A cada seis anos, um recomeço

Cadeirante não é coitadinho, não trago isso no meu íntimo

 De autoria do deputado Rodrigo Novaes (PSD), o PL 1512 resulta das discussões numa Comissão Especial criada na Assembleia De autoria do deputado Rodrigo Novaes (PSD), o PL 1512 resulta das discussões numa Comissão Especial criada na Assembleia - Foto: Sabrina Nóbrega/Alepe

Minha mãe morreu - apenas a Bigrí, era como ela se chamava. Morreu, num dezembro chovedor, aí foi grande a minha tristeza. Mas uma tristeza que todos sabiam, uma tristeza do meu direito. De desde, até hoje em dia, a lembrança de minha mãe às vezes me exporta. Ela morreu, como a minha vida mudou para uma segunda parte. Amanheci mais.

Eu tinha 20 anos e aconteceu meu recomeço. Reflito muito sobre solidão, mas sem coitadismo, sem me penalizar por ter me tornado uma pessoa com deficiência. Mas tanta gente associa, uma pena. Cadeirante não é coitadinho, não trago isso no meu íntimo. Para falar a verdade, me acidentaram mas nem esperava ter ficado tetraplégica, sabe? Carrego muitas perdas além do movimento do meu corpo. Perdi minha mãe com 14 anos, e quem sustentou a barra foi minha avó, mãe dela. Mesmo idosa, foi com quem aprendi a força que tenho hoje, aos 32 anos. Vivo ciclos de seis anos, você vai entender.

Será que a vida socorre à gente certos avisos? Quando me acidentaram, meu pai morava no Japão. Era uma época que eu já procurava minha independência financeira, trabalhando, e fui para numa empresa de eventos. O acidente foi no terceiro dia de trabalho. Uma colega me chamou para pular na cama elástica, fui e resolvi repousar quando recebi o impacto do joelho dela: fraturou meu pescoço e eu fiquei paralisada dali pra baixo, só piscava os olhos, tentava respirar e não conseguia. Fiquei só. Na justiça, a causa foi perdida. Se Deus for justo, com Ele vão se entender.

O médico disse que eu ia ser operada para tentar colocar a vértebra no lugar. Nesse momento, eu passei por um sertão, recomeçar tudo, receber comida na boca, ter alguém para me trocar, me dar banho. Fiquei entre a vida e a morte. Fui para um hospital de referência achando que voltaria a andar em seis meses, mas vi muita gente no processo, vi que seria para sempre. Vi que teria que ser dali pra frente.
Minha avó, Deus e eu fomos vencendo, mas eu me vi muitas vezes sozinha, mesmo com eles.

Amigos, nessa fase, eram poucos. Eu, que ia muito para shows, festas, fui sumindo em mim. Tive uma depressão muito forte, me isolei num processo forte de luto por saber que eu não ia mais ter minha vida. Voltei ao longo de quatro anos, quando consegui olhar para as pessoas de novo sem pensamentos de inferioridade. Pensei muito em por que merecia estar numa cadeira de rodas. Era minha avó cuidado de mim aqui e meu pai mandando minhas despesas do Japão. Outro sertão profundo foi a morte da minha avó, seis anos depois do acidente, outro ponto desse meu ciclo, viu? Ela se foi de infarto, coração, e, ali, eu me senti sozinha de novo. Ela era meus braços e minhas pernas, eu dependia dela para tudo, foi muito guerreira comigo. Falo dela, me emociono.

Nessa situação, aceitei o convite para morar na casa de uma amiga. Fui, mas tinha consciência de que estaria sempre incomodando, então defini que ficaria um ano. Foi uma fase muito difícil, não me alimentava direito, tinha muita saudade da minha avó. Melhor, fui morar de aluguel, e mantendo contato com meu pai: ele era dividido, sem saber se vinha para cá, mas trabalhava no Japão. Fiquei sozinha, com duas meninas para me dar suporte, dia sim, dia não. Era 2012 quando meu pai decidiu vir cuidar de mim, de vez. Acho que nós dois éramos mesmo pertencentes.

Vivi com ele por três anos que pareceram uma eternidade, até perdê-lo, no Natal de 2015. Na véspera ele passou mal, coração de novo e outro ponto do meu ciclo. Deus é paciência; o contrário é o diabo, entende? Desde o acidente, não tive uma noite sequer de sono tranquilo. Eu não posso me mexer sozinha e vêm as lembranças da minha mãe, da minha avó, do meu pai. Mas não sinto mais meu corpo como uma prisão, nossa mente é muito dinâmica e com ela eu posso estar no Japão, com meu pai. Tudo muda, eu mudei e sei que não dá para você entender o andar só com as pernas.

O real não está no início nem na chegada, ele se dispõe para a gente é no meio da travessia. Isso é bem forte. Na minha travessia, a realidade são as perdas que eu já vivenciei, mas é também a realidade que a vida é a minha superação diante de tudo. O que é que a gente sente quando sente medo? Angústia, solidão. O que eu tenho medo? Acredito que da solidão, de terminar num abrigo ou asilo. Amigos são as pessoas mais próximas de mim hoje, se eles faltarem... eu não sei.

Estou vivenciando isso, eu amanheci a minha aurora. Meu maior sertão hoje é a ausência das pessoas que mais amei na minha vida, mas elas estão aqui. Se foram as que não tiveram a capacidade de fazer a travessia. Essas que se foram.

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