Infantino negociou criar "Superliga da Fifa" antes de condenar projeto publicamente, diz documento
Arquivo interno mostra que entidade de Gianni Infantino discutiu parceria de 12 anos com organizadores da competição liderada por Florentino Pérez; plano previa controle sobre torneio e novo calendário do futebol
A Fifa esteve muito mais próxima da Superliga Europeia do que admitiu publicamente. Um documento interno de outubro de 2020, revelado pelo jornal britânico The Guardian, mostra que a entidade comandada por Gianni Infantino participou de negociações avançadas com os idealizadores do torneio para criar uma parceria estratégica que transformaria a competição em um projeto oficial da federação internacional.
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Segundo o documento, as conversas chegaram à fase de um acordo preliminar e incluíam até uma mudança de nome. A ideia era que a competição passasse a ser chamada de "Superliga da Fifa", com a entidade assumindo um papel central em sua governança.
A revelação contrasta com o discurso adotado por Infantino meses depois. Quando a Superliga foi anunciada oficialmente, em abril de 2021, e enfrentou forte rejeição de torcedores, clubes, ligas e jogadores, o presidente da Fifa afirmou que a organização "desaprovava veementemente" a iniciativa.
Presidente da Fifa, Gianni Infantino. Foto: Alfredo Estrella/AFPDe acordo com o documento, a parceria teria duração inicial de 12 anos.
A proposta previa a criação de uma joint venture entre a Fifa e os organizadores da Superliga para administrar os direitos comerciais e explorar economicamente a competição.
Além disso, a entidade receberia uma chamada "golden share" (ação de ouro), mecanismo que lhe garantiria poder de veto sobre decisões estratégicas, como:
- formato da competição;
- distribuição das receitas;
- nomeação dos principais executivos;
- mudanças estruturais no torneio.
Na prática, a Fifa deixaria de ser apenas uma entidade reguladora para se tornar uma das controladoras do novo campeonato.
Mundial de Clubes anual
O projeto também previa mudanças profundas no calendário internacional. Entre elas estava a criação de um Mundial de Clubes anual, disputado sempre em um período fixo de três semanas e em formato eliminatório.
O presidente da FIFA, Gianni Infantino, fala ao lado do troféu durante a cerimônia do sorteio da Copa do Mundo de Clubes da FIFA 2025 em Miami, em 5 de dezembro de 2024.. Foto: Giorgio Viera / AFPA competição substituiria o modelo atual do torneio e seria diretamente ligada à Superliga, reforçando o protagonismo dos principais clubes do futebol mundial.
Menos espaço para seleções
Outro ponto sensível do documento era a reformulação das datas Fifa. A proposta reduzia drasticamente as janelas internacionais para apenas dois períodos de duas semanas por ano, diminuindo o espaço reservado às seleções nacionais.
Segundo o The Guardian, a mudança poderia provocar perdas financeiras para diversas federações nacionais, que dependem das partidas internacionais para gerar receitas comerciais.
O plano também previa discussões sobre uma redução do calendário das ligas nacionais e a construção de um novo modelo para o futebol internacional.
Presidente da Fifa, Gianni Infantino. Foto: Alex Wong/AFPModelo fechado
A estrutura da Superliga seria semelhante à apresentada em 2021. O torneio teria 15 clubes permanentes e outras cinco vagas preenchidas por critérios de classificação esportiva.
Todos os participantes precisariam integrar a Associação Mundial de Clubes de Futebol (WFCA), entidade criada em 2019 e liderada por Florentino Pérez, presidente do Real Madrid e principal defensor da Superliga.
Florentino Pérez, presidente do Real Madrid. Foto: Franck Fife / AFPO documento também mencionava a criação de uma Superliga feminina, embora sem estabelecer um cronograma para seu lançamento.
Nova pressão sobre Infantino
A revelação surge em um momento delicado para Gianni Infantino.
Nos últimos dias, o presidente da Fifa enfrentou forte desgaste após abandonar o projeto da Fifa Forward Enterprise (FFE), iniciativa que previa a entrada de investidores privados na exploração comercial das principais competições da entidade.
Embora o The Guardian afirme que não há provas de que um contrato definitivo tenha sido assinado, os documentos indicam que a Fifa avaliou seriamente tornar-se parceira institucional da Superliga antes de condenar publicamente o projeto.

