Reforma de estatuto expõe divisão no Santa

Debate sobre mudança de documento traz à tona composição de pensamentos divergentes entre lideranças do Tricolor

Reunião que daria início a processo de votação sobre estatuto acabou sem consenso entre tricoloresReunião que daria início a processo de votação sobre estatuto acabou sem consenso entre tricolores - Foto: Zé Britto/Folha de Pernambuco

Um chão batido, uma bola e 11 garotos transformaram-se em elementos suficientes para a fundação do Santa Cruz, em 3 de fevereiro de 1914. Dos três clubes que já existiam na Capital - Sport, Náutico e América -, o Tricolor foi, ao longo do tempo se construindo, sob uma condição inseparável às suas raízes: ser o clube do povo, empenhado em abrir as portas para todos que desejavam segui-lo, ainda no século XX, quando o futebol era terra fértil da elite. Com as grandiosas conquistas sociais e dentro das quatro linhas, hoje, as possibilidades no clube se abrem para outras discussões, como a reforma do estatuto coral. Na teoria, o clube tem em suas lideranças uma composição de pensamentos divergentes. Na prática, a situação vai além das ideias e se estende a uma divisão.

Pelo terceiro ano consecutivo, o Santa Cruz disputará a Série C do Campeonato Brasileiro agarrado na urgente necessidade de, em 2020, abandonar o penúltimo degrau da escalada nacional. Ao passo em que o clube se vê alçado por desafios extra-campo que tomaram dimensão de longo prazo, assumindo lugar e papel na história do Tricolor. Ao contrário do que muitas vezes exposto, esses dois pontos não se encontram em extremidades diferentes. Um é reflexo do outro.

À Folha de Pernambuco, o presidente do Conselho Deliberativo, Alírio Moraes, avaliou o cenário das atuais ambiguidades do Tricolor. “Na minha opinião, o clube tem excesso de poderes e, de certa forma, atrapalha um pouco o poder central. O futebol é outro, hoje. É um ambiente de negócios, e o Santa Cruz ficou parado, fora desse sistema. São muitas missões. Agora, eu acho que a missão principal é a reforma”, afirmou.

Alírio diz acreditar que a divisão interna, no campo das ideias, é notória. “Evidentemente que o insucesso do clube nos últimos anos no futebol tem gerado uma série de reflexões por parte de dirigentes, conselheiros, sócios e da própria torcida. Então, de fato, está havendo, entre os próprios dirigentes, um pensamento divergente, mas nada no campo pessoal. Eu tenho simpatia, como já afirmei, por uma reforma no estatuto mais ousada. E tem outras pessoas que não, e a gente convive harmonicamente, tenta debater”, acrescentou o presidente do Conselho Deliberativo.

Apesar de a última semana ter sido efervescente no Arruda, as pedras no sapato do Tricolor foram iniciadas muito antes da discussão sobre a reforma do estatuto. Nesse contexto, o debate acerca do modelo de gestão coral simplesmente foi um acentuador dos contratempos do clube. O ex-presidente do Santa e atual diretor da Comissão Patrimonial, João Caixeiro, defendeu uma mudança efetiva no clube através de resultados conquistados dentro das quatro linhas.

“Acho que está existindo muita tempestade no processo. O Santa Cruz precisa de tranquilidade para resolver os seus problemas, que são sérios e grandes. E acho também que o estatuto não é o ponto principal da recuperação do Santa Cruz. A recuperação passa por vitórias no futebol, pelas conquistas dos campeonatos que participa”, disse. “Eu não digo que exista divisão. Existe um afastamento de pensamentos filosóficos. É onde nós devemos encontrar uma unidade”, completou.

Atualmente afastado, mas auxiliando de forma “indireta”, como integrante do Conselho de Administração do clube, Jomar Rocha, sem se estender sobre o tema, não negou o ‘clima difuso’ no José do Rego Maciel, mas pregou união para o bem-estar do Santa Cruz. “Estou trabalhando com muita energia para que haja um consenso entre as partes e se busque a melhor situação para o clube”, garantiu.

Também procurado pela Folha, o diretor de marketing e comunicação da Cobra Coral, Guilherme Leite, não quis comentar sobre o assunto, mas nas redes sociais demonstrou ser favorável à reforma do estatuto. A reportagem tentou contato com o presidente do clube, Constantino Júnior, que, até o momento tem adotado uma postura aparentemente “isenta”, sem posicionamentos e declarações. Até o fechamento desta edição, a reportagem não havia conseguido contato com o mandatário coral.

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