[Vídeo] Torcedoras levam feminismo aos estádios de futebol
Mulheres se unem para combater o machismo em um ambiente essencialmente patriarcal
Por décadas consideradas um “não público-alvo” do futebol, as mulheres estão unindo forças para driblar o preconceito enraizado em um dos ambientes mais machistas que existem, o estádio. Buscam mostrar que podem, sim, gostar de futebol, entender suas regras, saber na ponta da língua a escalação titular do seu time do coração e, o mais importante de tudo, podem vestir a camisa e povoar as arquibancadas como qualquer outro torcedor.
Elas sabem que têm direito. O que desejam é poder usufruí-lo livremente, sem olhares tortos ou comentários preconceituosos, por vezes até dentro da própria família, sem serem tachadas de “marias-chuteiras”, sem serem assediadas escancaradamente, sem serem agredidas. Porque, sim, tudo isso é uma agressão.
Em todo o Brasil, vem se tornando cada vez mais comum encontrar coletivos femininos nas arquibancadas dos estádios de futebol. Não são simplesmente torcidas femininas. Classificar dessa forma é raso demais para algo que busca aprofundar debates importantes, impulsionados pelo crescente engajamento na busca por igualdade de gêneros nas mais diversas frentes.
Mais do que torcer pelo sucesso dos seus times do coração, elas têm ações que vão de coisas pontuais, como melhoria da estrutura dos sanitários e confecção de camisas com modelagens femininas, a questionamentos atuais.
O objetivo principal é mudar o conceito pré-estabelecido da sociedade patriarcal de que estádio não é lugar para mulher. A resistência de muitos homens em refletir tal condição esbarra até no intrínseco receio de “perder domínio” em um terreno que, por tantas décadas, foi predominantemente deles.
O Trio de Ferro recifense também tem seus coletivos femininos. Coralinas, do Santa Cruz, Elas e o Sport, do Sport, e Timbuzeiras, do Náutico, surgiram todos no ano passado. Embora não tenham ligação entre si, os movimentos nasceram do objetivo comum de incentivar as mulheres a frequentar os estádios sem receios.
“Eu e minhas amigas sempre íamos aos jogos, mas sentíamos falta de mais mulheres no estádio. Então, decidimos criar o grupo para incentivá-las a não ter medo, pudor, a não acharem que estão erradas por ir. Acompanhamos o time feminino também, sempre apoiando as meninas”, comenta a empresária Danielle Bandeira, de 35 anos, uma das fundadoras do Elas e o Sport. “Desde o começo, nossa função é trazer para o estádio meninas que não costumam ir por falta de companhia ou outros fatores”, destaca a estudante Brenda Beatriz do Nascimento, 18, do Timbuzeiras.
O Coralinas nasceu no mesmo palco da fundação do Santa Cruz, o emblemático Pátio de Santa Cruz, na área central do Recife. E, assim como o clube, que quebrou tabus à época do seu surgimento, com um ídolo negro em um espaço até então predominantemente branco e jogos realizados em campos populares, o Coralinas também quer derrubar barreiras. Entre as iniciativas das meninas para deixarem as mulheres mais à vontade está a colocação de caixinhas com papel higiênico e absorventes nos banheiros, que, em geral, têm condições precárias.
Outra conquista do movimento foi a implantação de uma pelada feminina semanal no campo society do Arruda. “A adesão mostrou que elas tinham vontade de ter essa pelada, mas não tinham espaço”, pontua a advogada Marina Nascimento, 24 anos, uma das fundadoras do Coralinas. “Falar do Coralinas me emociona muito ao ver unidade que conquistamos. Desde 2005, fui a 90% dos jogos no Arruda. Ver que não estava só, me fortalece. A sensação é a de que, quando estamos juntas, somos mais fortes para vencer o preconceito, o assédio, para lutar pelo nosso espaço. A mulher, por ser mulher, quando gosta de futebol, sofre inúmeros questionamentos e constrangimentos”, completa.
Os três movimentos usam as redes sociais e aplicativos de comunicação para combinarem encontros e até caronas, facilitando a vida de quem não tem companhia para ir aos jogos. Tudo é válido nessa causa. “Combinamos pontos de encontro e também o local onde vamos assistir aos jogos, pois a ideia é levar o movimento a todos os setores do clube. Sempre tem representantes do Coralinas nas partidas do Santa. Qualquer menina que quiser vir aos jogos e não tiver suporte, pode nos procurar”, conta a bancária Priscila Azevedo, 24. Refutar a cultura machista que ainda cerca o futebol e os estádios se mostra, cada vez mais, uma necessidade, humana e de validação do direito das mulheres.