Lesões, um inimigo onipresente dos atletas

Atletas de alto rendimento sofrem rotineiramente com contínuas dores no corpo

A ginasta Jade Barbosa competiu nos Jogos de Londres-2008 A ginasta Jade Barbosa competiu nos Jogos de Londres-2008  - Foto: Ricardo bufulini/cbg

No universo dos esportes de alto rendimento, a expressão “no pain, no gain” (em tradução livre, sem dor, não há ganho) se tornou uma espécie de mantra. A vida de um atleta profissional é acompanhada de uma carga excessiva de esforço físico diário e pela vulnerabilidade a lesões musculares, articulares, ósseas e ligamentares. É raro encontrar um esportista que não sinta uma dorzinha sequer. A maioria, na verdade, tem inúmeras histórias relacionadas a esse assunto.

Embora as atividades físicas sejam recomendadas para melhorar a qualidade e aumentar a expectativa de vida das pessoas, quem tem o esporte como profissão convive com uma realidade diferente.

As dores são acompanhantes constantes, fruto de milhares de treinos de repetição, saltos cujos impactos de suas aterrissagens chegam a até dez vezes o próprio peso corporal, musculação intensa para obtenção de massa muscular, além dos próprios compromissos de competição - momento do esforço máximo e de exposição a choques.

“O atleta de alto rendimento tem que trabalhar no limite do desgaste físico para ter o seu melhor rendimento, porque vai aumentando a capacidade. Tem que ser no limite do desgaste, mas não no desgaste”, afirma o médico ortopedista Stemberg Vasconcelos, que tem 16 anos de experiência na área esportiva. Nesse aspecto, é fundamental que o atleta tenha autoconhecimento para identificar quando a barreira do limite é rompida e o corpo entra em desgaste.

E tão importante quanto os treinos é respeitar a fase de recuperação, na qual se espera a recomposição do organismo e a elevação das capacidades. Ignorar essa etapa significa sobrecarga e aumento do risco de lesão.

Atualmente, fora as informações subjetivas dos esportistas, sinalizando sintomas, há recursos que ajudam a identificar quando o corpo está em desgaste. “Temos, por exemplo, o exame de CK (creatinina quinase) e a termografia, que, quando apresentam alterações, significam maior risco de lesão. São ferramentas que, somadas à análise subjetiva, ajudam no diagnóstico preventivo”, explica Stemberg.

Os registros mais comuns são de pequenas lesões, mas a continuidade de exercícios pode agravar quadros ou levar a outras patologias. São recorrentes as queixas de atletas pressionados em seus clubes ou confederações. Em 2008, o pai da ginasta Jade Barbosa revelou que ela competiu os Jogos de Londres no sacrifício, com uma lesão mal curada no punho direito, e chegou a culpar até a Confederação Brasileira de Ginástica (CBG).

As dores teriam começado no final de 2007 e a opção por não operar acabou agravando o problema. Em exames posteriores à Olimpíada, quase um ano depois, falou-se em caso irreversível e perda óssea.

Um caso mais recente foi o da central da seleção de vôlei Thaísa, que revelou estar jogando “no sacrifício” por “insistência” do clube turco Eczacibasi Vitra, à base de medicamentos para diminuir o desconforto de uma lesão no joelho direito. O problema, que poderia ter sido solucionado com um procedimento mais simples, acabou agravado e, agora, ela passará por cirurgia. Thaísa só parou por conta de outra lesão, uma fratura no tornozelo.

Situação parecida viveu a armadora Juliana Malta, que começou no handebol pelo Clube Português do Recife e está na Polônia há mais de duas temporadas. Ela rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo em uma partida da Liga Polonesa e foi liberada pelos médicos do clube Zaglebie Lubin seis meses após a cirurgia, tempo antes do mínimo recomendado (sete meses). No segundo treino, teve novo rompimento.

“Infelizmente vivi essa realidade (de pressão). Todos os dias eles me perguntavam quando eu iria voltar, se já estava boa, diziam que precisavam de mim. Chegaram a dizer que eu tinha que treinar mais para voltar mais rápido. Na terceira e última cirurgia (Juliana sofreu um terceiro rompimento), que fiz com a seleção brasileira, tive uma reabilitação muito longa, de 11 meses. A partir do sexto mês o meu clube já começou a pressionar que eu voltasse para a Polônia, pois queriam que eu jogasse as finais”, relata ela, que passou a refletir mais sobre a pressão vivida pelos atletas em ter que cumprir contratos para não “se queimar” e estar sempre em evidência para não cair no esquecimento.

“Depois das três lesões no joelho, entendi que precisamos ouvir o nosso corpo. Se eu não tomar conta dele, ninguém vai saber se eu preciso ou não descansar ou fazer algum tratamento. Antes das lesões, não ligava muito, sempre jogava e treinava sem escutar o que eu realmente precisava. Acredito que tudo tem que ter um equilíbrio e os atletas precisam ter mais consciência disso e saber conversar com o seu clube, pois se ele lesionar o problema maior vai ser dele e não do clube.”

Prevenir é o melhor remédio para evitar patologias graves.

Eliminar o risco de lesões é uma realidade fora de cogitação no desporto. Existem, porém, caminhos para minimizar as chances de uma patologia grave. O principal deles é a prevenção. Atualmente, as equipes que trabalham no alto rendimento possuem preparadores físicos e fisioterapeutas, responsáveis por cuidar do principal objeto de trabalho do atleta, o corpo.

Na Uninassau Basquete, por exemplo, pré-temporada é uma regra. “Quando as atletas chegam, fazemos uma análise individual minuciosa para catalogar. Listamos lesões antigas, fazemos diversos exames (CK, termografia, tipo de pisada, entre outros) e traçamos os perfis. Cada modalidade tem suas peculiaridades, movimentos que propiciam determinadas lesões. No ca­­­­so do basquete, por exemplo, ca­­­­da posição tem uma predisposição de acordo com o grupo muscu­­­lar mais exigido. Então, é fundamental traçar o perfil de cada uma dentro do grupo e as características do esporte para fazer uma boa prevenção”, explica o fisioterapeuta da equipe, Dayvisson Marques.

Um exemplo pontual é o vôlei, modalidade na qual uma gama de atletas sofre com patologias nos ombros, como é o caso do atacante Murilo, que já passou por duas cirurgias no ombro direito e, declaradamente, participou de torneios à base de anti-inflamatórios - o uso de remédios dessa natureza, inclusive, são corriqueiros no esporte.

O atacante, há cerca de três anos, revelou que o corpo estava pedindo um tempo e ele tinha de respeitar. Essa decisão é extremamente importante e reforça a importância de uma boa comunicação entre atleta, comissão técnica e departamento médico. Outra ferramenta fundamental é a psicologia, auxiliando o atleta a identificar quando as dores deixam de ser resultado de um treinamento e passam a indicar desgaste. O fato de o corpo ser o instrumento base do trabalho faz com que alguns esportistas escondam desconfortos para não perderem espaço.

“Trabalhamos a autoconsciência e responsabilidade com o corpo. O atleta precisa entender que o corpo é um instrumento de trabalho valioso”, destaca a psicóloga do esporte, Rosângela Dornelas.

Saiba mais :

CINESIOFOBIA - É o medo que um atleta tem de voltar a realizar uma atividade que um dia lhe trouxe dor. Há receio de realizar novamente um determinado movimento mesmo sendo capaz. E se isso não for trabalhado corretamente, pode diminuir o rendimento do atleta.

SEM FÓRMULA
- Cada lesão é particular, individual. Não existe uma fórmula, um tempo pré-definido para recuperação. Há lesões, inclusive, que vão além de fisioterapia e medicamentos, necessitam de tempo. Um exemplo são as lesões de cartilagem.

INFILTRAÇÕES - Procedimento médico por vezes utilizado no desporto, em­­-bora seja rechaçado por muitos profissionais. Quando um atleta atua à base de infiltração, como aconteceu com Thaísa, do vôlei, significa estar no limite da dor. A medicação é aplicada direto na articulação, lubrificando-a. Mascara a dor, mas não trata, sendo necessário um tratamento minucioso posteriormente.

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