A homofobia destruiu os sonhos de Jefferson Cruz

A homofobia tirou de Jeff todos os sonhos. Impôs a realidade de uma hospitalização permanente e a impossibilidade de falar, andar ou exprimir reações.

Jefferson Cruz Jefferson Cruz  - Foto: Arthur de Souza/Folha de Pernambuco

Junho é o mês do Orgulho LGBT. Marca também os sete meses desde que Jefferson Cruz, 22, foi brutalmente agredido e encontrado pelos amigos sufocando numa poça do próprio sangue. A homofobia tirou de Jeff todos os sonhos. Impôs a realidade de uma hospitalização permanente e a impossibilidade de falar, andar ou exprimir reações.

A família tem convicção de que o crime foi motivado por homofobia e teme impunidade. “O homem que atacou ele ameaçava e xingava as pessoas que não davam cigarro ou bebida para ele”, relata Izabella Thamiris, prima da vítima. O acusado, segundo ela, estaria em liberdade e foi visto em Moreno no começo de abril. “O que revolta é isso, as amigas de Jefferson reconheceram ele. Ele disse que iria ‘pegar’ meu primo e o xingou de ‘viadinho’. E continua solto. Tem testemunha, tem filmagem e ele continua solto.” O processo em andamento no Tribunal de Justiça de Pernambuco cita “indícios suficientes de autoria” e “reconhecimento” do acusado por depoimentos de testemunhas.

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Na noite de 7 de dezembro do ano passado, data do crime, Jeff estava na praça principal de Moreno, na Região Metropolitana do Recife (RMR). Deixou o local para ir ao banheiro de um bar e demorou para retornar. Os amigos estranharam e foram em busca dele. Encontraram o jovem espancado e sem roupa. Socorrido às pressas, foi levado ao Hospital da Restauração. Um coágulo comprimia seu cérebro e causou sequelas. Após um mês de coma, mais cinco se seguiram e a família conheceu outro Jefferson. A respiração foi garantida por uma traqueostomia e a alimentação é realizada por sonda.

Atualmente internado no Hospital Tricentenário, em Olinda, o seu estado é estável, mas ele ainda não pode ter alta por precisar de cuidados profissionais diários. “Não é possível prever como será a recuperação dele futuramente, e a alta ainda não é uma opção por ele precisar dessas estruturas integradas, como fisioterapia e todo um suporte de equipamentos”, explica o clínico geral do hospital, Antônio Neto.

“O sonho dele era ser fotógrafo. Ele dizia para mim que quando trabalhasse a gente não ia ter dívida: esse era o meu filho. Eu daria tudo para ver ele falar de novo”, lamenta Etiene Cruz, mãe de Jefferson. Ela o acompanha todos os dias desde a internação e se mudou de Moreno, onde a família morava, para Olinda. “A gente tem que lutar para isso, porque ele lutou e está lutando até agora. Jefferson sofreu demais, mas eu não desanimo”.

Desde o ocorrido, familiares e amigos correm contra o tempo para conseguir custear as adaptações necessárias na casa da família e no quarto do jovem. Para isso, foi criada uma vaquinha na internet, divulgada por meio da conta no Instagram (@lutecomoele) e do Facebook com a página Lute Como Ele, que já arrecadou mais de R$ 122 mil.

O que aconteceu com Jefferson está longe de ser um caso isolado. De acordo com dados do Centro Estadual de Combate à Homofobia, programa vinculado à Secretaria Executiva de Direitos Humanos de Pernambuco, entre janeiro e abril deste ano foram registradas 60 denúncias de violações contra a população LGBT no estado. Os dados não levam em conta os outros tantos crimes nos quais a denúncia não foi efetuada ou foi registrada sem o agravante de homofobia.

Inquérito
Apesar da série de agressões sofridas por Jefferson, de acordo com o Tribunal de Justiça de Pernambuco, até o momento chegou à instituição apenas um inquérito, no qual constam crimes de estupro e roubo. Tentativa de homicídio e agressão não são mencionadas. O processo referente ao caso começou a tramitar na Vara Criminal da Comarca de Moreno no final de fevereiro. O recebimento da denúncia do Ministério Público Estadual foi efetuado no dia 22 de março.

No dia do crime, a denúncia foi realizada no Posto da Polícia do Hospital da Restauração, quando o jovem foi socorrido. O caso foi levado à Divisão de Homicídios e Proteção a Pessoa de Prazeres (DHPP), em Jaboatão dos Guararapes, também na RMR. Até o fechamento desta edição, não conseguimos entrar em contato com o delegado da Polícia Civil responsável pelo caso na ocasião. 

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