Festejos juninos

A hora e a vez dos santos juninos

Oriundos dos povos pagãos do Hemisfério Norte e tradição da igreja Católica, festejos do mês de junho reverenciam os Santos Antônio, Pedro e João.

Festas juninas, o período é de renovar a féFestas juninas, o período é de renovar a fé - Foto: Rafael Furtado

Comemorar o mês de junho é um hábito antigo em várias partes do mundo e foi trazido para o Brasil pelos colonizadores portugueses. Para além das brincadeiras e comidas típicas, como canjica, pamonha e arroz-doce, a comemoração da festa junina é uma tradição da Igreja Católica na qual são celebrados Santo Antônio, São João Batista e São Pedro. Por isto, o período é tão especial e lembrado em nosso País, pois reúne a fé com um festejo popular. Mesmo aqueles que não seguem a religião, acabam aproveitando a tradição e caprichando nos pedidos e simpatias deste período.

Contudo, antes de assumir sua forma cristã, estas comemorações tiveram origem pagã com os povos do Hemisfério Norte, onde se festejava, em junho, o solstício de verão (o dia mais longo e a noite mais curta do ano). As festas ocorriam para pedir aos deuses a fertilidade da terra e garantir boas colheitas nos meses seguintes. Com a expansão do cristianismo, elas foram ganhando novo significado e nova roupagem. Com o avanço do Cristianismo, a Igreja incorporou a tradição e, no século 6, os ritos do dia do solstício, em 21 de junho, passaram para o dia do nascimento de São João Batista, em 24 de junho. Mais tarde, no século 13, foram incluídas no calendário litúrgico as datas comemorativas de Santo Antônio (dia 13) e São Pedro (dia 29).

“Antes de a Europa se tornar cristã, os povos tinham seus deuses da floresta e faziam essas festas nas fogueiras para louvá-los. Quando os missionários católicos começaram o processo de conversão trouxeram esse hábito para os povoados com novo significado. O mesmo aconteceu quando os portugueses chegaram ao Brasil. Os índios também ficavam em torno do fogo, então os colonizadores juntaram as tradições e deu no que conhecemos como festa junina, que ao longo do tempo vai agregando uma série de coisas, como adivinhações e simpatias”, explica o historiador Severino Vicente, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Estudioso da cultura popular em Pernambuco, além de pesquisar e escrever sobre a Igreja Católica, Severino Vicente explica que no Nordeste as festas juninas são mais fortes, devido ao tempo que elas foram introduzidas na região. “O Brasil começou no Nordeste, sobretudo com as tradições trazidas pelos portugueses. Trezentos anos da história do nosso País aconteceu aqui e só depois se expandiu para o restante do território nacional. As pessoas que chegaram depois de 1800, pós-revolução industrial, já vieram com novos hábitos, devoções e tradições e se estabelecem em outras regiões”, argumenta.

Sobre as superstições que giram em torno dos santos juninos, o historiador explica que a formação da identidade de um povo acontece também a partir da incorporação e influências de outras culturas. “Temos a mania de achar que as simpatias só acontecem no Brasil, mas na Europa também existe este hábito. As superstições sempre existiram, para atender o desejo do homem em querer saber o futuro. São desejos da humanidade que até numa sociedade tecnológica como hoje persistem”, fala. Severino Vicente conta que no começo da história da Igreja Católica estas ações foram demonizadas, mas com o tempo passaram a ser vistas como algo meramente cultural. O Vigário Episcopal de Olinda, Monsenhor José Albérico Bezerra de Almeida, explica que na Bíblia não tem muitas das histórias propagadas na tradição oral brasileira, mas que nem por isso elas deixam de ter importância. “A Igreja Católica se sustenta em três pilares: a tradição, a bíblia e os ensinamento da igreja. Temos dois mil anos de história. Muita coisa não está escrita na Bíblia, mas algumas nós cremos que é verdade, pois fortalecem nossa fé. Não alimentamos e incentivamos, por exemplo, as simpatias, mas respeitamos porque faz da cultura popular.”, comenta. Para o Vigário, o importante é saber que o objetivo ao celebrar a festa de um santo é lembrar que ser santo não é privilégio de ninguém e que qualquer pessoa pode se tornar um.

HISTÓRIA DOS SANTOS
Exaltados por quem pula fogueira, espera um casamento ou pede fartura na colheita, os santos são exaustantemente requisitados para alcançar as mais diversas graças e para agradecer ao que foi recebido. Seguindo o calendário junino, Santo Antônio é o primeiro a ser celebrado e o mais popular entre os cristãos. Apesar de ter nascido em Lisboa, Portugal, ele morreu em Pádua, na Itália. Foi primeiramente religioso agostiniano e, depois, tornou-se franciscano, tendo convivido por um tempo com o próprio São Francisco de Assis.

Diante de sua grande capacidade intelectual e conhecimento teológico, Antônio foi nomeado responsável pela formação dos frades. Chamado de Santo dos Pobres, foi no Brasil que ele passou a ser procurado como casamenteiro, por haver relatos de ele ter ajudado moças pobres a conseguirem os dotes para o matrimônio, segundo o Frei Faustino dos Santos. “Isso está muito voltado ao aspecto popular. As maiores referências históricas de Santo Antônio é o dom da pregação. Inclusive, tem uma obra muito importante escrita por ele nos últimos anos de sua vida, que são os sermões mais voltados para o aspecto da bíblia”, explica o religioso.

Assim como na história, hoje em dia é possível encontrar cristãos que defendem as duas possibilidades. Criada em uma família católica e praticante, a empresária Isa Bernardes, de 33 anos, conta que desde a adolescência escuta histórias sobre as superstições do santo casamenteiro. “Lembro que desde os 15 anos eu faço algumas simpatias, desde colocar o santo de cabeça para baixo dentro de um copo de água a deixar ele na geladeira. Ainda não casei, mas tenho fé que Santo Antônio tem algo especial guardado para mim”, comenta. Entre as compradas e que ganhou de presente, ela tem mais de 10 imagens de Santo Antônio distribuídas em casa e no trabalho.

Já a aposentada Marinalva Santos de Melo, 85 anos, não gosta desse lado supersticioso atribuído ao santo. “Católicos mais tradicionais como eu não acreditam. Mas vemos no santo um protetor, um intercessor para quem podemos direcionar nossa fé”, afirma. Conhecido por ser festeiro, João Batista, primo de Jesus Cristo, é o único dos santos que tem o dia do nascimento celebrado. Foi ele quem instituiu o batismo, pela prática da purificação, por meio da imersão das pessoas na água. Por isso, uma das tradições em torno dele é a lavagem de sua imagem, que é feita por seu padrinho, pessoa que está pagando por alguma graça alcançada. O ritual acontece geralmente à meia-noite da véspera do dia 24.

Outra lenda muito comum é a de que São João adormece no dia do seu aniversário pois, se estivesse acordado, não resistiria aos festejos e desceria à Terra, podendo se queimar na fogueira. Esse é um dos motivos dos fogos de artifício, justamente para acordá-lo. Por fim, mas não menos importante, São Pedro fecha o ciclo junino. No mesmo dia que ele também é celebrado São Paulo, mas que acaba sendo esquecido por muitos.

Segundo a Bíblia, Pedro foi o primeiro a ser chamado por Jesus, com seu irmão André, para deixar o barco na praia, ir caminhar com ele, pois ele o faria pescador de homens. Pedro prontamente deixou tudo e passou a caminhar com o filho de Deus. Pedro é considerado o primeiro Papa e príncipe dos apóstolos. Conta a história que ele negou Cristo três vezes na hora da Paixão. Mas, se arrependeu e pediu para que fosse crucificado de cabeça para baixo, já que não se julgava digno de morrer igual Jesus. Na cultura popular, não existem superstições e simpatias em torno de Pedro. O mais curioso sobre o santo é que ele é considerado o guardião das chaves do Céu.

Para o estudante Leonardo Júnior, de 22 anos, apesar de São Pedro não ser um dos mais notórios na cultura popular, entre os católicos praticantes ele é tão importante quanto as demais figuras sacras. “Mesmo diante de sua vida dura, ele foi um dos apóstolos que Jesus deu a missão de continuar sua obra. Acredito que cada um tem sua importância, mas o que chamamos de secularização acabou dando um enfoque maior a Antônio e João por questões comerciais”, opina.

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