Adalvo Argolo e Guilherme Pollastri, rivais na gestão da CBSurfe
Adalvo Argolo e Guilherme Pollastri, rivais na gestão da CBSurfeFoto: Divulgação

Presidente da CBSurfe (Confederação Brasileira de Surfe) há mais de uma década, o baiano Adalvo Argolo tenta resistir como pode, mas deve ser derrubado do cargo nas próximas semanas, antes de encerrar o seu atual mandato, com duração teórica até 2020.

Na última sexta-feira (8), representantes de sete federações estaduais se reuniram no Rio de Janeiro e decidiram pela solicitação do afastamento temporário do cartola. Ele tem 15 dias úteis para apresentar sua defesa no processo e reverter o cenário. Entre os argumentos principais das federações está o fato de o presidente não ter transparência na prestação de contas, de forma que os conselheiros fiscais da confederação jamais se reuniram.

Antes apoiado pelas federações estaduais, sobretudo as do Nordeste, Argolo agora é criticado por, entre outras coisas, ter utilizado recursos públicos para alugar um imóvel pertencente à esposa e por não ter consultado em assembleia sobre o recebimento de salários mensais de R$ 22 mil.

Em setembro do ano passado, o episódio com a seleção brasileira que iria aos ISA Games – espécie de Mundial amador – também pesou, uma vez que Argolo recusou apoio do Comitê Olímpico Brasileiro dizendo que a CBSurfe faria a compra das passagens e, no entanto, o mesmo não foi feito, ficando o Brasil sem representação.

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Argolo diz não reconhecer a legalidade do encontro que resultou no pedido de afastamento e toma uma série de medidas para se agarrar ao cargo. Mas o baiano perdeu o apoio daqueles que, há mais de 20 anos, garantem sua permanência na presidência da CBSurfe: os seus colegas de federações do Nordeste.

O carioca Guilherme Pollastri, vice-presidente da entidade desde 2016, é um dos protagonistas principal deste embate, tendo o apoio do pernambucano Geraldo Cavalcanti, o Geraldinho - da Associação Nordestina de Surfe (ANS), antigo aliado de Argolo -, e da maioria das federações da região, a exemplo de Pernambuco, Alagoas, Paraíba, Sergipe e Bahia. Alguns surfistas profissionais, sobretudo os da categoria Máster, também estão contra o atual presidente.

O baiano prolongou sua estadia na presidência de uma confederação que foi perdendo relevância no cenário esportivo nacional ao longo do tempo, chegando a organizar somente eventos amadores – poucos, por sinal. Com a inserção do surfe no programa olímpico, contudo, o cenário mudou, com a CBSurfe passando a receber recursos da Lei Agnelo/Piva, o que tornou o cargo de Argolo mais concorrido e o colocou no alvo.

No fim do ano passado, Guilherme Pollastri buscou diversas vias para tentar afastar Argolo. Teve sucesso na Justiça do Distrito Federal, que determinou o afastamento do presidente em dezembro. Pollastri assumiu, mas não teve acesso de fato aos documentos da confederação, sediada em um imóvel da esposa de Argolo, conforme revelou o blog Olhar Olímpico, do UOL Esporte. No mês passado, uma desembargadora derrubou a liminar e devolveu o poder ao baiano.

Na última sexta-feira (8), ciente da assembleia que ocorreria no Rio, reunindo os agora “opositores”, Argolo deu também sua cartada. Um suposto STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) da confederação, até então inexistente, suspendeu preventivamente Pollastri por 30 dias, alegando "reiteradas violações ao estatuto da CBSurfe". "Essa é a única notícia válida do dia", informa o site da confederação.

"Fui eleito democraticamente e continuarei trabalhando com afinco inabalável até o final do meu mandato em 2020. Enquanto isso, Guilherme desperdiçou seu tempo com mais uma de suas 'aventuras irresponsáveis', fora da legalidade, como de costume, dando sequência a uma reunião sem pé nem cabeça", comentou Argolo na mesma publicação, na qual ainda cita a presença do rival como réu na Operação Zelotes, da Polícia Federal.

A batalha jurídica promete novos capítulos em breve. Na ata da assembleia realizada na sexta, as federações fizeram questão de ressaltar que a CBSurfe não informa quais entidades estão, ou não, com as obrigações de filiação em dia. Argolo, por sua vez, diz que, como presidente, tem a prerrogativa de cancelar uma assembleia, mesmo que convocada para derrubá-lo, justificando que somente ele poderia comandar uma assembleia e que Pollastri o fez durante uma presidência “não reconhecida”.

Em longa nota enviada à reportagem nesta segunda-feira (11), Argolo zombou da assembleia e fez ataques a Pollastri, que tenta recorrer da suspensão preventiva alegando que o citado STJD da CBSurfe na verdade nunca existiu. Em sua nota, Argolo não contesta nenhuma das acusações feitas a ele, somente acusa Pollastri e ameaça processar o vice-presidente e as federações que participaram da assembleia. "Vejam que Guilherme agiu com aquela costumeira 'esperteza e malandragem' que ele julga serem acima da média", diz em um trecho da nota, criticando o fato de Pollastri não assinar a ata e não aparecer nas fotos da reunião.

   Sem eventos

Em meio a tal situação, a CBSurfe enviou um esboço de calendário para a atual temporada do surfe nacional, com campeonatos de longboard, máster e amador. Pernambuco, Pará, Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro estão entre os palcos citados, o que coloca em risco a realização desses eventos em caso e continuidade de Argolo na confederação. "Se ele seguir, não vão ter eventos. Serão todos pela Abrasp (Associação Brasileira de Surf Profissional)", adiantou Geraldinho. "Fui um dos incentivadores na época da eleição dele, sempre o apoiei. Uma relação de amizade pessoal mesmo. É um sentimento de traição descobrir que achávamos que ele passava tudo relacionado à confederação, mas, na verdade, ele só passava o que queria que a gente soubesse. Falhamos também em acreditar e não checar as coisas", completou o gestor da ANS. 

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