Paixão pelo Surfe leva vítima de incidente com tubarão a se blindar de trauma

Surfista há 30 anos, Sérgio Adrião Gomes da Silva teve a chance de participar pela primeira vez de um torneio profissional, através do surfe adaptado

Sérgio Adrião começou a surfar aos 9 anos de idade e sofreu um incidente com um tubarão aos 15, na praia de PiedadeSérgio Adrião começou a surfar aos 9 anos de idade e sofreu um incidente com um tubarão aos 15, na praia de Piedade - Foto: Léo Malafaia/Folha de Pernambuco

Novidade do circuito pernambucano, o surfe adaptado proporciona a inclusão de pessoas com deficiência física no esporte. O Realce Nordeste Apresenta Itapuama Surf Festival, terceira etapa da competição estadual realizada há duas semanas no Cabo de Santo Agostinho, na Região Metropolitana do Recife (RMR), teve um sabor especial para um dos presentes.

Surfista há 30 anos, Sérgio Adrião Gomes da Silva, 40, teve a chance de participar pela primeira vez de um torneio profissional e, apesar de não ter ficado entre os três primeiros colocados, não decepcionou os que nele apostaram todas as fichas, terminando na 4ª colocação. O que chama atenção é que ele jamais havia pensado em competir, sobretudo depois de um acidente na praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, que mudaria para sempre a sua vida.

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Sujeito simples, Sérgio é do tipo que aproveita cada centímetro de onda quando tem seus encontros com o mar, o que acontece quase todos os dias da semana. Para ele, “a vida é surfe, o resto é onda”. Lema da comunidade surfista, a frase é também um trocadilho que explica boa parte do que foi e continua sendo a vida de Sérgio. Apesar de ser um esporte consolidado e com grande adesão, o surfe não gozava de tanto prestígio como atualmente. “Diferente de hoje, nos anos 1980, o surfe era muito marginalizado. Por falta de conhecimento, minha família não apoiou, o esporte era algo novo para eles. Minha mãe chegou a quebrar duas pranchas minhas em episódios diferentes, na tentativa de fazer com que eu largasse o esporte”, explica.

A paixão pela modalidade começou aos 9 anos de idade, quando o surfe ainda era uma prática permitida na praia de Piedade. “Eu vinha à praia com o meu pai vários domingos e, depois de muitas tardes esperando o Realce passar - programa de surfe transmitido na década de 80 - e depois de umas folheadas na revista Fluir, a energia pelo surfe só fez evoluir e ter a visão de vida saudável”.

Ainda que mostrasse maturidade desde muito jovem, a resistência da família em aceitar a decisão de Sérgio em viver do surfe foi ainda maior quando, aos 15 anos de idade, na praia de Piedade, local em que era acostumado a se aventurar, o surfista encarou a onda mais perigosa de sua vida. No dia 31 de janeiro de 1994, Sérgio surfava na companhia de quatro colegas, um deles era o irmão, quando, por volta das 17h30, na altura do Britânia - ponto de surfistas da época -, sentiu sua perna direita sendo amordaçada por um tubarão cabeça-chata.

“Não havia nada de estranho, porque naquela época não existia essa incidência. Após pegar uma onda, retornando, percebi que alguma coisa tinha prendido no meu ‘strep’ (corda que prende o pé do surfista na prancha), o qual torou e chicoteou as minhas costas. Quando olhei, estava lá aquela cena de um tubarão emergindo sobre a minha perna. Ele deu várias investidas, conseguindo morder três vezes minha perna direita”, relata Sérgio.

Em uma das mordidas, ele perdeu parte da panturrilha. Depois do susto e de ter escapado do pior, foi socorrido para o Hospital da Restauração, onde teve todos os tendões da parte frontal da perna e do pé operados. Foram várias as consequências deixadas pelo incidente. O surfista teve aproximadamente 70% dos movimentos do pé direito reduzidos, sofreu redução da sensibilidade na região inferior do membro e dos movimentos articular dos dedos. Além disso, ainda passou por uma cirurgia de ligamento dos tendões, cirurgia de reconstituição de tecido e precisou passar por um procedimento de ligação dos vasos sanguíneos.

A dificuldade e a nova realidade, no entanto, não abalaram o surfista. Com 15 dias, ele já estava recuperado. Voltou a andar após um mês e meio com auxílio de uma muleta e, exatamente um ano depois do incidente, retornou a praticar o esporte. “Tive uma recuperação muito boa. Esse período foi o que me motivou a buscar estudo, trabalho, independência para manter aquele surfe, a paixão, que, naquele momento, estavam sendo ameaçadas devido ao incidente e do preconceito que existia em torno disso”.

Segundo Sérgio, surfar sempre foi a atividade que determinou o que seria parâmetro para a sua vida, de forma que as conquistas subsequentes serviram para mantê-lo no esporte. Para garantir isso, ele se dividiu entre a modalidade e três graduações: Ciências Biológicas, Enfermagem e Odontologia. “Tudo começou no incidente de 94. Eu fui um paciente grave. Minha vontade era estar dentro da Enfermagem. Minha paixão era curativismo. Então, cresci nisso, comecei a estudar e trabalhei 11 anos como enfermeiro. Paralelo a isso, fiz Biologia pela paixão pelo surfe, a relação com a natureza", conta. Entre as ambiguidades que encontrou no caminho, sendo um homem de muitas paixões, Sérgio viu na Odontologia um meio de manter uma vida estável.

Em meio a essa lição de vida, Adrião disparou a última manobra. "O que seria um trauma, fez um efeito catapulta e me jogou lá para frente". Jogou mesmo, lá nas águas de Itapuama, que em tupi-guarani significa “Pedra Bonita”. Nas ondas em que Sérgio Adrião abriu caminho para um destino certeiro, com olhos e prancha apontados para o mar.

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