A dor da falta de despedida em tempos de isolamento social

A pandemia do novo coronavírus também interferiu no processo de luto. Sem os ritos fúnebres, cabe a cada pessoa lidar sozinha com a perda

Sepultamentos rápidos tornaram-se procedimento padrãoSepultamentos rápidos tornaram-se procedimento padrão - Foto: Marcello Zambrana/Agif/Folhapress

Com o avanço da pandemia do novo coronavírus, a impossibilidade de velar e até mesmo enterrar os entes queridos deixou de ser uma realidade distante vivenciada em outros países e passou a fazer parte do cotidiano brasileiro. Após a confirmação da primeira morte provocada por Covid-19, em 17 de março, no Estado de São Paulo, outras centenas de pessoas não resistiram às complicações da doença no Brasil. Desde então, medidas sanitárias foram adotadas para evitar a transmissão do vírus durante as cerimônias fúnebres, que acabaram interferindo nos ritos de despedida com os quais estamos acostumados.

É praticamente unanimidade que a dor da perda é sempre grande, mas em tempos de coronavírus se agiganta e pode tomar proporções inimagináveis. Corpos estão sendo enterrados em caixões lacrados. As pessoas não estão podendo se despedir de quem morre. Entre parentes e amigos das vítimas falta aquele abraço apertado que ajuda a consolar o pesar. Tal fenômeno já foi visto em outros momentos da história, como na epidemia do HIV, entre os anos 1980 e 1990, e de ebola na África, no início de 2013, mas nada que já tenha sido visto em livros e filmes ajuda a amenizar a dor de quem se encontra de luto na atualidade.

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Quando o Sars-Cov-2 (nome científico do novo coronavírus) foi identificado na cidade de Wuhan, na China, em dezembro do ano passado, a empresária Amanda Marinho, de 35 anos, não imaginava que ele pudesse chegar ao Brasil e muito menos na rapidez que ocorreu. Em janeiro de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o surto como uma emergência de saúde pública de interesse internacional. No mês passado, com a disseminação do vírus em diferentes países, foi declarada a pandemia. Em Pernambuco, o primeiro caso foi confirmado no dia 12 de março e não demorou a se espalhar por várias cidades do Estado.

Quando o tio foi socorrido pela primeira vez para o Memorial Hospital de Goiana, na Mata Norte, no dia 10 de março, Amanda não suspeitava que a Covid-19 tinha atingido sua família, pois até então nenhum caso havia sido notificado na cidade. Mas 17 dias depois veio o diagnóstico: Aguinaldo Gomes Marinho, 62, tinha contraído a doença. Mal deu tempo de a família absorver a notícia, dois dias depois ele teve uma piora no quadro clínico e morreu. De acordo com Amanda, o corpo já saiu do hospital envolvido em dois sacos, no caixão totalmente lacrado. “Foi tudo muito rápido e não tivemos como chegar perto por medida de segurança", conta.

“Muito sofrimento nesse momento por não podermos dar o último adeus ao nosso amado. Uma sensação de desespero. Uma perda irreparável, que jamais será superada”, desabafa a empresária. Além de lidar com o luto, Amanda conta que fica a preocupação de ter contraído o vírus e contagiar outras pessoas. Mãe de dois adolescentes de 10 e 13 anos, ela está isolada em casa há mais de uma semana, por recomendação médica. “Quando falei para as pessoas nas redes sociais me chamaram de irresponsável e mentirosa. Eu tenho a consciência limpa por ter avisado sobre o perigo para todos que quiserem se resguardar”, disse.

Sem poder sair de casa, devido às medidas de isolamento social adotadas pelas gestões estaduais e municipais, parentes e amigos de quem perdeu a batalha para o coronavírus têm recorrido às redes sociais para tornar menos solitária a dor. “E meu coração em pedaços! Faltam palavras! Meu Deus, que vírus maldito”, diz uma mensagem. “Nossa família está em pedaços. Gente, o caso é sério. Esta linda mulher faleceu ontem vítima de Covid-19”, alerta outra postagem. “Luto por você, amiga. Ainda estamos em choque, arrasados, sem acreditar que isso está acontecendo”, desabafa mais um perfil.

O impacto dessas mortes vai tornar o luto ainda mais complicado. Especialistas afirmam que muitos familiares vão precisar de apoio extra, pois além do fim do convívio com um ente querido, carregam incertezas e falta de informação. Eles concordam, porém, que o luto é um processo normal e precisa ser vivido para ser superado. Nenhuma perda é igual a outra, mas sim uma experiência única e puramente individual. Mas como lidar com a dor e a sensação de que histórias foram interrompidas antes do tempo e como superar a ausência no último adeus?

A coordenadora do laboratório de estudos sobre o luto da PUC-SP, Maria Helena Franco, explica que algumas pessoas podem ter mais dificuldades de elaborar estes processos, mas é preciso contar com um recurso que o ser humano tem: a capacidade de simbolizar. “Se eu não tenho no concreto, posso buscar no simbólico. Não será exatamente como aquela pessoa gostaria, mas será o possível. Se não pode participar do sepultamento, no futuro pode ir ao cemitério, ou local onde colocaram as cinzas. É importante perceber que os vínculos permanecem e podemos buscar outras formas de simbolizar aquele luto”, fala.

Maria Helena, que também é psicoterapeuta, afirma que o luto pode ser vivido com muitas caras. “Ele não precisa ter uma expressão tradicional de tristeza. Muitas vezes pode ser um silêncio, dificuldade de manter atenção, inclusive. O luto tem muitas faces”, diz. Para a especialista, as relações interpessoais podem ajudar nesse processo. “Podem contribuir pessoas que têm uma relação positiva com o enlutado, pessoas que sejam respeitosas em relação a dor do outro. Quem chega e fala 'Você tem que sair dessa' estará apenas ressaltando a dificuldade do enlutado. É preciso ter sensibilidade e empatia”, orienta.

TECNOLOGIA COMO ALIADA

Como forma de adaptar o processo de luto às restrições impostas pelo cenário atual, a solução encontrada por algumas famílias são os velórios on-line. “É um ficar junto possível. Não é do jeito que era, mas se a gente ficar apenas lamentando porque não é como antes será muito difícil viver esse luto”, comenta a psicoterapeuta. Funerárias relatam que a procura por velórios transmitidos pela internet cresceu. Como é o caso do Grupo Vila, responsável pelo cemitério e crematório Morada da Paz, em Paulista, no Grande Recife. Se em janeiro foram três cerimônias, em fevereiro subiu para cinco e em março saltou para dez.

De acordo com a psicóloga do luto do Grupo Vila, Beatriz Mendes, mesmo que alguém já tenha passado por situações de desastres, no caso de uma pandemia como a do coronavírus há complicadores que estamos aprendendo a lidar. “Devemos pensar maneiras de se despedir, descobrir como se sentir conectado a esse momento. De cara, pode ser desafiador aos familiares e amigos, pois ainda estão elaborando uma série de situações, como o processo de adoecimento e o próprio contexto de crise mundial. Mas precisamos refletir meios de sinalizar e externar o que estamos sentindo já que o ritual tradicional não está sendo possível”, afirma.

A psicóloga explica que velórios e sepultamentos são rituais que servem como elementos de constatação da morte, por isso muitas pessoas fazem questão de participar. Ela destaca que, independentemente de estar presente ou não na cerimônia, o luto vai ser vivido individualmente. “É sempre importante reforçar que se deve respeitar o espaço de cada um. Existe ainda um tabu muito grande de falar sobre isso e acho que a Covid-19 meio que escancarou um pouco a nossa vulnerabilidade, trouxe a temática da morte à tona. E nossa sociedade contemporânea não está acostumada a pensar sobre isto”, fala.

CUIDADOS PALIATIVOS

Ter a chance de se despedir da pessoa amada causa menos desconforto do que quando a partida é abrupta. Consequentemente há diferenças no processo de luto quando a morte decorre de situações inesperadas, causadas por situações trágicas, como pandemias e guerras, ou quando se trata de algo que já se espera, como em casos de doença crônica grave. Em situações emocionais intensamente desagradáveis, a ajuda de um profissional pode evitar o desenvolvimento do estresse pós-traumático, que pode dificultar ou até impedir a volta às atividades cotidianas.

Segundo o chefe do serviço de bioética clínica do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Josimário Silva, não poder velar o corpo afeta diretamente o ser humano, pois faz parte de um ritual de compreensão e aceitação da morte. “Na medida em que não se consegue ter essa relação, principalmente para nossa cultura que é mais afetiva, você traz esse processo para um luto patológico”, afirma. Ele destaca que no caso da pandemia há um processo de padecimento geral. “Quando você liga a televisão e vê as notícias se depara com o sofrimento das pessoas, e isso vai emocionalmente lhe desestruturando”, fala.

A questão de luto nessa condição de grandes perdas tem que ser muito bem trabalhado para que o indivíduo consiga futuramente reestruturar a sua vida, de acordo com Josimário Silva, que também é professor do Centro de Ciências Médicas da UFPE e coordenador da disciplina Cuidados Paliativos. “A morte não é pública nem privada, a morte é íntima. Então, a gente tem que trabalhar pontualmente cada pessoa como ela reage. E o luto é uma resposta natural à perda. É o período que a pessoa assimila o que ocorreu, entende, supera e reconstrói a vida. É um processo normal que não deve ser apressado, nem eliminado”, diz Silva.

O especialista ressalta que em grandes catástrofes o luto envolve a necessidade de enfrentar as perdas. “Quando acontecem situações como essa o sofrimento leva um bom tempo para ser processado, mas depois a sociedade volta para o seu ritmo normal”, fala, acrescentando que há um sentimento muito mais amplo, que não é só o pessoal, mas também o comunitário. “Implica na ruptura de um projeto de vida, de uma dimensão não apenas familiar, mas social e econômica. Isso leva ao chamado luto complicado, que não evolui de forma natural, se transforma numa condição patológica e geralmente leva a transtorno depressivo”, detalha.

Para o professor, a cultura ocidental não foi preparada para lidar com a perda. Por isso, a importância de ter uma área de atuação como os cuidados paliativos para tratar o tema da morte de uma forma mais natural dentro de um processo de aceitação. “Estamos muito focados na questão da cura, mas na outra ponta estamos lidando com a incapacidade da tecnologia para reverter muitos desses casos. Temos que tratar das pessoas que estão vivas também. Esse processo de luto é extremamente importante para que a gente possa ajudar as pessoas no enfrentamento”, afirma.


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