Lucas Lyra: "Já perdi cinco anos e meio da minha vida"

Vítima da violência entre torcidas organizadas, jovem lamenta as implicações de um disparo desnecessário

Família travou uma luta pela vida de Lucas LyraFamília travou uma luta pela vida de Lucas Lyra - Foto: Brenda Alcântara

Na casa da família Lyra, embora a dinâmica seja viver um dia por vez, as lembranças são inevitáveis. Entre as recordações, o fato de estarem atravessando o melhor momento de suas vidas à época daquele 16 de fevereiro de 2013. "Todos estavam trabalhando. Eu ia conseguir fazer a especialização que tanto queria na minha área (arte terapia). Mirella (irmã mais velha) no melhor emprego que já teve. Lucas também empregado, e Joel (irmão caçula) como menor aprendiz. Era com certeza o nosso melhor momento", recorda a matriarca Christina. A vítima maior, sem dúvidas, é Lucas. Mas todos sofreram - e sofrem - as implicações de um disparo desnecessário. "Eu já perdi cinco anos e meio da minha vida. Se isso não tivesse acontecido, estaria me formando em T.I (Tecnologia da Informação)", diz Lucas, com uma consciência que desafia qualquer prognóstico médico.

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Mesmo com a perda de massa encefálica proveniente da lesão na cabeça, ele é lúcido e não tem problemas de memória. Pelo contrário. Lembra de tudo o que aconteceu em detalhes, ao ponto de cantar a música que era toque no seu celular naquele dia - uma de incentivo ao Náutico. Com saudosismo, recorda também as histórias da adolescência, as amizades, as namoradas da época do colégio e os sonhos que ficaram pelo caminho. Gosta ainda de falar sobre música. E de cantar, embora não consiga desenvolver muito. “Gosto de reggae, heavy metal e MPB. As músicas antigas são as melhores. Atualmente o gosto é muito ruim”, diz ele, citando o irmão Joel.

No apartamento em que a família vive não faltam amor e fé, sem dúvida os combustíveis que os mantém serenos em meio a tantas dificuldades. Orações, declarações e apelidos carinhosos atenuam a rotina de cuidados e preocupações. Nos últimos anos, Lucas evoluiu, sobretudo na comunicação, mas há sequelas que não podem ser desprezadas. Além de paralisia no lado esquerdo do corpo, ele teve reações severas pelo uso prolongado de corticoides, como perda de visão periférica, vista dupla, catarata precoce, osteoporose e osteopenia. Sente dores 24 horas no umbigo, provenientes de uma hérnia que foi operada, mas não sanou o incômodo. No ano passado, precisou de medicações fortes para combater uma infecção na sutura da cirurgia na cabeça e o fármaco lhe causou perda auditiva, tirando momentos importantes de lazer, como conversar naturalmente e ouvir músicas e jogos do Náutico no rádio. "Lucas era batuqueiro de maracatu e hoje está surdo. Dói muito", lamenta Mirella.


A família tenta junto à Pedrosa a aquisição de um aparelho auditivo específico para a necessidade dele. A empresa tem obrigação legal de bancar tudo relativo à recuperação de Lucas, bem como 90% do aluguel da família. Mas a liberação dos recursos não é tão simples. “Desde abril, por exemplo, estamos batalhando o tratamento dentário de Lucas. Ele desenvolveu bruxismo, teve desgaste muito grande nos dentes, sente dor, sangra. Regrediu para alimentação líquida e pastosa”, conta Christina. “Esse tratamento é a prioridade porque infecção na boca pode matar. E a Pedrosa disse que não vai custear. Diante de todas as dores que ele sente, ter dor de dente porque a Pedrosa não quer pagar é demais. Lucas está nessa situação porque eles contrataram um segurança desqualificado”, reforça Mirella. Procurada, a empresa disse não se manifestar sobre processos judiciais em curso.

Lucas sabe das necessidades que tem, mas não foca nisso. Surpreende quando aborda assuntos atuais, como política, e dá lições de vida com sua serenidade. A todo momento, olha pela janela do quarto, aponta para o céu e agradece a Deus pela oportunidade de viver e estar ao lado das pessoas que ama. Não questiona os motivos do destino. "Eu tive uma EQM (Experiência de Quase-Morte, transcendental, passada por algumas pessoas que estiveram em situações fisiológicas extremas). Foi o momento mais lindo da minha vida, não fisicamente, mas espiritualmente. Acordei em pé, em lugar todo azul claro de verão. Vi a sombra de um homem com uma luz mais forte que sol. Ele me perguntou: 'o que estais fazendo aqui?'. Foi quando eu, todo curioso, olhei para baixo e vi as nuves. Assustado, perguntei se era o céu e ele disse que sim. Perguntei se tinha morrido e ele disse que não. Explicou que era Deus, que ainda não tinha chegado a minha hora e que eu devia voltar e continuar amando as pessoas como sempre amei. Eu amo a vida da mesma forma, amo minha família, amo Luna (cuidadora), amos as pessoas e amo até o réu confesso que fez isso comigo."

 

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