Tifanny desperta controvérsias e divide opiniões

Desempenho da primeira atleta transexual a ganhar autorização para jogar entre mulheres gera polêmica na Superliga

Tifanny jogadora de vôleiTifanny jogadora de vôlei - Foto: Marcelo Ferrazoli/Vôlei Bauru

Tifanny Pereira de Abreu, de 33 anos, nasceu em 2015. Isso porque a atleta do Vôlei Bauru teve como seu primeiro nome Rodrigo, quando na pequena cidade de Conceição do Araguaia, no Pará, veio ao mundo. Sendo uma criança afeminada, teve sua infância cercada por bullying e preconceito, além dos conflitos internos enfrentados por não se sentir pertencente ao seu corpo.

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Há cinco anos, já atleta de vôlei, tendo atuado em times como Juiz de fora e Foz do Iguaçu na Superliga Masculina, Rodrigo tomou a decisão mais importante de sua vida: sair do País e só voltar como uma mulher completa, Tifanny. Foi no exterior que seu sonho tornou-se realidade, fez a transição integral para mudar de sexo, passando por uma drástica alteração hormonal e fisiológica que a possibilitou atuar como mulher no mundo esportivo.

A sua primeira atuação em quadra, pelo naipe feminino, foi na Itália, onde atuou na segunda divisão nacional pelo Golem Volley, consolidando mais uma etapa alcançada dos planos da paraense. E esse fato não foi marcante só para ela, uma vez que Tifanny se tornou a primeira transexual brasileira a conseguir autorização da Federação Internacional de Vôlei (FIVB) para jogar entre as mulheres.

Segundo o Comitê Olímpico Internacional, para uma mulher trans atuar no esporte no naipe feminino, não é necessária a cirurgia de mudança de sexo. O elemento fundamental para a adequação aos parâmetros exigidos, além da autodeclaração como mulher, é ter o nível de testosterona abaixo de 10nmol/L de sangue, controlado durante os doze meses anteriores à competição que irá participar. O quantitativo de Tifanny é muito abaixo do mínimo permitido: 0,2nmol/L.

Em se tratando de taxa de hormonal adequada ao esporte feminino, alguns casos de brasileiras ficaram bastante conhecidos, como os da judoca Edinanci Silva e da atleta de vôlei Érika Coimbra. Diferentemente de Tifanny, as duas ao nascerem tiveram em suas certidões a identificação do gênero feminino, porém, ao ingressar no mundo esportivo, esbarraram no preconceito ao se destacarem. Por terem nascido com anomalias no aparelho reprodutivo e consequente produção hormonal desregulada, passaram por cirurgias para estarem aptas ao desporto e serem aprovadas pelos constrangedores “testes de feminilidade” a que eram submetidas as atletas para as competições de alto nível.

A Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) apenas autorizou Tifanny a disputar a Superliga Feminina 2017-2018 em dezembro do último ano, após quase dez meses de espera da atleta. Porém, este caso está longe de ser solucionado. Não há estudos que comprovem a influência real dos ganhos de Tifanny antes do tratamento hormonal, mas ela comprovadamente perdeu força, velocidade e resistência, já que a nova fisiologia do seu corpo é toda de uma mulher.

“Ela não passou pela transição de sexo durante a fase de maturação hormonal, o que poderia ter sido controlado e não ter sido desenvolvido um corpo masculino. Já que cresceu com a fisiologia de um homem, ela deve ter indicadores de força e potência muito maiores do que as atletas que nasceram num corpo de mulher. Pelo vôlei ter uma característica de ser anaeróbio, esses elementos influenciam para que o desempenho dela seja destacado”, afirmou o fisiologista Inaldo Freire, que considera que o mais justo a ser feito é a criação de uma categoria especial para atletas transexuais.

Para a endocrinologista Bruna Costi “mesmo respeitando as exigências do COI de manter a testosterona baixa, ela possui a estrutura óssea e muscular de um homem. Isso determina uma maior altura, força e explosão, o que pode ser determinante em competições profissionais. Não existe definição de quanto tempo é necessário para modificar essas características. Após anos de bloqueio de testosterona em mulheres trans, haverá perda significativa de massa muscular, porém não há como se equiparar a uma mulher nunca exposta a níveis elevados de testosterona.”

A médica explica, ainda, que o corpo de Tifanny funciona semelhante ao de uma atleta mulher que utilize doping com testosterona, ganhe massa muscular de forma desleal e depois pare de usar, retornando a níveis femininos, porém mantendo as vantagens físicas. “É muito mais do que uma questão de aceitação ou inclusão. São diferenças fisiológicas que justificam a divisão por sexo nos esportes. Características físicas que determinam certo grau de vantagem em competições profissionais devem ser analisadas cuidadosamente”, finaliza a especialista.

O técnico da seleção brasileira José Roberto Guimarães não nega a possibilidade de Tifanny ser convocada para compor a equipe que representará o Brasil na Liga das Nações (antigo Grand Prix) e no Mundial, ambos a serem realizados neste ano. Caso ela continue com o mesmo desempenho destacado dentro de quadra, não haveria motivo para o nome dela não constar na lista, assim como de qualquer outra jogadora que esteja elegível.

Os números de Tifanny na Superliga são motivos de estudos. A atleta é a líder em média de pontos por set na Superliga e ainda detém o recorde de pontos em uma só partida ao anotar 39 acertos na derrota do Bauru para o Praia Clube. Porém, sua alta pontuação não equivale a mais alta eficiência: os pontos feitos nesta partida saíram de 75 ataques, ou seja, teve 44% de acerto. Na mesma rodada, Tandara, oposta do Osasco, que até então era a dona do recorde, fez 15 pontos, mas com 56% de eficiência. Depreende-se, então, Tifanny, referência do ataque do seu time, realmente pontua bastante, mas ao mesmo tempo comete muitos erros, o que compromete a sua eficiência.

O que não há dúvidas quanto à participação de Tifanny na Superliga é a parte que tange à crescente quebra de paradigmas e de preconceitos perante a comunidade LGBT. A conquista dela no mundo esportivo enquanto transexual encoraja jovens que convivem com essa realidade a saberem que há lugar para todos. A permanência da atleta nesta edição e nas próximas da maior competição nacional da modalidade ainda é uma incógnita a ser discutida entre as autoridades competentes, contudo é inegável o desenvolvimento da sociedade em sediar tamanho debate.

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