Basquete

Jokic surpreende NBA com estilo de jogo e tipo físico pouco usuais

Um gigante de 2,13 m e 129 kg de acordo com a listagem oficial da NBA, ele tem um estilo pouco convencional que cria múltiplos problemas para a marcação

Nikola Jokic é marcado por Zach Collins na semifinal do Oeste, da temporada 2018-2019Nikola Jokic é marcado por Zach Collins na semifinal do Oeste, da temporada 2018-2019 - Foto: Garrett Ellwood / NBAE / Getty Images / AFP

Quando começou a ficar claro que Nikola Jokic era um problema para o Los Angeles Clippers nos playoffs na NBA, passou a circular nas redes sociais uma foto do sérvio na adolescência. A pergunta implícita era: como aquele menino de corpo pouco atlético tinha virado o terror do forte Kawhi Leonard e do time favorito ao título? Mais do que uma pedra no caminho, Jokic e sua equipe, o Denver Nuggets, significaram o fim da linha para o adversário californiano, que chegou a abrir 3 a 1 na série melhor de sete antes de levar a virada. Agora, a ideia é buscar nova zebra contra outro favorito de Los Angeles, os Lakers, de LeBron James e Anthony Davis.

A final da Conferência Oeste terá início nesta sexta-feira, às 22h (de Brasília), com transmissão do SporTV. Como ocorrera na etapa anterior, as casas de apostas não dão vantagem aos Nuggets. Já na história por vencerem dois confrontos depois de estarem perdendo por 3 a 1, algo que nunca havia acontecido nos 74 anos da liga norte-americana de basquete, os comandados de Michael Malone gostam de ser tratados como azarões. "Esforço e diversão", resumiu Jokic, questionado sobre a fórmula usada para o sucesso do Denver diante de cenários espinhosos. "Temos só que continuar nos esforçando e nos divertindo. É simples para nós."



O que não tem sido simples é parar o sérvio. Um gigante de 2,13 m e 129 kg de acordo com a listagem oficial da NBA, ele tem um estilo pouco convencional que cria múltiplos problemas para a marcação. Misto de pivô e armador, conduz o time a partir da defesa e opera também no garrafão, com uma visão de jogo excepcional. É difícil estabelecer um plano efetivo diante dessa mistura excêntrica. Na semifinal do Oeste, os Clippers não encontraram a solução.

Quando o técnico Doc Rivers escalou o ágil Montrezl Harrell, de 2,01 m, para marcá-lo, Jokic usou sua vantagem na altura para dominar as ações perto da cesta. Quando Ivica Zubac, de 2,13 m, foi acionado para fechar o garrafão, o sérvio começou a castigar o rival nos arremessos de três pontos. Rivers, então, passou a apostar em uma marcação dupla. No momento em que o camisa 15 pegava na bola, surgia um segundo defensor para atrapalhá-lo. Aí, os Nuggets se impuseram de vez. Já considerado por muitos o melhor passador entre todos os pivôs da história da NBA, Jokic passou a encontrar com facilidade o companheiro que ficava livre nesse movimento.

Na decisão do Oeste, ele vai encontrar um rival que em tese tem armas mais eficientes para o combate. Segundo colocado na eleição do melhor jogador de defesa da temporada, Anthony Davis, dos Lakers, tem altura para ser disruptivo perto da tabela (2,08 m) e velocidade para caçar atletas longe dela. De qualquer maneira, o trabalho de Davis e de seus colegas promete ser árduo. Até os arremessos de Nikola Jokic são mais imprevisíveis, de difícil calibragem por parte do defensor. Ele tem em seu arsenal um lançamento com o pulo apoiado no pé direito, o que não é comum para quem tem a mão direita como a boa.

Parece desajeitado, mas funciona, uma descrição que serve para o referido arremesso e para o próprio jogador. Se, aos 25 anos, não mais é o menino gordinho da foto que circulou nesta semana, o sérvio ainda está longe do protótipo físico do atleta de ponta. Desde que chegou à liga, na temporada 2015/16, como apenas a 41ª escolha no processo anual de recrutamento, ele sempre conviveu com críticas sobre sua forma. Mesmo evoluindo firmemente ano a ano, continuou ouvindo questionamentos sobre seu corpo, tão inusual na NBA quanto seu jogo.

Felipe Eichenberger, chefe da preparação física do Denver, não concorda com a censura. O brasileiro reconhece que o sérvio tenha chegado aos Estados Unidos acima do peso, mas vê no atleta o empenho necessário para evoluir, algo que pode ser observado nitidamente dentro de quadra. "Eu o defendo porque é um dos que mais trabalham na equipe. Não falta, está sempre no horário, é um líder. Muitas vezes, as pessoas só veem as estatísticas. Dizem que ele é lento, pesado, mas ele tem vários triplos-duplos", afirmou o preparador à Folha.

"Eu falei para ele: 'Queremos diminuir um pouco seu peso, para que você jogue mais tempo, para diminuir o impacto nas suas juntas. Ele dizia: 'Estou pesado, mas olha meus números'. Foi um trabalho de progressão pensando na carreira dele. A diferença entre cinco e dez anos pode ser 200 milhões de dólares. Quando você explica isso ao atleta, ele entende que vai pesar no bolso", completou Eichenberger.

De acordo com o preparador brasileiro, Jokic ouviu todas as recomendações. E surpreendeu pela aparência quando a delegação do Denver Nuggets chegou à "bolha" da NBA, como se convencionou chamar o ambiente de proteção contra a Covid-19 onde o campeonato foi reiniciado após quatro meses de paralisação. O sérvio aparentava estar mais magro, após um período de infecção pelo novo coronavírus. Mas Eichenberger assegura que isso era apenas uma impressão.

"Muita gente fala que ele perdeu peso na pandemia, o que não é verdade. O começo do programa dele foi há cinco anos, quando tivemos o primeiro contato. Era um jogador que chegou para se somar ao time, sem muita expectativa. E a gente trabalhou muito nesses cinco anos", afirmou o preparador. "Foi um trabalho que não começou na pandemia. Na pandemia, houve um ajuste do que estávamos fazendo. Quem entende de preparação e de fisiologia sabe que isso é tempo de trabalho. Quando tiraram as fotos, parecia que ele estava mais magro. Até entendo. Mas não era resultado da pandemia", disse o brasileiro.

De qualquer maneira, Jokic tem se mostrado em grande forma técnica no complexo da Disney, nos arredores de Orlando, onde foi montada a "bolha". Ele já castigou Utah Jazz e Los Angeles Clippers e agora quer colocar o Los Angeles Lakers em sua lista de vítimas. Isso não significa que o pivô não tenha suas limitações. Ele é o primeiro a admiti-las e molda seu jogo de maneira a esconder a falta de velocidade e de impulsão. Uma tarefa que é cumprida com louvor no ataque e sem a mesma eficiência na defesa, algo que os Lakers pretendem explorar: na proteção à cesta e na marcação de jogadas de corta-luz, as dificuldades são claras.

Ainda assim, em uma jornada improvável nos playoffs, Jokic e o Denver estão vivos. Enquanto já foi para casa o "ciborgue" Kawhi Leonard, chamado dessa maneira por parecer fisicamente indestrutível e por demonstrar poucas emoções, o sérvio ainda está jogando basquete e sorrindo como um adolescente. "Esforço e diversão. É simples."

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