A bala que nos feriu

O assassinato de Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes tirou de casa uma gente que vinha se mantendo trancada, desiludida com a deterioração social do Brasil.

A semana que sucedeu a do Dia Internacional da Mulher não poderia ser pior para o gênero. Aliás, para todos que têm capacidade de se indignar. Afinal, a morte da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL) integra o panorama da escalada da violência no Brasil, alimentada pela corrupção e pelo crime organizado. E a bala que a alcançou também nos feriu.

O assassinato desta mulher e de seu motorista, Anderson Gomes, tirou de casa uma gente que vinha se mantendo trancada, desiludida com a deterioração social do Brasil. Se voltará às ruas, não se sabe. O que acontecerá nos morros cariocas, também não. Mas tem algo engasgado e crescendo. As mortes de Marielle e Anderson geraram sentimentos de dor semelhantes, mas, naturalmente, pelo papel social que protagonizava, a da vereadora repercutiu com mais força.

Negra, ativista, lésbica, defensora de minorias e do aborto, Marielle, em seu papel público de liderança, falava alto. Seu discurso incomodava quem discordava de sua luta pelo combate ao racismo e à violência contra a mulher, pelos direitos das pessoas LGBT e pela maior representatividade feminina na política. E, num país ideologicamente dividido como se encontra o Brasil de hoje, onde a intolerância destrói o que resta de respeito ao próximo, a morte da ativista dividiu opiniões.

As redes sociais foram tomadas por lamentações, mas também por injúrias e deboches a Marielle. Inúmeras mensagens ofensivas circularam nessa grande vitrine social, correspondendo ao que o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Luiz Fux, denominou de “déficit civilizatório”.

Críticas à imprensa também não faltaram. Houve indignação com o tratamento dado ao caso pela mídia em geral. Primeiro, por parte dos que também sofreram perdas violentas e não viram repercussão semelhante envolvendo seus entes queridos. É compreensível que se sintam assim. É como se houvesse uma grande injustiça com suas dores. Segundo, por parte dos que se indignaram com o fato de não se valorizar a morte do motorista Anderson Gomes na mesma medida da de Marielle.

Vamos esclarecer que nem sempre cabe à imprensa ditar o alcance de uma cobertura. A forma como o povo reage é fator determinante para o tratamento que jornalistas dão ao assunto. A morte de Marielle soou alto como sua voz soava nos microfones, mas revolveu tantos outros crimes que se abafaram na sinistra conta que oprime e deprime o cidadão brasileiro sem força para comprar seus direitos. É nessa triste soma que entra o motorista vitimado.

A ordem para matar Marielle calou uma voz que lutava pelos direitos humanos. Direitos tão incompreendidos pelos que preferiram debochar a se solidarizar, mas que sempre vão falar alto dentro de qualquer pessoa quando ela, ou alguém que ela ame, for a vítima.

* Editora-chefe da Folha de Pernambuco

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