A aspirina e a medicina

Esse é o medicamento mais usado em todo o mundo

Aponte o dedo quem nunca recerrou ao medicamentoAponte o dedo quem nunca recerrou ao medicamento - Foto: Diulgação

A aspirina é, provavelmente, o medicamento mais usado no mundo. São dezenas de toneladas consumidas a cada ano. Existe referência do seu uso antes da era cristã. Hipócrates, um grego que viveu quatro séculos antes de Cristo, observou que um chá obtido de determinada planta tinha importantes ações terapêuticas.

Ele o utilizava nos portadores de dor e febre. Posteriormente, descobriu-se que estes benefícios se deviam à existência de uma substância que foi denominada de salicina. Porém, só foi possível conseguir a sua síntese e promover uma pequena modificação na sua molécula, que a tornava mais eficiente, nas últimas décadas do século XIX.

O laboratório Bayer foi quem patenteou o ácido acetilsalicílico, que é o nome químico da Aspirina, em fevereiro de 1900. O primeiro comprimido chegou ao mercado em 1915. A sua analgésica se deve a capacidade de inibir a síntese de prostaglandinas, substâncias que aumentam nos casos de inflamação.

São as prostaglandinas que levam ao nosso cérebro a existência da anormalidade. Posteriormente, descobriu-se que a inibição da sua produção se devia ao bloqueio da ação de um tipo de enzimas chamado de cyclocygenases, que também são necessárias à síntese do tromboxane.

Esta última substância tem a função de promover a agregação das plaquetas. Mecanismo essencial na coagulação sanguínea, mas também responsável pela formação dos trombos da arterioesclerose. A suspeita de que a ação de inibir a formação do tromboxane, com consequente diminuição de trombos, pudesse ser benéfica na redução de eventos cardiovasculares, infartos e acidentes vasculares cerebrais, confirmou-se. Dezenas de pesquisas demonstraram uma redução de 20% a 30% no número desses eventos.

Por conta disso, desde a década de 80, as associações médicas recomendam o uso de pequena dose única da Aspirina, aos portadores de doença arterioesclerótica. No entanto, ainda se discute este procedimento - válido também para os que ainda não apresentaram eventos semelhantes, mas que têm os fatores de risco para tal.

Hipertensão arterial, hiperlipidemia, diabetes, herança de tabagismo, atual ou anterior, entre outros.

Algumas associações médicas, que acham que a prevenção primária é válida, ou seja, sem que tenha havido eventos anteriores, quando a intensidade e a quantidade dos fatores de risco forem importantes.

Os contrários a este procedimento argumentam que os benefícios não seriam maiores do que o risco de efeitos colaterais: manifestações hemorrágicas, surgimento ou agravamento de problemas gástricos, insuficiência renal, entre outros. No entanto, a redução de eventos cardiovasculares é indiscutível.

É algo de mais de 20% no número desses eventos, número que tem grande impacto socioeconômico. Afinal, 600 mil americanos morrem de infarto e 130 mil de acidente vascular cerebral a cada ano. Isto também promove uma economia importante nos gastos com saúde.

Afinal, a quantia para o tratamento deste tipo de doente é de 450 bilhões de dólares anuais somente nos Estados Unidos. Estudo recente, feito pelo governo norte-americano, concluiu que menos pacientes vêm tomando a droga do que seria indicado.

Pretende-se, inclusive, realizar uma campanha com seus médicos para que aumentem as prescrições. Nas últimas semanas, uma pesquisa médica contra a “Aspirina” ganhou destaque. “O uso prolongado da Aspirina aumenta o risco de cegueira” foi a manchete publicada em vários jornais de diversos países.

Isto por conta da observação de uma maior prevalência da degeneração da mácula nos que usaram Aspirina por longo tempo.

A pesquisa foi feita em 2.389 pacientes, por 15 anos, e entre os que faziam uso de Aspirina, houve a incidência do problema: 9,3% x 3,7%. A mácula é a parte da retina responsável pela visão central e a sua degeneração é relativamente frequente.

Um em cada octogenário apresenta o problema. Porém, na maioria dos casos, existe diminuição da acuidade visual e só raramente cegueira. Mesmo que este dado venha se confirmar por outras pesquisas, a redução dos eventos cardiovasculares tem uma importância clínica extremamente maior. Por conta disso, devemos continuar o seu uso.

*É endocrinologista. Escreve quinzenalmente neste espaço

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