Sorriso nos trinques, rendimento em dia

Enigmas sobre tratamento de sérios problemas físicos estão relacionados à saúde bucal, vertente que se consolidou no esporte

Ary Nunes, odontologistaAry Nunes, odontologista - Foto: Alfeu Tavares/Folha de Pernambuco

O ano era 1958. O Brasil fazia os ajustes finais para a Copa do Mundo da Suécia quando o odontólogo Mário Trigo fora incorporado à comissão da Seleção. Pela primeira vez, o estafe da equipe ultrapassara o trivial grupo de especialistas em músculos e táticas. De pronto, Trigo observara que seria difícil conquistar algo expressivo sem melhorar a condição bucal daqueles jogadores. Junto com uma equipe da Faculdade de Odontologia do Rio de Janeiro, identificou 470 dentes com problemas entre os 33 atletas do elenco - uma média aproximada de 15 por pessoa - e realizou 118 extrações, que até poderiam ter sido evitadas se houvesse tempo hábil.

Garrincha, uma das estrelas daquela geração, fora um dos de que mais perdeu dentes nesse processo, um total de seis. Incompreendido e assustador à primeira vista, o tratamento deu resultado. O Brasil brilhou na Copa e levantou o primeiro título da sua história. Trigo integrou a comissão nacional em outras três copas, atingindo a elevada média de três conquistas em quatro mundiais (1958, 1962 e 1970). Embora tenha tido eficácia comprovada, o pouco reconhecimento ocasionou um subaproveitamento desse recurso por décadas. Isso, inclusive, dentro da própria odontologia, que só tornou a vertente esportiva, de fato, em especialidade em novembro de 2015.

Um desequilíbrio na arcada dentária pode causar sérios prejuízos a qualquer pessoa. Em um atleta, então. Na teoria, os esportistas são indivíduos extremamente saudáveis. Na prática, o fato de estarem sempre em seu limite fisiológico pode gerar baixas no sistema imunológico. A máxima de que “a boca é porta de entrada para diversas doenças” é um alerta real. Bactérias presentes em cáries, gengivites e tratamentos não concluídos, por exemplo, podem se alastrar pela corrente sanguínea e gerar uma série de consequências, entre as quais lesões musculares e articulares.

Além disso, uma avaliação ortodôntica minuciosa é capaz de revelar pequenos detalhes, como a má oclusão dentária (encaixe dos dentes) e a Síndrome do Respirador Bucal, que podem gerar sérios problemas. A má oclusão acarreta sobrecarga na articulação temporomandibular (ATM) - ver matéria vinculada -, enquanto o atleta que respira pela boca tem perda da capacidade aeróbica, uma vez que o desvio postural causado contrai o diafragma, deixando-o sem força e dificultando que os pulmões se expandam para receber mais ar. Quando revelado no São Cristóvão, Ronaldo Nazário, o Fenômeno, por exemplo, precisou passar por um tratamento específico para tratar má oclusão e respiração bucal, e, assim, poder render o quanto era capaz.

Atualmente, os recursos tecnológicos permitem identificar problemas antes mesmo do surgimento de sintomas. A vertente esportiva da odontologia evoluiu e se consolidou como um recurso diferenciado e eficiente, embora a grande maioria dos profissionais do desporto ainda procure auxílio somente quando há desconfortos e não a explore de forma preventiva. Para mudar esse cenário, o odontologista esportivo Ary Nunes tem ministrado palestras sobre o tema em diferentes equipes.

Esteve com os elencos de futsal e basquete da Uninassau e com o futebol profissional do Náutico, que incluiu a avaliação odontológica na pré-temporada de 2017. O Sport, por sua vez inaugurou uma clínica dentro do clube há cerca de três anos, na qual o odontologista Diego Dantas atende duas vezes na semana, além de promover palestras de conscientização. Todo atleta contratado no Rubro-negro passa por uma avaliação completa e os dados ficam registrados para acompanhamento regular. Já o Santa Cruz possui um gabiente odontológico, mas está inativo há cerca de dois anos. "Infelizmente, pela questões financeiras, não está em atividade. Acho importante ter um acompanhamento, principalmente com os meninos da base, porque é de conhecimento que focos infecciosos deixam os músculos sensíveis, tem as questões ortodônticas. Os profissionais geralmente têm seus médicos pelos planos de saúde", analisa o médico coral, Wilton Bezerra.

Uma boa prevenção deve constar de raio-x da arcada, avaliação postural (levando em conta o esporte praticado) e informações subjetivas, nas quais são abordados hábitos, histórico de lesões e queixas de cada paciente. Um plus tecnológico é o check up odontológico, feito com um aparelho que analisa cada dente em imagem aumentada e diagnostica o possível surgimento de infecções, permitindo um tratamento antecipado. “Seguindo esse protocolo regularmente, podemos dizer que é a fórmula do sucesso. Há muitos detalhes, às vezes uma lesão que demora a ser sanada, um atleta que cansa rápido demais, que sente dores na coluna e não executa corretamente as atividades. Muitas respostas e soluções podem estar na boca”, frisa Ary.

Trabalho multidisciplinar
Multidisciplinar é um contexto que se tornou regra no esporte, afinal, o corpo humano é um verdadeiro trilho anatômico e, por isso, qualquer descompasso pode gerar consequências. Os resultados comprovam que a odontologia apresenta convivência harmoniosa com outros segmentos da saúde no desporto. Um grupo composto por odontólogos e fisioterapeutas do Recife, inclusive, vem pesquisando detalhes dessa ligação.

“Fazemos uma avaliação física que identifica disfunções odontológicas pela mobilidade do corpo. Temos um mapa da oclusão, no qual percebemos, a partir da retração de determinados músculos, o dente que impede certos movimentos. Então, são feitos ajustes milimétricos que desbloqueiam os grupos musculares”, explica o fisioterapeuta Dayvisson Marques. Segundo ele, é inviável, hoje, tratar um paciente com lesão crônica sem o trabalho interligado de uma equipe multidisciplinar. “A articulação temporomandibular (ATM) é uma articulação como qualquer outra do corpo e, quando está desalinhada, gera sobrecarga no restante da estrutura corporal, predispondo lesões e dificultando processos de reabilitação”, conclui.

Protetor
Entre os tratamentos possíveis, está o uso de um dispositivo intraoral com função também de melhorar o posicionamento da mandíbula. Foi o que ajudou Rubens Queiroz, jogador de handebol do Sport. Na avaliação física, foi identificado um problema crônico no ombro direito dele, que passou pelo consultório do doutor Ary Nunes e, depois de começar a usar o acessório, sentiu as dores sanarem.

O dispositivo, popularmente conhecido como protetor bucal, apesar de ser alvo de repulsa de muitos, é um acessório que deveria ter uso obrigatório, por reduzir impactos em até 80% e, assim, proteger dentes, mucosa oral e ATM. “A maioria dos atletas reclama que é ruim para respirar, para se comunicar e ingerir líquidos usando o protetor, mas isso acontece com os acessórios pré-fabricados vendidos em lojas de produtos esportivos, quando o indicado é fazer um protetor bucal individualizado, sob medida para o atleta, através do molde da arcada dentária”, diz Ary Nunes.

O goleiro Jefferson, do Náutico, era um dos resistentes ao uso do protetor, até sentir na pele a necessidade. No primeiro treino deste ano, ele chocou-se com a trave e levou três pontos no lábio superior. “Se estivesse usando o protetor, isso poderia não ter acontecido. Algumas pessoas falavam que era ruim de falar, que saía da boca. Tinha essa ideia e não usava. Mas hoje vejo que é indispensável no futebol e em todos os esportes, em treinos e jogos”, contou Jefferson.

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