Consciência Negra

Do reino de Aqualtune a Zumbi: existe combate ao racismo na base do Trio de Ferro?

Neste dia 20 de novembro, é necessário lembrar a importância da sociedade e dos clubes de futebol serem antirracistas todos os dias

Trio de Ferro ainda engatinha nas ações de combate ao racismoTrio de Ferro ainda engatinha nas ações de combate ao racismo - Foto: Divulgação / Evelyn Fotografia / Divulgação

Longe de ter vivido um conto de fadas, Aqualtune, a princesa do reino de Congo, foi sequestrada e trazida ao Recife no final do século XVI pelos portugueses como "escrava reprodutora", dentro do período que pode ser considerado como o mais violento da história brasileira, a colonização. Ao descer do navio negreiro, ela fugiu junto a outros escravos para o território onde posteriormente viria ser erguido o Quilombo dos Palmares, e, a partir daí, precisou se construir como símbolo de resistência, em meio a uma história sangrenta, que de maneira imposta destinava a seu povo um único caminho: a senzala. A princesa foi mãe de Ganga Zumba e avó materna de Zumbi, juntos, imortalizados como representações de luta e libertação do povo negro. 

Mais de 400 anos se passaram e a história invertida de Aqualtune, Zumba e Zumbi continua presente na realidade brasileira. De forma reinventada e, ao contrário do que muitos pensam, nada velada. Deles, outros líderes forçadamente surgiram dentro de um processo por si só violento, inclusive, dentro do esporte. Foi também estendido ao futebol, que nasceu como berço da elite branca e, entre as variantes exceções, ambiente que até hoje é utilizado como mecanismo de dominação e sustentação estrutural do racismo, seja a partir das arquibancadas, dos gramados ou dentro das estruturas dos clubes. 

Neste dia 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, é importante apontar a história e o que dela é perpetuado, mas não parar nela. Também é imprescindível destacar a necessidade dos clubes de futebol tratarem do problema desde as categorias de base, onde tudo começa para a maioria dos atletas, entendendo a necessidade de não individualizar os casos, uma vez que o racismo é problema coletivo e social, que cabe a todas e todos combater.

Referência no Nordeste e espelho para o Brasil, o Bahia é um dos clubes que se destacam na realização do trabalho psicossocial e de enfrentamento ao racismo no país. Conhecido por ter um corpo diretivo preocupado com a formação social dos atletas das categorias inferiores, o clube tem um projeto específico para discutir o problema. Trata-se do Projeto Terceiro Tempo, que conta com palestras dialogadas, participação dos jogadores, familiares e colaboradores da agremiação. 

“Trazemos temas diversos voltados para a valorização dos nossos ancestrais, bem como o combate ao racismo institucional. Fazemos parceria com outras instituições, a exemplo de um desfile de moda que enalteceu a beleza e o empreendedorismo de jovens negros da nossa periferia soterapolitana”, contou a psicóloga e coordenadora psicossocial do Tricolor, Aline Castro. 

Além do projeto, o clube baiano tem em sua programação a Semana da Consciência Negra - amostra de que é possível tornar a discussão de um problema diário como prioridade no dia a dia - na qual temas relacionados ao racismo cultural, racismo Institucional e políticas sociais e transversais na garantia de direitos e inclusão social são expostos e debatidos. Neste ano, a formatação teve de ser modificada em decorrência da pandemia do novo coronavírus. 
 

Mulher preta e integrante do Departamento Social do Bahia, a assistente social Adnaildes Santos se coloca dentro da luta antirracista no clube e expõe a necessidade de exaltar diariamente a ancestralidade como fundamento de autoconhecimento e fortalecimento da população negra.  

“Historicamente foram construídos na sociedade, nos mais diversos seguimentos, comportamentos que segregam e maltratam os negros. Precisamos falar da nossa ancestralidade todos os dias, com a finalidade de nos fortalecer para conquistarmos espaço de poder, lugar de fala, ressaltando a nossa participação no contexto histórico, político, social e cultural do nosso país".

Nesta sexta-feira, o clube coloca em prática mais um projeto, o IndicAÊ. Na programação, colaboradores do esquadrão baiano indicam filmes e livros que os contemplam. A primeira indicação foi o livro "Mestre Bimba: um século da capoeira regional", e partiu do auxiliar de manutenção Roberto Pereira, que também é pai de um atleta do sub-17.

Visto que o futebol muitas vezes é experienciado como plataforma de ascensão social, o clube tem uma atenção especial para que os pratas da casa não sejam conduzidos à necessidade de sustentar a família e se mantenham focados nos estudos e no desempenho em campo. Para isso, foi implementado o programa Integra Bahia, que abre vagas de emprego para os pais dos atletas das categorias inferiores. 

“Formamos atletas de alto rendimento, mas, sobretudo, formamos cidadãos, conscientes do seu papel na sociedade", Aline Castro. 

Como o racismo é abordado na base do Trio de Ferro?

Santa Cruz

Fundado em 1914, o Santa Cruz carrega em sua centenária história a essência de Clube do Povo, sendo a primeira agremiação pernambucana a aceitar um jogador negro no elenco. Mas como já citado, não podemos parar numa história passada, apesar d sua contribuição para a construção da agremiação como agente de inclusão social. 

Frente às dificuldades diárias, o Tricolor não tem um Departamento Social para as categorias de base. O trabalho de assistência aos pratas da casa acontece semanalmente, por demanda, através da parceria do clube com duas psicólogas. Sem programação específica, o trabalho geralmente é voltado a auxiliar os atletas em problemas familiares, financeiros e individuais. Primeiro, os jovens recorrem à comissão técnica e à direção do clube. Caso identificado ser um assunto que não pode ser resolvido pelo corpo diretivo, os diretores de base agendam um atendimento psicológico e assistencial.  

No ano passado, a Cobra Coral realizou palestras com psicólogas e assistentes sociais que discutiram questões como o racismo e outras temáticas sociais necessárias. Mas, segundo o diretor das categorias de base do clube, Rogério Guedes, a pandemia foi um grande entrave para dar continuidade ao trabalho neste ano. Para o diretor de marketing coral, Guilherme Leite, apesar disso, o clube se posiciona de forma clara na luta antirracista. 

“O Santa combate institucionalmente o racismo, inclusive vai vir agora produto para consolidar ainda mais o funcionamento do clube em relação ao combate ao racismo. O clube tem um posicionamento claro. O Santa foi o primeiro clube a aceitar negros (em Pernambuco), a gente fala sempre disso também”, diz. 

Na esfera institucional, muitas agremiações ainda utilizam majoritariamente o espaço virtual para se posicionar contra os crimes de racismo. Isso, no entanto, não é suficiente e revela, também, certo comodismo dos clubes em combater o racismo de forma estrutural, com um trabalho, por exemplo, que seja capaz de despertar a autoestima e o reconhecimento da identidade étnico-racial nos atletas em formação. 

Sport 

No Sport, existe uma programação mensal pensada pelo setor social para as categorias inferiores. São promovidas palestras e visitas por profissionais da área para a abordagem dos temas propostos. Em cada dia da semana, é feito um encontro com os atletas das categorias do sub-13 ao sub-20, com programações mais extensas para o sub-15 e o sub-17. Saúde, sexualidade e racismo são alguns dos temas debatidos. Não existe, contudo, um programa específico para o debate de cada tema, inclusive, sobre questões raciais. 

A assistente social Patrícia Durão relembra um caso de racismo - não isolado - que aconteceu com um ex-atleta do sub-17 do clube. “Ele foi jogar e foi chamado de macaco. Sentiu, disse nunca ter pensado que ouviria isso, via muito na televisão, mas não acreditava que o impactaria tanto. Os amigos e o setor social acolheram o atleta. Ouvimos, houve uma roda de conversas e ele externou todo o sentimento que teve naquele momento”. A reportagem tentou contato com o atleta, que hoje cumpre empréstimo junto ao Cruzeiro-MG, mas não obteve sucesso. 

Segundo Patrícia, entretanto, uma das problemáticas levantadas pelo jovem, após ser mais uma vítima de discriminação racial, é a forma como a sociedade enxerga pessoas negras, coletivamente e, principalmente, em sua individualidade. “A minha cor é o mínimo nessa situação. É como a gente vê o mundo e como o mundo nos vê”. O jogador foi um dos tantos jovens negros brasileiros que sofreu o racismo na pele, e a errada ideia de permicividade que envolve o ambiente do futebol - entre gramado e arquibancadas - acabou sendo ponte de extensão para o crime. 

Apesar do trabalho de acolhimento, o Leão também relata dificuldade para colocar em prática debates mais frequentes sobre o tema devido à Covid-19. 

Náutico

Último do Trio de Ferro a permitir entrada de atletas negros, o Náutico busca reconstruir a própria história. O ponto de partida foi reconhecer o passado racista, em setembro, quando apoiou o movimento “Vidas Negras Importam” através do lançamento do padrão na cor preta. O uniforme foi alvo de polêmica há uma semana, após o Conselho Deliberativo alvirrubro descartar o uso em partidas oficiais. A decisão gerou críticas por sinalizar uma resistência do clube em se adequar aos valores antirracistas e usar a campanha como pano de fundo para aumentar receitas.

Porém, sem muito alarde, a gestão de Edno Melo dá continuidade à remodelagem da identidade alvirrubra internamente. O Timbu prepara terreno para as futuras gerações alvirrubras apresentarem uma visão social e política condizente com a sociedade moderna. O clube irá promover diversas ações ligadas à pauta antirracista, a começar nesta sexta, quando o Coletivo Cara Preta - grupo de jovens atuantes na causa -  irá visitar as instalações do CT Wilson Campos e fará palestras para as categorias masculinas e femininas acima do sub-15. 

Segundo o vice-presidente de marketing do Náutico, Luiz Filipe Figueiredo, o clube dialoga com o Observatório da Discriminação Racial do Futebol para implementar projetos de médio a longo prazo que também possam integrar alunos da escolinha. 

“De início, a ideia é trabalhar não apenas com assistente social, mas com programas que desenvolvam os alunos para que tenham envolvimento direto com a sociedade e tentem entender no dia a dia. A categoria de base já tem psicólogo, mas o trabalho de conter o racismo envolve dinâmica de grupo. Muitos jogadores da base não vão se tornar profissionais, mas temos o objetivo de torná-los bons cidadãos”. 

Ainda que importante o trabalho desenvolvido pelo Trio de Ferro da Capital nas categorias de base, o combate ao racismo e às demais opressões sociais não pode ser tardio e deve ser feito constantemente, com planjemanto e direcionamento. O posicionamento deve estar em evidêcia com a mesma frequência em que os crimes acontecem, até que, enfim, coletivamente, um ponto final seja dado na desigualdade racial, econômica, social. Para que Aqualtune, Ganga Zumba e Zumbi dos Palmares finalmente descansem em paz. 

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