Ricardo Rocha: Um cabra marcado para ser tetra

Pernambucano revelado pelo Santo Amaro, foi para o Santa e ganhou o mundo da bola como zagueiro

Ricardo RochaRicardo Rocha - Foto: Lehi Henri/Folha de Pernambuco

Vinte pares de chuteiras, dez bolas e dois jogos de camisas. Este foi o “valor” pago pelo Santo Amaro/PE ao Elmo/PE para poder contar com o futebol de um zagueiro, até então desconhecido, chamado Ricardo Roberto Barreto da Rocha. Para compensar a falta de dinheiro, as equipes pequenas usavam a criatividade. Eram outros tempos... À época, por exemplo, o Brasil vivia um jejum de 12 anos sem títulos mundiais. O ano era 1982. A Copa na Espanha estava nos calcanhares. E havia uma grande expectativa com relação ao esquadrão nacional comandado pelo técnico Telê Santana. A derrota para a Itália, na “Tragédia de Sarriá”, no entanto, mexeu com a personalidade do futebol brasileiro. Por mais 12 anos, a seca pela Copa do Mundo permaneceu. Até 1994. Aí já era outro tempo... Pelo menos para Ricardo Rocha, um dos melhores zagueiros brasileiros daquela época.

Seu currículo faz essa afirmação ganhar força. Ricardo Rocha defendeu as cores do Real Madrid/ESP, Sporting/POR, São Paulo, Santos, Fluminense, Flamengo e Vasco. Cada transferência, inclusive, de valor muito superior ao desembolsado pelo Santo Amaro, e seus vinte pares de chuteiras, dez bolas e dois jogos de camisas. Nascido no Recife, em 1962, começou a carreira em equipes de várzea de Pernambuco, antes de ser contratado pelo Elmo, time que estava na segunda divisão estadual. Apesar de ter jogado como profissional em seus dois primeiros clubes, chegou ao Santa Cruz para jogar nos juniores. Fez toda a categoria de base como zagueiro, mas defendendo as cores do time principal do Tricolor, virou lateral.

Foi justificável. A concorrência, no Santa Cruz, era feita com uma dupla de zaga formada por Gomes e Édson, ambos com o carimbo de campeões brasileiros de 1978, pelo Guarani. Do banco, Ricardo Rocha viu a oportunidade surgir quando o lateral-direito titular se machucou. Para completar, o então substituto ainda não estava regularizado. Jovem, magro e com força física, ganhou a posição no time de Carlos Alberto Silva. Apesar de se firmar na posição, Ricardo Rocha jogava improvisado na zaga quando alguém se machucava. "Eu desloquei ele para a zaga, pois na zaga ele chegará à Seleção, já na lateral, não", disse o então treinador do Santa Cruz, à época, Carlos Alberto Silva.

Após ficar dois anos no Santa Cruz, e um título estadual conquistado, Ricardo Rocha foi para o Guarani, em 1985, por indicação de Carlos Alberto Silva. A dobradinha com o treinador durou quase nada. Isso porque quando ele desembarcou em Campinas, Carlos Alberto Silva saiu do Guarani. Para a vaga foi contratado Lori Sandri. Mais uma vez, a lateral direita foi o habitat imposto a Ricardo Rocha, que desempenhou a função por mais um ano. Pediu para voltar a ser zagueiro. Após uma cirurgia de púbis, o departamento médico do clube o alertou para ele tomar cuidado com os cruzamentos. Poderia forçar demais o músculo. No Guarani, o defensor foi vice-campeão brasileiro de 1986 - derrotado pelo São Paulo - e segundo colocado no Campeonato Paulista de 88 - perdendo a final para o Corinthians.

Depois de uma experiência frustrada defendendo o Sporting/POR, na sua primeira experiência na Europa, quando conviveu com seis meses de salários atrasados, voltou ao Brasil. Queria jogar a Copa de 1990. Jogou no São Paulo. Reencontrou Carlos Alberto Silva no Morumbi, e foi campeão paulista. Com a chegada do técnico Tele Santana, venceu outro estadual e o Brasileiro de 1991. Durante esse período, a Seleção Brasileira já não era novidade para o atleta. Ricardo Rocha começou a ser convocado logo depois da Copa do Mundo de 1986. O desejo em defender a Seleção na Itália, em 1990, foi concretizado. Mas, ao contrário da experiência vivida quatro anos depois, encontrou um grupo com muitos problemas e pouco focado com o Mundial.

O fracasso em 1990 não o fez cair no ostracismo para a Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos. Ele seria o titular de Carlos Alberto Parreira, mas uma contusão acabou com seus planos. No primeiro jogo contra a Rússia, se machucou. Poderia ter se abalado? Com certeza. Mas Ricardo Rocha resolveu pegar a contramão. E desempenhou um importante trabalho de integração entre a comissão técnica e os jogadores. Havia uma pressão muito grande, pelos 24 anos sem um título mundial. O zagueiro ficou com o restante do elenco até o final da competição. Do banco de reservas, viu o Brasil vencer a Itália de Roberto Baggio nos pênaltis e conquistar sua quarta Copa do Mundo. No ano seguinte, se aposentou da Seleção. Encerrou a carreira em 1998 no Flamengo, aos 36 anos.

 

Veja também

Após vitória, auxiliar técnico César Lucena elogia time do Sport: 'Lutou pelo resultado até o fim'
Sport

Após vitória, auxiliar técnico César Lucena elogia time do Sport: 'Lutou pelo resultado até o fim'

Doze grandes clubes europeus lançam 'Superliga' independente da Uefa
Futebol internacional

Doze grandes clubes europeus lançam 'Superliga' independente da Uefa