A hora de ficar offline

Quando o excesso de exposição na internet provoca tensão e ansiedade, é sinal de que é hora de pensar em dar um tempo do mundo online

Benise Lapprand está deixando aos poucos as redes sociais. Já largou o Facebook e está desistindo do WhatsAppBenise Lapprand está deixando aos poucos as redes sociais. Já largou o Facebook e está desistindo do WhatsApp - Foto: Ed Machado

O bombardeio de informações promovido pelas centenas de aplicativos, redes sociais e meios de comunicação conectados a bilhões de smartphones e computadores pelo mundo fascina os internautas, mas também pode provocar dependência, ansiedade e depressão. É sinal de que a conexão passou dos limites. Para muitos, a melhor saída é desconectar. Desplugar. Abandonar, mesmo que temporariamente, o mundo online.

Benise Lapprand, servidora pública de 56 anos, diz que vem deixando aos poucos as redes sociais. “Há uns cinco anos larguei o Facebook e estou quase desistindo do WhatsApp. No Instagram, entrei nem sei porquê”, disse. “Tenho e-mail e vou terminar ficando só com isso mesmo.” Ela conta que acabou com sua conta no Facebook porque não aguentava os compartilhamen­tos e as interações que via, muito antes de se sentir presa de vez.

“Eu vi uma amiga falando mal da outra por causa de likes”, relembra. Para ela, a rede consegue causar divergências perigosas, por causa das polaridades criadas nos feeds. “As pessoas ficam tentando doutrinar as outras em religião, em política. Você não escolhe ver, você praticamente é obrigado a ver aquilo ali se repetindo, repetindo”.

Em janeiro deste ano, o Facebook tinha 2,1 bilhões de usuários. O WhatsApp, e o Instagram, pertencentes à mesma empresa, tinham, respectivamente 1,5 bilhão e 500 milhões de perfis ativos, enquanto o Twitter tem 330 milhões de usuários ativos por mês. Esses números adquirem maior força quando são comparados com os dados da União Internacional das Telecomunicações, órgão vinculado à Organização das Nações Unidas (ONU).

Segundo a instituição, existem cerca 3,2 bilhões de internautas e 7 bilhões de assinaturas de conexão móvel em todo mundo. O site eMarketer, em pesquisa, concluiu que que 71% desses usuários no mundo todo utilizaram redes sociais no ano de 2017 pelo menos uma vez por mês. São, ao todo, 2.46 bilhões de pessoas, ou um terço da população global. Um número que só tende a crescer.

Malefícios
O problema é que os malefícios pessoais do uso dessas plataformas também vêm crescendo. Antonio Lira tem 24 anos e perfis no Facebook, Twitter, Instagram, Curious Cat, Spotify, Whatsapp e Telegram. Às vezes, desliga todos eles. “Eu desativo a rede dependendo do quanto ela está me fazendo mal”, explica ele. Jornalista e pesquisador, Antonio vai na contramão da nova programação social e da própria profissão, em que as redes na internet estão cada vez mais influentes, populares e importantes.

“O que me faz afastar é estar em contato com muita informação”, reflete Antonio. “Tenho tendência de me envolver muito com tudo, então, quando estou exposto a muita informação, gasto muita energia, me estresso muito e perco muito tempo”, afirma o jovem. “Geralmente existe algum evento que serve de gatilho. Por exemplo, um tweet de uma pessoa me deixou durante quatro horas pensando naquilo e fiquei nervoso, sem saber o que fazer, com medo. Quando percebo que isso acontece, é hora de dar um tempo. É como tirar férias necessárias.”

A dependência digital e o estresse
Para a psicóloga e psicoterapeuta, Rosemere Kiss Guba, casos como o de Antonio Lira, que passa por forte desgaste mental quando em contato com muita informação na internet, ocorre pelo uso nocivo das plataformas online. “Vários estudos demonstram que o uso excessivo delas pode promover até um estresse digital, que provoca irritação ou ansiedade”, explica.

A falta de limites provém de uma falsa sensação de obrigatoriedade de estar conectado. “Isso surge da ideia de que a pessoa tem que fazer parte do que está acontecendo, sensação que aparece cada vez com mais frequência nos últimos anos”, aponta, citando duas síndromes que vêm se desenvolvendo nos últimos anos e têm ligação direta com a conectividade online: a síndrome da insuficiência e da multidão solitária. “Elas são resultado de uma falta de intimidade e também a forma que a pessoa encontra de se sentir inserida”.

Os sintomas mais vistos da dependência da internet incluem irritação, ansiedade, depressão e destacamento da responsabilidade. Essa dependência é medida pelo nível de prejuízo à produtividade, às relações interpessoais e à saúde: a dependência reflete na má alimentação e gera até dores físicas. Também há a nomofobia, um medo excessivo de estar impossibilitado de se comunicar, que chega a ser irracional.

Segundo Rosemere, há duas coisas básicas no ponto de vista psicológico que todo ser humano necessita: pertencimento e reconhecimento. Quando isso falta, falta saúde. “Mas o importante, no final das contas, é saber onde buscar tal reconhecimento”, conlui a terapêuta, com um conselho: “Existe vida fora da internet. Nada substitui o contato.”

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