Seleção iraniana de 1972 posando para a foto, no Arruda
Seleção iraniana de 1972 posando para a foto, no ArrudaFoto: Reprodução/Internet

Da história nasce o futebol e, com ele, os fatos curiosos que marcam épocas, competições, estádios e clubes. O que dizer do triunfo do Santa Cruz por 3x2 sobre a Seleção Brasileira, em 1934? O que falar, por exemplo, de orgulhosamente ter sido o primeiro clube a desbancar um dos grandes do Rio? Perguntas que já viraram carta no baralho tricolor. Agora, e se eu disser que uma seleção do Oriente Médio já vestiu o uniforme do Santa Cruz para, então, poder entrar em campo e jogar? Foi o que aconteceu há 47 anos, no jogo entre Irlanda e Irã, no Arruda, pela primeira rodada da Taça Independência, a famosa Minicopa do mundo, que aconteceu de 11 de junho a 9 de julho.

A data marca o ano de 1972 e a seleção do Irã, que já na época adotava o verde escuro em seus uniformes, foi uma das 20 nações convidadas para participar do torneio organizado pela Confederação Brasileira de Desportos (CBD), atual CBF, junto ao governo Médici, em pleno período de Ditadura Militar no Brasil. A façanha ilusionista servia de escopo para a celebração dos 150 anos de independência do país, acompanhado ainda do êxtase brasileiro, principalmente político, dois anos após a conquista do tricampeonato mundial do México. As seleções foram divididas em grupos, separados de acordo com as 12 cidade-sedes. O Recife foi uma delas, sendo o Arruda palco de uma daquelas boas curiosidades que o futebol é capaz de reservar.

No dia 11 de junho, Irlanda x Irã fizeram todos os procedimentos de um pré-jogo: os jogadores aqueceram no gramado, concentraram e, por fim, subiram às quatro linhas já com seus devidos uniformes e jogadores em linha. Um detalhe, entretanto, passou despercebido: as duas equipes trajavam verde, nas camisas, e branco nos calções. No momento em que o árbitro notou a semelhança entre as equipes, logo pediu para que um sorteio fosse realizado para decidir quem teria de trocar o padrão de jogo. O Irã perdeu, mas não tinha uniforme reserva. Com isso, a seleção asiática precisou trocar sua cor original para usar o padrão oficial do Santa Cruz e, assim, disputar a partida normalmente. Daquele momento em diante, eles seriam os donos da casa.

A torcida tricolor logo mirou qual seleção apoiaria e, de início, até que deu certo. Ali Parvin abriu o placar para os iranianos ainda na primeira etapa e fez a festa da torcida pernambucana. Há relatos da época, inclusive, que contam que no instante em que os iranianos retornaram ao gramado padronizados de tricolores, as arquibancadas do Arruda se transformaram em um verdadeiro palco, pronto para receber o show protagonizado naquela partida. Muitas palmas e gritos para saudar a iniciativa necessária, no contexto do acontecimento do jogo, também única.

A vitória, no entanto, não parecia ser o caminho mais certo para o Irã, que abriu espaço para os irlandeses marcarem o gol de empate e, em seguida, virarem a partida, já na etapa complementar, com Mick Leech e Don Givens.

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Ampliação do Arruda
O Santa Cruz acabara de ser campeão pernambucano, depois de vencer os dois turnos da competição com largos 43 pontos, 13 a mais que Sport e Náutico, vice e terceiro colocado na tabela, respectivamente. Era a famosa “Década de Ouro” coral, que tinha à frente de seu comando Evaristo de Macedo, na companhia de Dentinho e Givanildo. No período, o estádio do Arruda ainda não tinha sido inaugurado e o Santa Cruz comandava seus jogos em outros estádios do Estado. Somente no dia 04 de junho, o Mundão finalmente foi fundado, em duelo sem gols entre Santa Cruz x Flamengo.

Mas, no período, o estádio serviu mesmo para ser uma das sedes da Minicopa. O exibicionismo de Médici em meio ao tri do Brasil, em 70, escancarara os interesses políticos oriundos daquele triunfo. Além de gerir dúvidas, a realização da Taça Independência também interferiu no calendário de algumas federações estaduais, uma vez que interrompeu campeonatos, até mais atrativos do que o próprio torneio organizado nacionalmente. Isso foi demonstrado, por exemplo, em algumas capitais como Natal e Recife, que ainda na primeira fase receberam públicos não muito expressivos. Consequentemente, isso contribuiu para que a receita obtida do torneio fosse abaixo do esperado, gerando um déficit que impôs ao governo recorrer aos cofres públicos para sanar o prejuízo.

Em Recife, a disputa girava em torno de qual estádio acolheria o torneio. Com Sport e Náutico na briga, o Arruda foi o escolhido. O banco Campina Grande, então, investiu cerca de 850 mil cruzeiros para que o José do Rego Maciel fosse ampliado. E assim foi feito. O Arruda recebeu o grupo 2, representado por Portugal, Chile, Equador, Irã e Irlanda. A Seleção Brasileira acabara sagrando-se campeã da competição - por ironia ou não -, após vencer Portugal por 1x0, com gol de Jairzinho. Mas diante disso tudo, a memória mais realista que restou desse desbotamento do passado foi a seleção iraniana vestindo o manto tricolor. E, apesar da derrota, sentindo-se em casa, em plena a década de 1972.

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