.

As torcidas se queixaram de falta de proximidade da Federação Pernambucana de Futebol (FPF) com o público. A FPF informou que auxilia os clubes com apoio pedagógico, através de campanhas e no diálogo com veículos de comunicação. De acordo com o presidente da entidade, Evandro Carvalho, no entanto, a última campanha da instituição contra a homofobia nos estádios aconteceu há dois anos.

Marco contra a homofobia
No duelo Vasco x São Paulo, realizado no último domingo (25) pela 16ª rodada do Campeonato Brasileiro, em São Januário, a torcida cruzmaltina iniciou um coro com gritos de “time de veado”, direcionado ao time paulista. Anderson Daronco, árbitro da partida, paralisou o jogo aos 19 minutos do segundo tempo e avisou ao técnico Vanderlei Luxemburgo, do clube carioca, que gritos homofóbicos não são permitidos no estádio. O treinador, por sua vez, pediu calma aos torcedores, orientando a parar com o cântico discriminatório.

A atitude, até então simbólica, representou um marco na história do combate à homofobia no futebol nacional. Pela primeira vez uma partida foi interrompido no Brasil após gritos deste tipo, atendendo à nova determinação do STJD. A recomendação é de que, além da paralisação das partidas, as comissões de arbitragem e delegados registrem as ocorrências na súmula do jogo, como assim fez Anderson Daronco no confronto do último domingo.

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