Política do surfe impõe exigências para ir à Olimpíada

ISA diz que para um surfista estar na Olimpíada precisará ter "boa relação com a sua federação nacional"

Gabriel Medina é bicampeão no Mundial de SurfeGabriel Medina é bicampeão no Mundial de Surfe - Foto: Divulgação/WSL

Com o bicampeonato mundial de Gabriel Medina, conquistado nesta segunda-feira (17), o surfe vive seu auge no Brasil. Nada mais natural que marcas e instituições busquem ter seus nomes ligados ao ídolo, incluindo, claro, o COB e o COI. Para o movimento olímpico, não haveria melhor hora para o fortalecimento de um personagem das proporções de Medina: o surfe estará em Tóquio-2020. O casamento, porém, não é perfeito, porque há dois intermediários nesta história: a ISA (Associação Internacional de Surfe, na sigla em inglês) e a CBSurfe (Confederação Brasileira de Surfe).

Nos Jogos Olímpicos, cabe a cada federação internacional sentar com o COI e estabelecer, dentro da sua cultura esportiva, os seus critérios de classificação. O que inclui os "critérios de elegibilidade", que separam quem é admissível na Olimpíada e quem não. A maioria das federações coloca algumas poucas regras, especialmente de idade. Mas a ISA resolveu impor regras para fortalecer seu empoderamento na modalidade.

Exigiu que, para estar na Olimpíada, um surfista tenha "boa relação com a sua federação nacional e com a ISA, de acordo com o livro de regras da ISA", e cumpra os "requisitos mínimos" de participação nos Jogos Mundiais da ISA de 2019 e 2020. Esses "requisitos mínimos" deveriam ter sido publicados em maio passado, o que até agora não aconteceu por parte do COI.

Antes, em março, a ISA divulgou que "todos os surfistas selecionados por suas respectivas federações nacionais devem participar dos Jogos Mundiais de 2019 e 2020 para serem elegíveis para a classificação olímpica", ressaltando que os detalhes ainda estavam sob revisão.

Isso obriga Medina e os demais principais surfistas brasileiros a se relacionarem com entidades que tem pouca, ou nenhuma, proximidade com eles. A CBSurfe, com quem os brasileiros precisam ter boa relação, tem seu presidente afastado pela Justiça em meio a uma troca de acusações e de uma batalha judicial com seu vice. É a esta confederação que o surfista que se tornou exemplo de gestão de carreira esportiva no Brasil precisa ter sua imagem associada. Não à toa, CBSurfe e atletas nunca se deram.

A imposição de participação nos Jogos Mundiais da ISA também parece um remédio amargo. O evento do ano que vem, entre 7 e 15 de setembro, será disputado em uma praia japonesa. A data não poderia ter sido pior arranjada: depois de uma etapa no Taiti (de 21 de agosto a 1º de setembro) e até quatro dias antes da etapa da WSL no rancho de Kelly Slater, nos Estados Unidos. Quem for ao Japão terá muito pouco tempo para treinar para encarar as ondas artificiais, ainda pouco conhecidas. Tudo para participar de um evento que não tem nenhum atrativo e nem mesmo paga premiação.

Para os brasileiros esse cenário é ainda pior, porque os Jogos Mundiais de 2018 tumultuaram de vez a relação entre os profissionais e a CBSurfe. A confederação não aceitou que o COB organizasse a viagem, esperou regularizar sua situação junto ao comitê para poder receber o dinheiro e executar o serviço sozinha, e quando finalmente foi liberada, não conseguiu comprar as passagens aos atletas por dificuldades logísticas. No final das contas, havia dinheiro e interesse do COB, mas nenhum brasileiro foi à competição. Para os atletas, por responsabilidade da CBSurfe.

Classificar-se para a Olimpíada, em tese, não deve ser problemas para os brasileiros. Dez vagas o circuito mundial da WSL do ano que vem, com limite de três por país. Só serão contabilizados os resultados da temporada 2019. Se o ranking de agora fosse o definitivo, as vagas ficariam com Medina, Filipe Toledo e Ítalo Ferreira. 

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