A figueira infértil

Ameaça da morte levou Francisco a tentar adubar o próprio solo e a cuidar de si

Reunião do Pacto Pela VidaReunião do Pacto Pela Vida - Foto: Renato Vieira/ Seplag

Parábola da Figueira infértil
"Um certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha, e foi procurar nela fruto, não o achando. E disse ao vinhateiro: Eis que há três anos venho procurar fruto nesta figueira, e não o acho; corta-a; por que ocupa ainda a terra inutilmente? E, respondendo ele, disse-lhe: Senhor, deixa-a a este ano, até que eu a escave e a esterque; E, se der fruto, ficará, e, se não, depois a mandarás cortar" Lucas 13:6 -9


Francisco* aprendeu desde muito cedo que não renderia bons frutos. Estava claro que ele não tinha o que era preciso para isso. Faltava-lhe inteligência, beleza, higiene, habilidade e adequação social. Essas diversas faltas, ademais, eram lembradas constantemente pelos quatro irmãos. Todos muito mais velhos e muito mais aptos ao convívio comum. Apelidos perversos encarados como brincadeiras - e as gargalhadas que sempre os seguiam - eram o meio que a família escolheu para garantir que o menino não esquecesse as próprias deficiências.

Francisco as assimilou e passou a enxergá-las - exclusivamente. Repetia-as mentalmente e tentava consertá-las. Gastava recipientes inteiros de shampoo e sabonete quando um dos irmãos o visitava. Para não ser chamado de fedorento e, claro, para não incomodar. Para ser aceito como, quem sabe, um quase igual. Não adiantava; estar no seio familiar significava ser sadicamente excluído. Era particularmente torturante a aquiescência tácita da mãe em relação à prática do bullying.

Criou amigos imaginários. Tinha facilidade para isso. Preferia pensar que havia alguém por perto que o achava aceitável. Sabia que não existiam, mas a “presença” deles o tranquilizava. Eram amigos sem defei­tos. Para els, apresentava-se co­mo ar­tista circense. Pintava-se, fantasiava o meio e a si mesmo. A imaginação foi tomando mais corpo e, todas as noites, apresentava o Jornal Nacional através de uma janela quebrada.

A convivência real era sofrível. Cada erro rendia dias de autoflagelação. Já os acertos e os elogios passavam batido. Durante a adolescência, foi escolhido vencedor de um concurso de beleza na escola, mas seguia se percebendo como indesejável. Posteriormente, foi admitido numa universidade pública, para o curso de engenharia elétrica, mas continuava se percebendo como incapaz. Namorou pela primeira vez uma pessoa que o admirava e que, por isso, era tida como mentirosa. Continuava vendo-se inútil. Ser, então, se tornou uma espécie de penitência inevitável.

E foi assim, de maneira análoga ao descrito na parábola da figueira estéril, em que uma árvore infrutífera deve ser cortada por ocupar inutilmente a terra, que Francisco sentiu necessidade de sacrificar a si mesmo em benefício da comunidade à qual nunca esteve inserido. Separou dinheiro para as contas a pagar e uma carta-testamento. Por outro lado, urgia parar de sentir-se mal. Mas, acima de tudo, queria mesmo era dormir. Muito. Porque os sonhos sempre foram encarados como um bálsamo, um momento de alívio. Tentou abrir a porta do quarto, não lembra o motivo, depois de ingerir cerca de 60 comprimidos entre relaxantes musculares, antialérgicos e ansiolíticos. O barulho do cor­po caindo ao chão chamou a atenção do irmão mais novo. Tinha 22 anos.

Após atendimento médico, Francisco dormiu por quase cinco dias. Acordou por sorte, e, talvez também por sorte, de maneira figurada. Abriu os olhos para o espelho. Percebeu que aquilo que aprendeu sobre si estava errado. “Foi como se uma casca caísse. Uma unha nascesse e não houvesse nenhuma ranhura”, descreveu. O jovem resolveu caminhar em direção oposta à família. Socializaria-se apenas com quem o valorizasse. De sua maneira, recusaria-se a morrer, e, como na parábola, adubaria o próprio solo, cuidaria do próprio caule e, porventura, produziria frutos. As agressões travestidas de diversão cessaram, a graduação tão enfadonha foi abandonada e a vida começou a ser vivida.

Francisco compreende como poucos o risco que há numa tentativa de suicídio. A ideia do suicídio, hoje, é impensável para ele. Aos 35 anos, é pessoal e profissionalmente respeitado no campo da arte visual em Pernambuco. Usou a aversão aos erros em seu favor, se tornando extremamente perfeccionista e, com o resultado de seu material, colecionando admiradores.

“Na época, foi a única alternativa que eu conseguia ver. Eu chorei durante todo o processo. Não me arrependi em nenhum momento porque não havia outra forma de ‘resolver’ o problema. Ao mesmo tempo, chorava porque entendia que aquilo poderia ter sido evitado se, por exemplo, minha mãe tivesse intervindo. Eu precisava ter sido acolhido”, relatou.

*Nome fictício

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