Alisson, goleiro da Seleção Brasileira
Alisson, goleiro da Seleção BrasileiraFoto: Marco Bertorello/AFP

Eleito o melhor goleiro do mundo em 2019, Alisson, 27, vive o auge da carreira como um dos protagonistas do eletrizante Liverpool, atual campeão da Champions League e líder isolado do Campeonato Inglês, de desempenho quase perfeito. Após 25 rodadas, são 24 vitórias e apenas um empate na competição -97,3% de aproveitamento e vantagem de 22 pontos para o Manchester City, segundo colocado. Até agora, é a melhor campanha na história da liga inglesa.

Em entrevista à reportagem realizada em sua casa, em Manchester, distante 55 km de Liverpool, Alisson fala sobre a campanha do time no Nacional, cujo troféu o Liverpool não levanta desde 1990, a repercussão entre os jogadores da atuação do Flamengo no Mundial, religião e política.

Pergunta - Como o Liverpool consegue manter o alto nível de performance em uma liga que exige tanto?
Alisson - Vejo a nossa equipe muito madura para lidar com diferentes circunstâncias dentro da mesma partida. Apesar de jovem, é um time experiente, com muito desejo de vencer. Sentimos o gosto da vitória vencendo a Champions e queremos mais. É como um tubarão que sente o cheiro de sangue na água, fica cego e ataca. Desenvolvemos um instinto dentro da nossa equipe. Sentimos que podemos alcançar o que queremos, temos uma longa estrada, mas vamos persistir nisso.

A sua assistência para o Salah [na vitória sobre o Manchester United, ele deixou o atacante livre para marcar ao repor a bola em jogo] é fruto de treino ou foram decisões acertadas dos dois?
A - Isso é treino diário. O lançamento longo é algo que eu tenho como característica, apesar de usar pouco porque sempre saímos jogando com a bola no pé. Eu vi ele correndo e pedindo a bola desesperadamente, e eu não consegui ver muito além do De Gea [goleiro do Manchester United], que estava um pouco adiantado. Então eu sabia que teria de ser um chute preciso, não muito longo, para o goleiro deles não chegar a tempo. A bola foi perfeita, mas acredito que 60% da jogada foi a movimentação e condução dele para fazer o gol.

Falta algum prêmio individual ou você ganhou todos?
A - Zerei o jogo [risos]. Agora tenho que repetir. Só não ganhei os prêmios de melhor jogador no geral, mas da posição de goleiro foram todos.

É viável um goleiro ser eleito o melhor jogador do mundo?
A - Sim, mas depende de vários fatores. Não é só estar bem dentro de campo, é a consistência também. O meu principal objetivo, depois das conquistas coletivas, é ser a melhor versão de mim mesmo, fazer melhor do que a temporada que passou. Às vezes manter o alto nível também é um passo à frente.

Você se vê como candidato a ser o maior goleiro brasileiro de toda a história na Europa?
A - Podemos pensar nisso daqui a uns dez anos, quando eu parar de jogar futebol [risos]? Por mais que eu tenha conquistado todos esses prêmios individuais, tenho um longo caminho para percorrer. Se você olhar o currículo do Dida, não chego nem aos pés dele. O Taffarel foi um dos protagonistas do tetra, o Júlio César tem uma carreira muito vitoriosa e é um dos goleiros com mais atuações pela seleção. Não consigo me colocar ao lado deles no momento, talvez após me aposentar.

Como você se cobra e analisa seu próprio jogo?
A - Primeiro de tudo, quando eu erro já sei na hora que eu errei, o que errei e talvez o que eu poderia ter feito de diferente. Pode até não ter falha, mas pode ter um movimento errado, às vezes um passo para o lado no momento do chute. Vejo também as tomadas de decisão na hora de sair jogando, quando poderia ser pelo chão ou pelo alto. Ligo para o meu irmão [Muriel, goleiro do Fluminense] após os jogos, sejam os meus ou os dele, e conversamos sobre o que poderíamos ter feito de diferente.

Como o técnico do Liverpool, Jürgen Klopp, consegue extrair tanto dos jogadores?

A - Isso se deve à simplicidade dele. Ele é simples e verdadeiro. Tem convicção na metodologia dele de trabalho. E quando tem resultado, tem credibilidade. É um cara muito justo e correto com todo mundo.

Quão abalado você ficou com a eliminação na Copa do Mundo da Rússia?
A - Foi um momento muito triste, principalmente dentro do vestiário. Ali foi o fim do sonho para alguns mais experientes. Por eu ser jovem, a tendência é que eu tenha mais oportunidades. Acredito no meu potencial e, apesar do longo caminho até a próxima Copa, acredito que estarei lá. A derrota é um momento muito ruim, mas ao mesmo tempo escancara muita coisa, nos ajuda a identificar os erros para nos reorganizarmos. Foi fundamental não termos visto aquele momento como terra arrasada.

Como repercutiu no Liverpool a atuação do Flamengo no Mundial?
A - Foi muito positiva. Não digo [que fomos] surpreendidos, mas os meus companheiros ficaram admirados com a qualidade dos jogadores, a organização. O Mundial não é tão valorizado na Europa. Nós valorizamos porque estávamos lá, ainda mais eu e o Firmino por sermos brasileiros. Eu estava muito feliz. E realmente jogaram de igual para igual com o Liverpool.

Como você vê o deboche de torcedores rivais do Flamengo que falam que o time jogou "de igual para igual"?
A - As pessoas no Brasil ficaram muito empolgadas, a imprensa falava que o Flamengo tinha chance de vencer. Realmente, futebol é jogado, e o Flamengo tem uma equipe capacitada para isso, só que eu senti um desconhecimento de quem comentava sobre a nossa equipe. Não questiono a qualidade do Flamengo, mas vejo que as pessoas não nos respeitaram o suficiente. Nós não chegamos nem perto de ter uma atuação do nível que temos na Premier League, tanto em intensidade quanto em nível técnico. É muito difícil sair do Inglês e replicar o padrão em dois jogos fora da sua rotina.

Você é evangélico, bastante religioso, e no Liverpool tem jogadores de crenças variadas. Como essas diferentes fés interagem no dia a dia?
A - Vou corrigir um pouco. Não sou religioso, sou seguidor de Cristo. Quando falamos em religiosidade, fica muito atrelado a tradições e fatores que mancham um pouco a história rica do cristianismo. Jesus é muito mais do que religião.

Existe uma curiosidade pela religião um do outro entre vocês?
A - Conversamos sobre o assunto. Quando o Firmino foi batizado nas águas, todo mundo perguntou o que era aquilo, o que significava. Gosto também de entender como as pessoas de outras religiões pensam. É legal até para conhecer o nosso companheiro.

Com quem você mais fala sobre o tema?

A - Converso bastante com o Salah, porque procuro entender uma realidade diferente da nossa no Brasil. Ele também pergunta. Aqui na Inglaterra existem muitos muçulmanos, então penso que os ingleses sabem muito mais sobre a cultura muçulmana do que nós. É algo distante para nós. O que víamos era a novela da Jade [personagem de "O Clone", da TV Globo].

Existe muito preconceito contra os jogadores evangélicos no Brasil?
A - O preconceito está em todo lugar. O preconceito existe a partir do momento que você tem dificuldade de assimilar uma opinião diferente, seja religião, opção sexual ou qualquer outra coisa. Não concordar não me dá o direito de ser preconceituoso. O nosso mandamento como cristão é pregar a palavra, mas eu não invado a privacidade de nenhuma pessoa para fazer isso. Se a pessoa não quer saber, não vou falar.

Qual é sua opinião sobre a polarização política no Brasil?
A - Acredito que as pessoas pregam muita liberdade de expressão, mas não sabem respeitar a opinião dos outros. Vivemos anos em que a esquerda afundou o país economicamente. Fizeram coisas boas, ajudaram principalmente os mais pobres, mas qual era o objetivo? O que eles fizeram de ruim foi muito mais grave do que as coisas positivas. Não tem que colocar numa balança. Fez coisa errada, roubou, mas ajudou fulano, os pobres. Não é assim. Vejo as pessoas que não votaram no Bolsonaro torcendo para que ele faça algo errado para terem razão. Não é questão de ter razão. Se ele for um bom presidente, vai ser bom para todos, mesmo para quem não votou nele. Espero que as mudanças que aconteceram sejam para o bem do Brasil e que eu consiga continuar a minha caminhada na seleção e levar alegria para as pessoas através do futebol, que sempre foi um escape para o nosso país.

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