Olimpíadas Especiais ultrapassam barreiras

Trabalho de fundação dedicado a incluir deficientes intelectuais no esporte colhe frutos importantes em Pernambuco

Atletas Luciana Miguel da Hora e Maria Betânia Silva de Oliveira ao lado da treinadora Mônica Rejane Aguiar (centro)Atletas Luciana Miguel da Hora e Maria Betânia Silva de Oliveira ao lado da treinadora Mônica Rejane Aguiar (centro) - Foto: Caio Danyalgil/Folha de Pernambuco

“Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”. O artigo 5ª da Constituição de 1988 é um marco na garantia dos direitos humanos no Brasil. Na prática, entretanto, ainda é pouco respirada por determinados grupos sociais, caso que se aplica à população com deficiência intelectual, condição que atinge aproximadamente 0,8% dos brasileiros, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Público esse que, infelizmente, ainda beira à margem da sociedade no País, mas encontra no esporte a ferramenta primordial para mostrar o seu valor.

Com a exposição dessa realidade, a Olimpíadas Especiais, fundada mundialmente em 1968, expandiu fronteiras e montou sua sede no Rio Janeiro. Hoje existem sete filiais no Brasil, sendo uma dirigida em Pernambuco, desde 2016. A instituição é uma organização sem fins lucrativos presente em mais de 190 países, que tem o objetivo de incluir pessoas com deficiência intelectual na sociedade através da prática esportiva. No Estado, a entidade atende em torno de 400 atletas, entre crianças, adolescentes e adultos.

Atualmente, três programas de suporte à pessoa com deficiência intelectual são executados em Pernambuco por meio da Fundação. As iniciativas são divididas entre o eixo esportivo, de saúde e educacional. O Programa Esporte é voltado para crianças a partir dos 8 anos. O Atletas Jovens atende os pequenos ente dois e sete anos, também com a finalidade de aproximá-los do esporte. Já o Escolas Unificadas foi um programa implementado em 2018, cujo o intuito é levar atividades educacionais às escolas do Estado. O projeto visa oferecer capacitação para professores de educação física, gestores e equipe administrativa das instituições de ensino.

Para Ana Zélia Belo, diretora da Fundação Olimpíadas Especiais em Pernambuco, a maior dificuldade da instituição e dos atletas ainda é a falta de visibilidade. No entanto, o trabalho que a entidade desempenha na vida dos esportistas ultrapassa essa barreira. “O principal objetivo da nossa metodologia é centrado na habilidade do atleta, jamais no nível de deficiência. Todo mundo tem um nível de habilidade e é em cima dela que vamos explorar. Acreditamos sempre nesse lado do ser humano”, afirmou.

Foi sob essa premissa que Luciana Miguel da Hora, 42, e Maria Betânia Silva de Oliveira, 56, atravessaram o mundo para representar Pernambuco nos Jogos Mundiais de Verão 2019, realizado no mês de março, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. Em meio a 7 mil atletas de mais de 170 países, elas foram as primeiras a representar o Estado na competição. Na bagagem, trouxeram a medalha de prata, conquistada na bocha unificada - modalidade em que uma pessoa com deficiência intelectual disputa ao lado de uma pessoa sem deficiência.

Em apenas três anos de existência, a Fundação Olimpíadas Especiais gerou frutos que refletiram na performance da dupla no torneio. “Desde o momento em que as meninas obteram a vaga (alcançada nos jogos nacionais, em São Paulo) para o mundial já foi a primeira conquista. Na hora em que receberam o resultado da medalha de prata, as duas choraram muito. Foi muito emocionante. Para nós, essa medalha valeu como um ouro. Foram momentos que somaram muito na vida delas”, relembrou.

Em Abu Dhabi, as estrelas do evento tiveram recepção digna de estrelas, em hotel de luxo. Sem conseguir explicar muito em palavras, Luciana, que é deficiente intelectual, exibiu no olhar e no sorriso as boas memórias que ficaram da competição. Já Betânia teve incentivo extra para viajar. Mãe de uma jovem com síndrome de down, passou um ano se preparando psicologicamente para a possível vaga nos Jogos Mundiais. “Eu chorei muito. Ela é minha companheira e dizia: ‘vai, mãe, pegar a medalha pra gente’. Foi bom demais”, celebrou.

“Me emocionei em vários momentos em ver como os atletas são respeitados, em como são vistos, de como é pensado e como funciona lá fora. Tivemos inúmeras dificuldades para chegar até Abu Dhabi. Saímos de Pernambuco, de uma invisibilidade, onde as pessoas nem sabiam que existe a modalidade. Foi uma conquista muito grande ver as meninas no pódio. Realização, de dever cumprido, de ver como Luciana e Betânia estavam felizes em receber aquela medalha”, finalizou Ana Zélia.

No dia 2 de agosto, a Fundação Olimpíadas Especiais assinou um acordo de cooperação com o Parque e Centro Esportivo Santos Dumont. Os treinos já eram realizados no local, mas o acordo expandiu os horizontes, agora servindo, também, como palco de competições regionais.

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