ESTADOS UNIDOS

A Igreja de Trump: Como o ex-presidente dos EUA está incorporando o cristianismo ao seu movimento

Ao terminar muitos comícios com ritual semelhante ao de uma igreja e classificar seus processos como perseguição, republicano está exigindo e recebendo novos níveis de devoção dos apoiadores

Foto: Charly Triballeau/AFP

Conhecido há muito tempo por suas performances improvisadas e voláteis no palco, Donald Trump agora tende a terminar seus comícios com uma nota solene. Uma música suave e reflexiva enche o local e a multidão fica em silêncio.

O tom do ex-presidente americano se torna reverente e sombrio, levando alguns apoiadores a abaixar a cabeça ou fechar os olhos. Outros levantam as palmas das mãos abertas no ar ou murmuram como se estivessem orando.

Nesse momento, o público de Trump é a sua congregação, e o ex-presidente é o seu pastor, enquanto ele faz um discurso final de cerca de 15 minutos que evoca uma oração evangélica no altar, a tradição emocional que conclui alguns cultos cristãos em que os participantes se apresentam para se comprometer com seu salvador.

— A grande maioria silenciosa está se levantando como nunca antes e sob nossa liderança — recita o líder republicano de um teleprompter em uma versão típica do roteiro. — Vamos orar a Deus por nossa força e por nossa liberdade. Vamos orar por Deus e vamos orar com Deus. Somos um movimento, um povo, uma família e uma nação gloriosa sob Deus.

O ritual meditativo pode parecer incongruente com o epicentro estridente do movimento conservador do país, mas o credo político de Trump é um dos exemplos mais claros de seu esforço para transformar o Partido Republicano em uma espécie de Igreja de Trump. Sua insistência em devoção e fidelidade absolutas pode ser vista em todos os níveis do partido, do Congresso ao Comitê Nacional Republicano e aos eleitores comuns.

 

A capacidade de Trump de transformar a paixão de seus partidários em piedade é fundamental para entender como ele continua sendo o líder republicano indiscutível, apesar de ter levado seu partido a repetidos fracassos políticos e de enfrentar dezenas de acusações legais em quatro processos criminais. Seu sucesso em retratar esses processos como perseguições — e alertar, sem mérito, que seus seguidores poderiam ser o próximo alvo — alimentou o entusiasmo por sua candidatura e o colocou, mais uma vez, em posição de conquistar a Casa Branca.

'Ele foi definitivamente escolhido por Deus'
Trump há muito tempo desafia a sabedoria convencional como um herói evangélico improvável, mas irrefutável. Ele se casou três vezes, foi repetidamente acusado de agressão sexual, foi condenado por fraude comercial e nunca demonstrou muito interesse nos cultos da igreja. Na semana passada, dias antes da Páscoa, ele postou em sua plataforma de mídia social um vídeo no estilo infomercial que anunciava uma Bíblia de US$ 60 (cerca de R$ 300) que vem com cópias de alguns dos documentos de fundação da nação e a letra da música de Lee Greenwood "God Bless the USA" (“Deus abençoe os Estados Unidos”)

Mas, embora Trump esteja ansioso para manter o apoio dos eleitores evangélicos e retratar sua campanha presidencial como uma batalha pela alma da nação, ele tem tido o cuidado de não falar diretamente em termos messiânicos.

— Este país tem um salvador, e não sou eu. É alguém muito mais alto do que eu — disse Trump em 2021 do púlpito da Primeira Igreja Batista em Dallas, cuja congregação ultrapassa 14 mil pessoas.

Ainda assim, ele e seus aliados se aproximaram mais da comparação com Cristo. No ano passado, a deputada republicana Marjorie Taylor Greene, uma aliada próxima de Trump, disse que tanto o ex-presidente quanto Jesus haviam sido presos por "governos radicais e corruptos". No sábado, o próprio Trump compartilhou um artigo nas mídias sociais com o título "A crucificação de Donald Trump".

Ele também é o mais recente em uma longa linha de presidentes republicanos e candidatos presidenciais que priorizaram os eleitores evangélicos. Mas muitos eleitores cristãos conservadores acreditam que Trump superou seus antecessores no que diz respeito a atendê-los, apontando especialmente para a maioria conservadora que ele instalou na Suprema Corte, que derrubou os direitos federais ao aborto.

Trump conquistou uma maioria esmagadora de eleitores evangélicos em suas duas primeiras corridas presidenciais, mas poucos — mesmo entre suas multidões em comícios — o comparam explicitamente a Jesus.

Em vez disso, é mais provável que o rebanho trumpista o descreva como uma versão moderna dos heróis do Antigo Testamento, como Ciro ou Davi, figuras moralmente imperfeitas escolhidas a dedo por Deus para liderar missões profundas com o objetivo de alcançar a justiça esperada ou resistir ao mal existencial.

— Definitivamente, ele foi escolhido por Deus — disse Marie Zere, corretora de imóveis comerciais de Long Island, Nova York, que participou da Conferência de Ação Política Conservadora em fevereiro, nos arredores de Washington, D.C. — Ele se mantém vivo, apesar de todas essas pessoas estarem vindo atrás dele, e não sei como explicar isso, a não ser pela intervenção divina.

Para alguns dos apoiadores de Trump, os ataques políticos e o perigo legal que ele enfrenta são nada menos que bíblicos.

— Eles o crucificaram pior do que Jesus — disse Andriana Howard, 67 anos, que trabalha como operadora de alimentos em um restaurante em Conway, Carolina do Sul.

Uma arma política vulnerável
O núcleo sólido e dedicado de eleitores de Trump formou uma das forças mais duradouras da política dos EUA, dando-lhe uma clara vantagem sobre o presidente Joe Biden quando se trata de inspirar apoiadores.

Quarenta e oito por cento dos eleitores das primárias republicanas estão entusiasmados com a possibilidade de Trump se tornar o candidato republicano, e 32% estão satisfeitos, mas não entusiasmados com esse resultado, de acordo com uma pesquisa recente do New York Times/Siena College. Apenas 23% dos democratas disseram que estavam entusiasmados com Biden como seu candidato, e 43% estavam satisfeitos, mas não entusiasmados.

A intensidade dos apoiadores mais comprometidos de Trump também influenciou as decisões de campanha do ex-presidente, de acordo com duas pessoas familiarizadas com as deliberações internas. A capacidade de sua equipe de contar com eleitores que votarão com pouco estímulo adicional significa que parte do dinheiro que seria gasto em operações de mobilização pode ser investido em pessoal de campanha, anúncios de televisão ou outras formas de ajudar Trump.

Mas os democratas também enxergam uma vantagem. Grande parte do apoio de Biden vem de eleitores que se opõem profundamente a Trump, e os assessores do presidente veem uma oportunidade de assustar os eleitores moderados para que apoiem o democrata, apresentando o movimento de Trump como uma criação semelhante a um culto, empenhada em restringir o direito ao aborto e minar a democracia.

Os comícios de Trump sempre foram uma espécie de cruzamento entre um show de rock e uma tenda de reavivamento. Quando Trump começou a encerrar seus comícios com os sons ambientes, muitos os relacionaram com a música tema semelhante do movimento conspiratório QAnon, mas a campanha se distanciou dessa ideia.

Steven Cheung, porta-voz de Trump, disse em um comunicado: "O presidente Trump usou o final de seus discursos para traçar um claro contraste com os últimos quatro anos da presidência desastrosa de Joe Biden e apresentar sua visão para colocar os Estados Unidos de volta nos trilhos."

Russell Moore, ex-presidente do braço de políticas públicas da Convenção Batista do Sul, disse que os comícios de Trump entraram em um "território perigoso" com as orações de abertura e de encerramento dos discursos de pregadores que descrevem Trump como enviado do céu.

— Alegar autoridade divina ou um endosso de Deus para um candidato político significa que essa pessoa não pode ser questionada ou se opor sem também se opor a Deus — disse Moore. — Isso é uma violação do mandamento de não tomar o nome do Senhor em vão.

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