Opinião

A Intentona comunista foi um triste episódio para o Brasil

“Às oito horas de relógio”, em solenidade no bairro da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, os obuseiros alinhados e postados na praça diante do monumento aos mortos na Intentona Comunista de 1935 começaram a rugir, disparando uma salva de 21 tiros em homenagem às vítimas do triste episódio. 

A tropa formada por representações do Exército, da Marinha e da Aeronáutica respondia “presente” a cada chamada do nome de um companheiro morto por outro companheiro. As vítimas não tiveram nenhuma chance de defesa por estarem adormecidas em catre de serviço.

A cerimônia foi emocionante, como de sempre. Infelizmente, o conhecimento da História sobre o fato gerador que ela representa vai se dissipando com o tempo, ficando restrito ao âmbito militar, até hoje vivamente impactado pelas consequências.

Quase noventa anos se passaram e, por isso mesmo, é preciso lembrar à sociedade brasileira os riscos que as tirânicas ideologias propagavam, para nunca mais nos envolvermos em aventuras totalitárias.  

Eram tempos sombrios, nos quais a luta pelo controle da razão e da emoção das pessoas se permitia até o assassínio de irmãos em sangue para alcançar-se o objetivo de ideologias extremadas a visar o domínio do mundo.

A vitória da Tríplice Entente contra a Tríplice Aliança na Primeira Guerra Mundial, o Tratado de Versalhes e suas imposições escorchantes aos derrotados, a tomada de poder na Rússia pelos bolcheviques e o declínio do Estado-nação criaram o ambiente no início do século passado para que a população em miséria buscasse mitos que a tirasse da servidão.

Como atores principais dessa peça totalitária emergiram as figuras de Joseph Stálin, na comunista União Soviética, Adolf Hitler na nazista Alemanha e Benito Mussolini na fascista Itália.

Foram anos de amarguras, de perseguições, de crises econômicas, de guerras fratricidas, de nova conformação da geopolítica mundial, de temor pela fugacidade da vida em ambiente atômico.

Alguns incautos creem que episódios desse tipo são águas passadas e que não há mais espaços para empreitadas semelhantes e, portanto, necessidade de preocupação com o que há de vir neste mundo do século XXI. 

Alegam placidamente que a rapidez de acesso à informação impediria a eclosão de líderes totalitários e carismáticos com perfil semelhante àqueles que empurraram o mundo para a confrontação da Segunda Guerra Mundial e posterior Guerra Fria. 

Pode ser…

Todavia, se o acesso ao conhecimento foi facilitado, tornando mais alcançável a informação, igualmente a possibilidade de espargir mentiras utilitárias também o foi. 

O bem maior a ser protegido pela democracia é a própria liberdade implícita nessa democracia. 

Lastimosamente, parece haver um cisalhamento desse sentido maior e, mesmo em sociedades maduras e transparentes, estamos a ver rompimentos continuados dessa liberdade a nome da liberdade. 

Esse totalitarismo de novos tempos não é exclusividade apenas de ditaduras, se infiltra igualmente até em mentes iluminadas de nações ditas democráticas 

Hannah Arendt, em sua prestigiada obra “Origens do totalitarismo”, descreve com maestria o processo de ascensão e conquista de poder desses regimes, e até os seus reflexos para o mundo moderno, em um trabalho ambientado em meados do século XX. 

Questionava aos pensadores de sua geração: “O que havia acontecido? Por que havia acontecido? Como pôde ter acontecido?”

Deixava, contudo, antever a sua tese ao afirmar que os movimentos totalitários usavam e abusavam das liberdades democráticas com o objetivo de suprimi-las.

Para ela, o súdito ideal de um governo totalitário não era o nazista convicto, nem o comunista convicto, nem o fascista convicto, mas aquele para quem não existia a diferença entre o fato e a ficção e entre o verdadeiro e o falso.

A filósofa alemã foi adensando suas conclusões ao longo do século passado. Nas muitas obras escritas, ela professa a inevitabilidade da sociedade armar-se de argumentos - obtidos apenas quando se é conhecedor da História - para enfrentar aventureiros à espreita de oportunidades para rompimento da instável estabilidade da democracia. 

Foi uma perspicaz vidente dos acontecimentos nos quais nos metemos neste alvorecer do novo milênio. 

Voltando à bela praça da Cidade Maravilhosa. 

A Intentona Comunista não poderá se perder no pântano das mentiras utilitárias, onde se confundem fato e ficção, verdadeiro e falso. Ela foi fato, ela foi verdadeira! Se exitosa, talvez não estivéssemos aqui para contar essa História.



*General de Divisão da Reserva


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