Mulher e treinadora de futebol: conheça a história de Nilmara Alves

Com o feito de ser a primeira mulher a ter o nome inscrito no BID, Nilmara estudou, enfrentou o preconceito, e hoje é exemplo para todas as mulheres que sonham em trabalhar com o futebol

Nilmara Alves foi a primeira mulher a ter o nome inscrito no BID como treinadora de futebol masculinoNilmara Alves foi a primeira mulher a ter o nome inscrito no BID como treinadora de futebol masculino - Foto: Divulgação

Ao surgir no Boletim Informativo Diário (BID) da CBF o nome de Nilmara Alves, 37 anos, a treinadora quebrou, de uma vez, diversos tabus em um universo dominado por homens. Entenda: a atual comandante do Manthiqueira de Guaratinguetá, equipe do interior de São Paulo que, este ano, disputou a Série A3 do Campeonato Paulista, se tornou a primeira mulher a comandar um time masculino de futebol profissional no Brasil. Uma marca que não foi atingida por acaso. O contato dela com a modalidade é antigo. Iniciado no momento em que ela soube que aquele esporte era a sua maior paixão.

Quando criança, Nilmara já era uma amante dos esportes. Praticou vôlei, basquete e, naturalmente, futebol. O envolvimento profissional com a modalidade bretã se deu nos campos do Vale do Paraíba, em São Paulo, ainda como atleta. Até que surgiu uma oportunidade de começar a cursar Educação Física. Já como estudante, um ex-treinador ofereceu-lhe um estágio na escolinha do São Caetano/SP, então coordenada pelo atual presidente do Manthiqueira, Dado de Oliveira. Foi neste instante que começou a sua história com o atual clube.

Em 2011, após filiação do Manthiqueira junto à Federação Paulista de Futebol, Nilmara tornou-se preparadora física das categorias de base da instituição, função já incomum entre mulheres. Um ano depois, em uma reunião, o presidente Dado surgiu com a ideia de efetivá-la para técnica do time principal do clube. "No começo eu não acreditei muito. Levei na brincadeira e continuamos a reunião. Só que depois teve uma segunda reunião e ele falou de novo na possibilidade. Aí eu vi que ele estava falando sério e que isso podia se concretizar. Foi quando comecei a estudar mais, trabalhar e pensar bastante na viabilidade da proposta. Numa outra reunião resolvi aceitar por ser mais um novo desfio na minha vida, para provar que a mulher pode ter o seu espaço no futebol, e ver se também conseguia trazer mais mulheres para o esse âmbito", disse a treinadora.

A escolha de Nilmara para técnica do time decorreu de uma série de qualidades que ela tinha como educadora. “Ela tem um diferencial que é um ‘feeling’ muito apurado na hora de substituir um atleta ou mexer no time. Além disso, conhece futebol, tem formação em educação física e diploma de técnica, conforme exigido pelo sindicato dos técnicos de São Paulo”, ressaltou Dado, sem deixar passar o elemento mais importante para a sua contratação. “Ela tem a identificação da profissional com a filosofia de trabalho do Manthiqueira, baseada no jogo limpo e honesto.”

Além do compromisso à beira dos campos, Nilmara é funcionária pública na cidade de Aparecida, onde exerce suas funções em uma creche. A necessidade de outro vínculo empregatício se dá pela baixa folha salarial do clube, bancada em sua maior parte pelo presidente, com auxílio da prefeitura. Com a regulamentação da profissão de treinadora, porém, a comandante destacou que as condições tendem a melhorar. “Achei muito importante o registro, não só para mim, que sou mulher. Mas é um passo a mais para todos os treinadores, para termos um contrato, um pouquinho mais de tranquilidade para estar trabalhando com todos os direitos que temos. Antigamente não precisava tê-lo. Muitos treinadores trabalhavam em dois ou três jogos e não tinham resultados positivos já eram trocados. Então o registro trouxe um passo a mais para o treinador de futebol no Brasil chegar ao topo em que merecemos”, disse Nilmara.

Enfrentando o preconceito

Apesar das qualidades de Nilmara, o preconceito por ser mulher, muitas vezes, supera todas as suas conquistas. “Meu primeiro ano no comandando do Manthiqueira foi incrível. Conseguimos bons resultados, obtive respeito da torcida, dos jogadores e dos adversários. Porém, como o futebol é um ambiente muitas vezes ingrato, quando os resultados não vêm todos parecem esquecer tudo o que já foi construído. Há aqueles que falam que mulher tem que estar na cozinha, mulher tem que estar no tanque lavando roupa e não no futebol”, relatou a treinadora, que não abaixa a cabeça perante as dificuldades.

“As mulheres precisam acreditar nos seus sonhos, lutar por eles, estudar bastante, já que o futebol é um ambiente ainda mais machista. Então temos que estar sempre um passo à frente deles. É acreditar no sonho e lutar, mesmo com preconceito, com a falta de oportunidade. Não podemos deixar de correr atrás do objetivo que na hora certa vai surgir a oportunidade. É procurar agarrá-la e fazer o melhor que possa com amor que, com certeza, a mulher a cada ano vem conquistando mais seu espaço” finalizou.

A presença de Nilmara liderando o time de Guaratinguetá está garantida nos esforços para reerguer o clube em 2019. Dado de Oliveira confirmou a permanência da técnica para a próxima temporada na busca à volta da Série A do Campeonato Paulista.

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