A missão é formar cidadãos

Na EREM Aníbal Fernandes, tarefa de educar os alunos é de todos os funcionários

Reitoria do Instituto Federal do Ceará (IFCE)Reitoria do Instituto Federal do Ceará (IFCE) - Foto: Divulgação

Na Grécia Antiga, a formação do indivíduo passava pela consciência de que cada ser humano era atravessado por quatro dimensões: logos (racionalidade), mytho (espiritualidade), pathos (afetividade) e eros (corporeidade). Todos estes aspectos eram levados em consideração quando se educava alguém. Séculos depois, os mesmos princípios norteiam uma proposta pedagógica utilizada nas Escolas de Referência do Ensino Médio da rede estadual de ensino: na educação interdimensional, o desenvolvimento subjetivo é tão importante quanto o cognitivo.

Concebida pelo pedagogo mineiro Antônio Carlos Gomes da Costa, trata-se de uma linha de pensamento e ação pedagógicos ancorada em três premissas: a educação para valores; a pedagogia da presença; e o protagonismo juvenil. Figura-chave no ensino infanto-juvenil no Brasil, Gomes da Costa foi um dos redatores do Estatuto da Criança e do Adolescente, que virou lei em 1990. Ele faleceu em 2011, porém o arcabouço teórico que criou é colocado em prática diariamente em Pernambuco. “É uma concepção filosófica que está no DNA da Educação Integral nas escolas do Estado e que dá sentido ao trabalho dessas instituições. Uma escola pode até ser em tempo integral, mas sem a proposta embasada em sua essência, não há uma educação integral”, explica a superintendente pedagógica de Educação Integral e Profissionalizante da Secretaria de Educação de Pernambuco, Maria Medeiros.

A interdimensionalidade permeia todas as ações práticas e vivências em cada uma das 300 escolas de referência no ensino médio e também nas 35 escolas profissionalizantes – quantitativo que faz de Pernambuco o estado que mais investe em Educação Integral no país. “É vivida por todos, da equipe gestora aos estudantes, passando pelos funcionários e pais. É uma proposta que está no cotidiano da escola, partindo da concepção do homem grego para atuar na ordem do humano. O aluno não é apenas formado para ter bons resultados pedagógicos, e sim para ser um cidadão”, ratifica Maria Medeiros, que durante anos atuou como professora da rede estadual.

São os valores expressos na primeira premissa que, ao ser trabalhados não apenas na sala de aula, mas no cotidiano escolar, possibilitam que a formação seja ampla. “Estamos formando jovens para a vida, não apenas para o ENEM, por exemplo. E essa formação se faz com a participação de todos. Na escola, do servente ao gestor, todo mundo é educador. Nos três anos de duração do ensino médio, todos educam ao dedicar tempo e dedicação para servir de exemplo para os estudantes”, corrobora a superintendente pedagógica.

Ela se refere ao aspecto da pedagogia da presença, que é bastante notório quando se adentra, por exemplo, a Escola de Referência do Ensino Médio Aníbal Fernandes, localizada em Santo Amaro, no Recife. Lá, a responsabilidade de educar os 208 alunos é tanto do gestor Josemar Gomes de Morais, como da coordenadora pedagógica Andrea Moura, do professor Francis Brito ou do auxiliar de limpeza Altino Alves da Silva. “Todos são ativos no processo de ensino e aprendizagem. É o ‘fazer junto’, não o ‘fazer para’”, comenta o gestor. “Sempre conversamos com os estudantes para eles cuidarem desse ambiente. Para os que querem pichar o banheiro, por exemplo, eu digo que tudo aqui é fruto do dinheiro dos pais deles, através dos impostos”, comenta Altino.

E aí que entra também o protagonismo juvenil. Os jovens são instados a entender o processo educativo como algo que extrapola os limites da classe e assim dele participar ativamente. “O interesse deles aumenta. Eles ficam mais à vontade para querer fazer uma aula de robótica, porque têm uma visão do futuro”, aponta Francis, professor de Física, Matemática e Robótica. “Os estudantes passam a compreender que são autores da sua própria história. Com foco e um projeto de vida, aprendem a conviver com harmonia e a se preparar para fazer suas melhores escolhas”, diz Andrea Moura.

FOLHA RESUME
Educação interdimensional é uma proposta de pedagogia utilizada nas Escolas de Referência em Tempo Integral (EREM) da rede estadual de ensino e está baseada em três pilares: a educação para valores; a pedagogia da presença; e o protagonismo juvenil. Ela foi criada pelo pedagogo mineiro Antônio Carlos Gomes da Costa e necessita do envolvimento de todos –funcionários, alunos e pais – para que as escolas formem não apenas estudantes com boas notas, mas cidadãos.

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