Opinião

A guerra Rússia/Ucrânia em Suape

Com a chamada “globalização", a navegação marítima perdeu seu charme do passado. Os navios ostentavam bandeiras de países, do Japão a Inglaterra e do resto do mundo, inclusive do Brasil, que até os anos 80 do século passado se classificava entre as três maiores marinhas mercantes do mundo! Coisas do passado...

Hoje, quase a totalidade desses navios usa bandeiras de países do Terceiro Mundo, como Libéria, Panamá e Bahamas, que por terem legislações flexíveis, sai mais barata essa atividade maritima. São os chamados navios “tramps” (que significa vagabundo no vernáculo de Shakespeare), que arregimentam suas equipagens (tripulações) nas Filipinas, África, e nos chamados países do Leste Europeu. A Rússia e Ucrânia são os maiores fornecedores dessa mão de obra especializada e barata.

Os navios que são afretados pela Transpetro, braço marítimo da Petrobras, em quase sua totalidade de cem, possuem essa gente do Leste Europeu. Hoje, em uma guerra familiar... Nesses dois últimos dias, pratiquei cerca de cinco navio petroleiros em Suape, com oficiais e marinheiros dessas origens. Alguns russos como capitães e ucranianos como imediatos! Outros navios, com capitães ucranianos e imediatos russos...

Empresas internacionais, em nome das nações ricas, fazem essas operações de equipar navios “tramps” com gente marítima oriunda desse imenso Terceiro Mundo, do qual a Rússia, Ucrânia e o Brasil fazem parte ativa. O Brasil já tem presença nesses navios, até porque nossa marinha mercante está praticamente extinta! O que me deixa constrangido e frustrado por nada poder fazer é escutar os comentários de pessoas que ignoram esses fatos, e mais ainda o fato de o Brasil perder cerca de 50 bilhões de dólares em frete marítimo, presenteados aos gringo ricos...

Num desses navios, encontrei o capitão Sergei, aparentando estar preocupado, até meio longe da manobra que eu executava. Disse, pra levantar seu astral, que essa guerra era estranha, pois os dois países têm cerca de 60% de suas populações misturadas entre si desde há muito tempo... Circunspecto, me disse que seu pai russo, casado com sua mãe ucraniana, estavam separamos por conta da guerra! Seu pai veio visitá-lo em Moscou quando a guerra eclodiu! Sua mãe ficou em Kiev, sem nenhuma comunicação disponível para contato com o marido e o filho...

Centenas de pessoas desses países amargam essa terrível e insolúvel situação, sem previsão de normalização! Ao contrário, sabem que a tendência é piorar...

Outro povo que trabalha nesse tipo de navio são oficiais venezuelanos. Alí não tem guerra, mas a dominação do governo presenteou seu povo com um salário mensal de 25 dólares para todas as categorias de trabalhadores, aliás, imitando Cuba, que já faz isso há décadas. Esse comunismo caboclo que invade a América do Sul e Central produz uma coisa interessante: um êxodo constante da população para os EUA! O prefeito de Miami, cidade sonho dos brasileiros, é um cubano...

Aqui no meu país, fico a ver navios fantasmas, com saudade da nossa frota extinta de graça...

C’est lá vie...



*Prático da barra,  advogado e consultor de direito marítimo 


- Os artigos publicados nesta seção não refletem necessariamente a opinião do jornal. Os textos para este espaço devem ser enviados para o e-mail [email protected] e passam por uma curadoria para possível publicação.

 

 

Veja também

Após início da nova etapa de triplicação, motoristas enfrentam trânsito intenso na BR-232
Recife

Após início da nova etapa de triplicação, motoristas enfrentam trânsito intenso na BR-232

Perícia usou DNA para identificar parte das vítimas da tragédia de Petrópolis
Petrópolis

Perícia usou DNA para identificar parte das vítimas da tragédia de Petrópolis