Opinião

A cronologia de uma democracia reprimida

Março de 2019.  Num jantar realizado na Embaixada do Brasil em Washington, diante de nomes conservadores liderados pelo ex-estrategista do "trumpismo" Steve Bannon e o guru Olavo de Carvalho, o presidente bradou alto e em bom som, na sua eloquência pautada por erros gramaticais: "Nós temos é que desconstruir muita coisa. Desfazer muita coisa. Para depois nós começarmos a fazer." Amparado por uma "hipócrita verdade"que faz questão de chamá-la  de sua. No bojo de quem se vende como o salvador, que assim age porque está ao lado do bem. Ovacionado por um fanatismo doutrinado pelas redes para tratá-lo como se mito fosse. Desse modo insólito, o presidente entende que o Messias do seu sobrenome não foi mera registro civil. Com ele, sente-se como um predestinado. Mas, na essência, esconde-se da realidade, pois usa as armas mais violentas e segregadadoras.

Abril de 2020. No dia da descoberta histórica do Brasil, há 520 anos, o país se redescobre numa forma pouco republicana. No início de uma crise advinda dos primeiros efeitos de uma cruel pandemia, o que seria uma convencional reunião ministerial foi transformada numa espécie de "tribuma de horrores". A ameaça democrática foi tratada com rompantes autoritários, flagrada depois por imagens e áudios incontestáveis. A negligência do governo foi oficializada descaradamente. No geral, retirado aqui o silêncio constrangido de alguns, um  pouco de cada área mostrou sua cara comprometida com a sanha autoritaria. Cenas desreipeitosas de ataque às instituições, afronta e deboche reservados à crise sanitária e cobranças por altitudes autoritárias foram evidentes. Os riscos à democracia se tornaram ainda mais reais.

Julho de 2021. Acompanhando do ministro da Justiça e de um coronel assessor, este apontado como conhecedor do tema, o presidente se utiliza de mais uma das suas lives, para atacar o STF e o TSE. Sem provas consistentes e recorrendo ao uso abusivo de discursos frágeis, difunde apenas que tem indícios capazes de rejeitar as urnas eletrônicas. O tamanho desse desencontro com as instituições democráticas foi consumado nesses dias, quando o YouTube decidiu por remover o vídeo da sua plataforma.

Setembro de 2021. O que poderia ser o clímax de uma marcha golpista, o tenso dia da pátria foi arrefecido por uma plena frustração. Mesmo que inflamado pelo senso de posse que alardeia a respeito do comando das Forças Armadas, numa intenção pueril de chamá-las de minhas, o que prevaleceu foi uma tese de resistência institucional, que até contou com a dupla pena do ex-presidente Temer. Pena da escrita, pelo texto de conciliação, em respeito às instituições democráticas, escrito pelo próprio Temer. E pena no sentido de uma compaixão reservada por tantas sandices.

Julho de 2022. O ápice da instabilidade política causado pelo negacionismo eleitoral é revelado para o mundo. Antes, o Brasil era visto como um novo pária mundial, pelas posturas assumidas nas raras incursões internacionais. Isso em atos consumados de fora para dentro. Agora, de dentro para fora, atitude tomada para sustentar configurações inéditas e vexatórias. É a consagração do esforço pela sacralização do pária. Uma vergonha que não esconde a gravidade da agressão a que foi submetida a democracia brasileira. Digna de uma reação mais incisiva da parte racional da sociedade.

A "recessão democrática" é hoje o retrato consunado da tese de Diamond. Nesse sentido, meu resumo da tragédia politica anunciada que tomou conta do Brasil, espelha-se na poesia de Fernando Pessoa: "Quanto mais fundamente penso, mais profundamente me descompreendo."



*Economista e colunista da Folha de Pernambuco


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