Quarentena aflora saudosismo entre torcedores

Período de isolamento social provocado pela pandemia do novo coronavírus faz amantes da bola recorrerem ao passado para matar saudade do futebol

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Vai passar. Quantas e quantas vezes torcedores não sussurraram para si, quase como um mantra, essa frase na expectativa de que uma fase ruim do clube do coração tivesse fim o mais rápido possível. Muitos agora devem repetir o mesmo, mas com um simbolismo ampliado. A esperança pelo fim da pandemia uniu todas as torcidas. Enquanto isso, o público busca alternativas para minimizar a frustração pela pausa na bola em tempos de combate à Covid-19. Uma readaptação temporária que envolve saudosismo. Um exemplo será a transmissão às 16h deste domingo, na TV Globo, da final da Copa do Mundo de 2002, vencida pelo Brasil por 2x0 diante da Alemanha. Vale tudo para reviver, mesmo de longe e por uma tela, a paixão pelo futebol. Um sentimento imune ao vírus.

A Folha de Pernambuco conversou com alguns torcedores para entender como cada um tem procurado matar a saudade do futebol na quarentena. Primeiro, que fique claro: acompanhar jogos antigos pela internet ou em canais de TV não virou rotina apenas por conta da pandemia. "Eu já fazia isso antes porque é algo que traz boas lembranças. Sou são-paulino, mas vivo no Recife desde 2007. Gosto muito de acompanhar partidas antigas, da época em que eu morava em São Paulo, principalmente as de 2004, na Libertadores. Depois vi alguns duelos de 2006, da arrancada do título brasileiro", citou o engenheiro de segurança, Fábio Vilhalba, de 34 anos, brincando com o jejum de títulos do clube. "Não ganhamos taças há oito anos, então é sempre bom relembrar a boa fase", brincou.

Além dos jogos do São Paulo, Fábio revelou que já acompanhou durante a quarentena confrontos com times históricos de Boca Juniors e River Plate, além de campanhas de seleções como a Romênia, em 1994, e a França, em 1998. Análises que o fizeram chegar a uma conclusão. "Antes havia mais talentos individuais, principalmente na bola parada. Marcelinho batia falta de todo jeito. Trivela, curva, três dedos... hoje não tem tanto isso. Também pude ver jogadores que não me recordava tanto do início de carreira, como Zidane", explicou.

O técnico em eletrônica e torcedor do Sport, Hugo Xavier, de 28 anos, gosta de comparar as posturas dos times do passado. "Comecei vendo as partidas da Copa de 98 e 2002. Acredito que hoje as equipes se preocupam mais com a organização tática. O atleta faz mais funções em campo. Antes não tinham tantos atacantes voltando para marcar, por exemplo. Os jogadores também estão mais fortes fisicamente", citou. "Também gosto de ver quem conseguiu brilhar com o tempo e quem não deu certo. Em 2007, Everton Ribeiro estava no time do Corinthians que caiu. Não foi tão bem, mas depois melhorou, jogou muito no Cruzeiro e no Flamengo. Já outros, como Ganso, não evoluíram". A saudade maior, claro, é ver o Leão em campo. "Futebol é meu lazer. E a maior saudade é ver o Sport jogar. Fico pesquisando partidas antigas, jogadores que já passaram pelo clube. Com ou sem quarentena, eu continuarei vendo isso, mas quero voltar logo ao estádio", frisou.

O futebol, na "era quarentena", também funciona como um subterfúgio. "Ver jogos antigos do Santa Cruz é uma fuga da realidade", apontou o engenheiro Oscar Moura, de 32 anos. "Gosto de acompanhar aquela fase de 2011, na saída da Série D, até 2016, na Série A. Acho que estamos em um momento de decadência no esporte, com queda de público e com muitos procurando outras modalidades. Sei que o hábito de assistir aos jogos mudou, com tantos sites, streamings, mas acho que falta abraçar mais os clubes", apontou, citando que, além de lances de Messi, gosta de acompanhar os melhores momentos de um antigo artilheiro coral. "Racionalmente, eu tenho maior admiração por Tiago Cardoso, mas gostava muito de Dênis Marques. Ele era uma espécie de anti-herói, que aparecia no momento certo e brilhava contra o Sport".

Quando os campeonatos retornarem, os torcedores poderão reviver momentos que, mesmo com toda a tecnologia à disposição, não são possíveis agora. "Não vou deixar o saudosismo de lado, mas estar no estádio é bem diferente. Tenho quatro irmãos e uma irmã. O momento em que todos se reúnem é quando vamos ao Arruda para ver o Santa Cruz. Ali juntamos pais, filhos, sobrinhos, criando um laço graças ao clube. Futebol também é uma rede de relacionamentos importante na vida."

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