Remo vira moda no verão e transforma Brasil em potência

Amadores e profissionais encontraram no litoral paulista as condições propícias para esportes a remo

Remo brasileiro nos Jogos Olímpicos Remo brasileiro nos Jogos Olímpicos  - Foto: AFP

Foi por meio de um primo que José Paulo Neto, 27, descobriu, aos 15 anos, a canoa havaiana. Sem a técnica dos colegas no futebol, ele encontrou nas remadas uma forma de se exercitar ao ar livre. A partir daí, não largou mais.

Doze anos depois, a modalidade pela qual se apaixonou ainda adolescente nas praias de Santos virou moda do verão. Amadores e profissionais encontraram no litoral paulista as condições propícias para a canoa havaiana e outros esportes a remo, como o stand up paddle.

A canoa havaiana chegou ao país por volta de 2000, trazida por brasileiros que eram praticantes no exterior.

Inspirada no meio de transporte do triângulo polinésio, a canoa tradicional possui seis lugares e tem um flutuador lateral ligado ao casco por dois braços de madeira.

Há competições nacionais e internacionais do esporte. Todas são realizadas em formato de corrida, com competidores largando juntos em uma raia. Os circuitos variam de 500 m a 90 km.

A canoa havaiana também é utilizada para travessias, mas sem o caráter competitivo. No último dia 8, Neto esteve entre os seis canoístas que completaram uma remada de Santos a Niterói.

"Um amigo precisava vender uma canoa para uma pessoa em Ubatuba. Em vez de irmos de caminhão, resolvemos levá-la pelo mar. A venda não se concretizou, mas mantivemos a ideia de passar o ano novo remando", conta.

Essa foi a maior travessia sem barcos de apoio ou revezamento entre atletas registrada na história do esporte no país. Foram 11 dias de duração e 430 km percorridos.

Destaque mundial

Os esportes que começaram como hobbies viraram profissões, principalmente entre remadores de stand up paddle. Lena Ribeiro, 37, é um dos destaques do país. Ela lidera o ranking nacional na categoria corrida e foi a 16ª melhor do mundo em 2017, segundo o site "SUP Racer".

Em nível internacional, a modalidade é praticada com pranchas de 4,27 m. Além das corridas com percursos de 200 m a 50 km, há a categoria "wave" (onda, em inglês), que se assemelha ao surfe.

Lena jogou handebol profissionalmente quando era adolescente. A afinidade com esportes marítimos surgiu nas viagens pela costa que fez com o pai, praticante de caiaque e windsurf.

Ela descobriu o stand up paddle em 2011, em Arraial do Cabo, no Rio. Seu marido, Américo Pinheiro, 45, que tinha experiência com surfe e mergulho, comprou uma prancha para conhecer o esporte e se curar de uma lesão.

Lena acompanhou o marido por lazer, mas um ano depois ingressou em torneios amadores. Aos poucos as portas se abriram para eles. Pinheiro treinou a seleção brasileira de corrida em 2015.

Já Lena acumula conquistas. A principal delas foi na prova 11-City, competição anual disputada na Holanda que dura cinco dias e tem 220 km de extensão.

"A meta era só completar a prova. Você enfrenta muito frio e precisa remar cheia de roupas, além de ficar muito tempo sozinha", diz Ribeiro.

Apesar da carreira promissora, Lena não se sustenta como atleta. É professora de metodologia científica na Universidade Veiga de Almeida. As competições internacionais que participou foram todas custeadas por ela, com o auxílio de patrocinadores. Tanto é que a atleta perdeu as últimas duas edições do Mundial de stand up paddle.

A perspectiva dela é que o esporte atraia investimentos em 2018. Búzios, no Rio, será sede do Mundial de stand up paddle, organizado pela ISA (Associação Internacional de Surfe, em inglês).

"É inadmissível a cultura de esportes de água do Brasil ser tão pobre. Atletas na Europa deixam os seus países quando as águas congelam no inverno. Se o Mundial for bem aproveitado, temos tudo para crescer", afirmou.

A ISA trabalha nos bastidores para incluir o stand up paddle entre os esportes que serão disputados na Olimpíada de Paris-2024. As modalidades corrida e "wave" já estarão presentes no Pan-Americano de Lima-2019.

Recomendações

A falta de fiscalização na prática dos esportes a remo traz riscos para os amadores. Profissionais dizem que procurar instrutores certificados é o primeiro passo para quem quer aderir às modalidades.

"O stand up paddle é muito fácil e tem uma evolução diferente do surfe tradicional. Muita gente está ganhando dinheiro com esse mercado", diz Lena Ribeiro. "Falam que é um esporte que causa lesões, mas isso só irá acontecer se você não souber a técnica para remar."

Saber nadar e conhecer o local onde o esporte será praticado também são dicas importantes para evitar acidentes. Quiosques de praia que oferecem pranchas e canoas sem uma orientação adequada precisam ser evitados.

"Como não existe um controle, já vi pessoas que compraram canoas e começaram a dar aulas sem nenhuma especialização. Essa é uma preocupação que temos, porque coloca vidas em risco", afirma José Paulo Neto.

Outra recomendação é checar a previsão do tempo antes de entrar no mar. Conhecer as condições meteorológicas pode evitar surpresas desagradáveis, como ser pego por tempestades enquanto estiver na água.

Quem não pode ir para o litoral tem opções mais próximas da capital paulista para remar. Represas como a de Itupararanga, em Votorantim, e a de Guarapiranga, entre Itapecerica da Serra e Embu-Guaçu, se tornaram pontos das modalidades.

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