Mãe de juiz: amor à prova de ofensas

Ser mãe de um árbitro de futebol significa não só apoiar o filho, mas ter que suportar - sem perder o bom humor - insultos dos mais variados

Cristiane até deixou de ver Victor apitar partidas pelos  desaforos ouvidosCristiane até deixou de ver Victor apitar partidas pelos desaforos ouvidos - Foto: Anderson stevens

O futebol é repleto de atores imprescindíveis para a sua realização. Jogadores, técnicos, árbitros, torcedores... Todos eles fazem parte do universo futebolístico e contribuem decisivamente para o espetáculo. Curiosamente, há também um personagem sempre lembrado, mesmo que não esteja necessariamente presente no campo ou arquibancadas: as mães dos juízes.

Em um esporte movido pela alta carga emocional, não há saída. Invariavelmente as progenitoras dos árbitros são invocadas dentro de uma partida. Contudo, para desgosto delas, nada de carinhos ou afagos. Muito pelo contrário. Os recados se tratam sempre de ofensas impublicáveis. Para piorar, em alto e bom som. Ou seja, se criar filhos já não é tarefa fácil, ser mãe de um árbitro é dureza ainda maior. Entretanto, mãe que é mãe apoia o filho até nessas horas, engolindo sapos com leveza, bom humor e um sorriso no rosto.

Filiado ao Sindicato dos Árbitros de Pernambuco, Victor Albuquerque já viu sua mãe sentir os efeitos de ser o alvo preferido de futebol. “Ela foi em um jogo que apitei e não teve nada de muito grave. Depois ela foi em outro e ouviu tantos xingamentos que disse: ‘essa é a segunda e última vez que eu venho’”, conta, aos risos, o juiz que apitou o amistoso Náutico x Agap, neste ano. O episódio não sai da cabeça de Dona Cristiane, que faz graça do dia em que decidiu parar de ver o filho em ação.

“Um menino começou a esculhambar, falar palavrão, chamar de ladrão, dizer coisa e aí é claro que a gente não gosta”, relembra, sem segurar risadas. No entanto, não foi por isso que ela desencorajou Victor a seguir por esse caminho. “É uma profissão e é o que ele quer fazer. Ele gosta muito de futebol. Então eu dou a maior força a ele para fazer curso, faculdade. A gente sofre, lógico, porque esculhambam a gente, mas é normal”, reflete, antes de garantir. “Mas eu ainda vou para algum jogo dele em estádio. Até porque eu gosto muito de futebol”, assegura.

Perrengue semelhante já foi vivido por Alcione Pereira da Silva. A mãe do juiz que atende simplesmente pelo nome de Gobato já se diz até acostumada a ser alvo de tantos impropérios. Por mais rasteiros que eles sejam. “Eu entendo que é o momento de desespero deles (jogadores e torcedores), mas meu filho é muito bom, aí já ajuda”, brinca. “E é a profissão que ele gosta, aí não deu para ficar tão preocupada. Ele sempre quis isso. Já acompanhei alguns jogos que ele apitou, não fiquei magoada não. Todo torcedor e jogador sempre xinga a mãe, mas é assim mesmo. Faz parte”, diverte-se.

“A mãe é mais extrovertida do que eu, é bom que ela aceita numa boa”, regozija-se Gobato, famoso nos campeonatos de Várzea. Segundo Dona Alcione, nessas horas, rir é mesmo o melhor remédio. Afinal de contas, o prazer de ver o filho fazendo o que mais gosta supera qualquer aborrecimento. “Se eu ficasse realmente magoada eu só iria uma vez, mas já fui várias vezes. Escutava os xingamentos e só fazia dar risadas. Até mesmo as crianças quando estão jogando falam da mãe do juiz”, pondera. “O importante na verdade é o que eu sou para ele, não é verdade?”, filosofa Dona Alcione.

Veja também

“Não dá tempo para lamentar, não pode abaixar a cabeça”, diz Jair Ventura após derrota do Sport
Sport

“Não dá tempo para lamentar, não pode abaixar a cabeça”, diz Jair Ventura após derrota do Sport

Após nova intervenção decisiva do VAR, Sport perde no Rio para o Fluminense por 1 a 0
Sport

Após nova intervenção decisiva do VAR, Sport perde no Rio para o Fluminense por 1 a 0