A chaga da escravidão (1ª parte)

A partir do séc. XVI, e por mais trezentos anos, homens foram chegando, por aqui, sem mais esperanças de morrer na terra onde morreram seus pais e seus avós

A chaga da escravidãoA chaga da escravidão - Foto: Hugo Carvalho/ Arte Folha de Pernambuco

Nos 130 anos da abolição da escravatura. Em homenagem a esses, a quem devemos tanto, segue uma série de artigos sobre a escravidão. Para compreender toda essa história é necessário voltar no tempo. Bom lembrar que o açúcar deu, a Pernambuco, o fausto da riqueza e as promessas do progresso. Mas com ele veio, também, a chaga da escravidão. “Nódoa que a mãe pátria imprimiu na sua própria face”, segundo Joaquim Nabuco (em O abolicionista).

A partir do séc. XVI, e por mais trezentos anos, homens foram chegando, por aqui, sem mais esperanças de morrer na terra onde morreram seus pais e seus avós. Conformando uma história de servidão humana que começou bem antes da descoberta do Brasil; desde quando, nos primeiros tempos, vencidos em batalhas eram aprisionados. Trabalhavam então como escravos, em troca de suas próprias vidas. Abraão (em hebreu Avraham “pai de uma nação”), por exemplo, um dos escolhidos por Deus, era dono de muitos deles: “Os filisteus entupiram todos os poços que tinham cavado os escravos de Abraão” (Gênese, 26, 15).

Sua mulher Sara, estéril, lhe ofereceu como serva a egípcia Agar: “Eis que o Senhor me fez estéril; rogo-te que tomes a minha escrava para ver se, ao menos por ela, eu posso ter filhos” (Gênese, 16, 2). Assim nasceu Ismael. Naquele tempo, ter escravos era privilégio de bem poucos. Entre eles Isaac, filho do mesmo Abraão, que “tornou-se extremamente rico. Possuía rebanhos de ovelhas e bois, e numerosos escravos” (Gênese, 26, 13-14). Eram todos tratados como animais. Sem justiça ou compaixão. “Amarguravam-lhes a vida com duros trabalhos na argamassa e na fabricação de tijolos, bem como trabalhos nos campos e todas as tarefas que se lhes impunham tiranicamente” (Êxodo, 1, 13). Mesmo a doce e compreensiva Sara tanto maltratou Agar, e “de tal forma, que teve ela de fugir” (Gênese, 16, 6).

A escravidão mereceu da Igreja Católica, durante séculos, um apoio decisivo. No caso específico de Portugal, por representar força de trabalho capaz de produzir riquezas; e, também, pela crença de que só assim aqueles nativos salvariam suas almas com a fé no Cristo que lhes era imposto. “Os africanos de Angola são batizados em lotes, antes que deixem suas praias. O signo da Coroa Real que trazem no peito indica que já passaram pela cerimônia do batismo e que também os direitos reais foram pagos”, disse Henry Koster (em Viagem ao nordeste do Brasil).

Roma chegou mesmo a conceder, aos Reis de Portugal, o direito de ser donos das terras que conquistassem na África e ilhas vizinhas. Com poder para, nelas, saquear o que quisessem e tornar toda aquela gente escrava. Isso o fez, inclusive, através de sucessivas bulas: Dudum Cum (31 de julho de 1436), Rex Regnum (8 de setembro de 1436) e Preclaris Tuis (25 de maio de 1437), do papa Eugênio IV; e Romanus Pontifex Celestis Claviger (8 de janeiro de 1454), do papa Nicolau V. Essa mesquinha cumplicidade entre fé e interesses econômicos permitiu uma colonização “em nome de Cristo”. Só depois, e bem aos poucos, essa posição começou a mudar. A partir de Pio II (1492), ainda só no plano espiritual.

Mais tarde, em 1639, Urbano VIII proibiu “rigorosamente escravidão de índios do Paraguai, do Brasil e das Índias Ocidentais”. E Gregório XVI (1839) “condena e proíbe a escravidão de negros”. Tanto que Leão XIII (1888), oito dias antes da assinatura da Lei Áurea pela princesa Isabel, publicou carta exigindo a total libertação dos escravos no Brasil.

Não apenas os que perdiam lutas, contra outras tribos, eram feitos escravos. Também aqueles capturados por “caçadores de homens”, especializados no comércio de negros. Eram crianças, adultos e velhos, de todas as classes sociais. No en­genho Sibiró (Ipojuca, em Pernam­buco), chegou a viver uma rainha de Cabinda, Tereza Rainha - que trazia argolas de cobre nos braços e nas pernas, tristes símbolos da realeza perdida.

Ainda na África, iam primeiro para entrepostos (feitorias), nas regiões à beira-mar - Ango­la, Cabo Branco, Costa da Mina (ho­je, Benin), Guiné, Ilha de Gete (Arguim, na costa da atual Mauritâ­nia), Moçambique, Senegal. Ali a­guar­da­vam navios europeus que vi­nham carregados com a moeda des­sa troca - especiarias e objetos de to­do tipo “estanho, trajes, armas, man­tas do Alentejo, algodão do Ca­bo Verde e cavalo”, segundo Câma­ra Cascudo (História da Alimenta­ção no Brasil). Vinte e cinco mani­lhas de la­tão valia 1 escravo. Um cava­lo, 7 de­les. Nessas feitorias e nos na­vios, para evitar rebeliões, familiares nunca ficavam juntos. Nem aqueles que falassem o mesmo dialeto.

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