Inibidos pelo medo da rejeição

Temor de recusa dos clubes e risco de perder contratos publicitários torna mais difícil que jogadores assumam homossexualidade publicamente

Justin Fashanu  Justin Fashanu  - Foto: Colorsports/Twitter

Debater, defender e assumir. A tríade que permeia várias histórias sobre o combate à homofobia. É difícil levantar o assunto em um esporte vinculado ao padrão heteronormativo e machista. Ainda mais assumir publicamente a homossexualidade. Para muitos, um ato de coragem. Na semana passada, o ginasta Diego Hypolito admitiu ser gay. Outros atletas também já revelaram a orientação sexual. Mas, no futebol, os assumidos são mais escassos.

O Brasil tem mais de 20 mil jogadores profissionais de futebol, segundo dados da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Desses, apenas um assumiu ser gay publicamente: o goleiro Jamerson, mais conhecido como “Messi”, que rodou por clubes do Rio Grande do Norte, como Globo e Palmeira de Goianinha. Nenhum integrante de equipes das três principais divisões do País fez algo parecido. No máximo, alguns nomes passaram boa parte da carreira precisando responder perguntas sobre uma suposta homossexualidade. O exemplo mais emblemático é o de Richarlyson, que sempre negou o fato. Entre os motivos dos poucos exemplos de jogadores assumidos, estão o medo de ser rejeitado por clubes e o risco de perder contratos publicitários.

Na Europa e América do Norte, alguns jogadores falaram abertamente sobre o assunto, como o alemão Thomas Hitzlsperger e os norte-americanos David Testo, Collin Martin e Robbie Rogers (que depois voltou posteriormente aos gramados), entre outros. A história mais emblemática de todas é a de Justin Fashanu, o primeiro jogador britânico a se declarar gay.

O anúncio, feito em 1990, não foi discreto. Em entrevista ao jornal “The Sun”, da Inglaterra, o atacante negro e de família nigeriana confirmou as suspeitas da época - segundo Nick Baker, autor de uma biografia sobre o atleta, o periódico ofereceu 20 mil libras para que o jogador desse a entrevista, ameaçando publicar a história mesmo sem a permissão. O relato interferiu diretamente na carreira do inglês. Ele passou por várias equipes de menor expressão após a declaração. Antes, vestiu camisas de times como Manchester City e Norwich City. Em 1998, Fashanu, já aposentado, foi acusado de abuso sexual por um jovem de 17 anos. A história nunca ficou provada. Meses depois, ele foi encontrado enforcado ao lado de uma carta de suicídio, negando as denúncias.

Assumir é sempre uma opção difícil, mas há pessoas que vão além. A advogada Luísa Stern participa de movimentos que buscam igualdade de gênero e ajudou a criar a “Queerlorado”, grupo de Facebook formado por torcedores do Internacional que lutam contra todos os tipos de preconceito. Frequentadora assídua do Beira-Rio, Luísa chegou a passar um longo tempo sem pisar no estádio após uma mudança de gênero.

“Eu costumava ir aos jogos quando tinha a identidade masculina, mas quando eu fiz minha transição, eu passei quase sete anos longe. Só depois, quando minha aparência ficou mais feminina, é que eu retornei porque eu ‘passava batida’ entre os torcedores”, disse.

A presença de organizações e torcidas específicas para o público LGBT ajuda no processo de inclusão no esporte. A Fare Network, criada em 1999, combate todo o tipo de discriminação no futebol europeu. A ONG promove desde 2010 a “Football vs Homophobia” (futebol versus homofobia), grupo que realiza campanhas de educação sobre o assunto, além de promover a visibilidade da classe no futebol por meio de torneios temáticos.

Organizadas LGBTs

Na década de 70, Grêmio e Flamengo foram pioneiros ao criar as primeiras duas torcidas gays do Brasil: Coligay e Flagay, respectivamente. Os gaúchos permaneceram com o grupo até 1980, extinguindo após forte preconceito por parte dos próprios torcedores do clube. Os cariocas também não tiveram longevidade na ideia pelos mesmos motivos, tendo, inclusive, uma manchete de jornal com o presidente do rubro-negro na época, Márcio Braga, atribuindo uma derrota para o Fluminense por conta da “presença homossexual”. A torcida chegou a retornar nos anos 90, durando poucos jogos.

Em 2013, foi a vez da Gaivotas Fiéis, criada por um corintiano que teve o namorado agredido por um grupo de torcedores em São Paulo. Em pouco tempo, a torcida recebeu mais de 500 mil pedidos de adesão. As ameaças de violência, porém, desestimularam a presença de gays e a Gaivotas foi fechada. Na Inglaterra, o Chelsea criou em 2016 sua primeira organizada homossexual, com apoio de Ed Connel, presidente da Gay Football Supporters Network e sócio dos Blues. O Arsenal tem a Gay Gooners.

Jogadores que assumiram homossexualidade

Jogadores que assumiram homossexualidade - Crédito: Arte FolhaPE


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