A tal da “feira fitness” II

Dietas restritivas podem causar prejuízos à saúde

Grãos são fontes naturais de nutrientes e fibrasGrãos são fontes naturais de nutrientes e fibras - Foto: Divulgação

Resolvemos revisitar hoje o tema trazido há quinze dias, inspirado na fala de uma amiga: “me tornei quem mais temia: feira fitness.” Para compensar os exageros da onda “fitness”, que para alguns estabelece expectativa de uma magreza impossível, o pessoal da Nutrição Comportamental (leia-se, um time de pesquisadores sérios, que começou a tratar pacientes no Ambulatório de Bulimia da Universidade de São Paulo) vem alertando a população e os profissionais para os perigos do uso das dietas restritivas.

Segundo eles, se praticadas com frequência, ocasionam um maior risco para o surgimento de transtornos alimentares. Na lógica desta conscientização, incentivam-nos a adotar o “Mindful Eating” (comer com atenção plena) e o comer intuitivo, simbolizado na frase: “Se eu sinto fome, eu nunca estou errada”.

Atentemos à escolha e ao uso dos itens não tradicionais, constituintes das possíveis listas das “feiras fitness”. Se estes alimentos ou ingredientes tiverem sido prescritos por nutricionistas com base num diagnóstico de necessidades, certamente as quantidades e a frequência de uso foram pré-estabelecidas, o que já norteia o abastecimento e o armazenamento por um período mais seguro, do ponto de vista da perecibilidade.

Outro critério é a adoção de um número limitado desses itens, para tornar racional a sua utilização em preparações culinárias que possibilitem melhor aceitação, como também na manutenção das propriedades nutricionais alegadas em sua prescrição.

É mais seguro obter sementes, grãos, castanhas, cacau e congêneres nas embalagens fechadas. A compra a granel é inadequada; a exposição dos produtos ao ar e à luz solar promove oxidação, resultando na diminuição da efetividade dos nutrientes. Outro inconveniente é o manuseio sem as devidas medidas de proteção (luvas descartáveis, p. ex.), potencializando os riscos de contaminação. A venda de tais alimentos a granel, dispostos em sacas ou contêineres, atrai insetos e roedores, o que requer cuidado extra, por parte dos consumidores.

Há diferenças nos benefícios nutricionais de um mesmo produto, a depender da forma como se apresente - sementes inteiras, farinhas ou farelos, ou como óleo concentrado. É o caso da linhaça, por exemplo. E quando se optar por consumi-la triturada, é melhor fazer o processamento em casa mesmo, em pequenas porções, e guardar em pote de vidro (escuro, de preferência), ao abrigo da luz.

Gengibre e cúrcuma, na forma de raiz, devem ser obtidos frescos, ter removida a terra residual, e guardados em recipiente plástico, em lugar arejado ou na geladeira. Quando desidratados e em forma de pós, armazenados em frascos tampados, ao abrigo da luz, do calor e da umidade.

Para os suplementos alimentares, cuja indicação deve ser criteriosa, é inadequado comprar muitas unidades, sobretudo quando for utilizá-los pela primeira vez. Alguns suplementos e “shakes” substitutos de refeições possuem conteúdo de fibras elevado para induzir saciedade, resultando em transtornos digestivos, como empachamento.

Para todos, ler os rótulos é fundamental, como o é, para outros alimentos processados e medicamentos. Os cuidados na manipulação dos suplementos em pó, que requerem a diluição em água ou outros líquidos são imprescindíveis, tanto na questão higiênica, como para a correta reconstituição do seu conteúdo nutritivo.

Quatro medidas de precaução se tornam valiosas, para a adesão ao uso de produtos com apelo “fitness” e outras alegações funcionais: a) usar mediante prescrição técnica; b) testar a aceitação antes de comprar; c) não ceder ao impulso de consumo por influência do marketing comercial ou de leigos; d) não abrir mão da comida de verdade, traduzida por alimentos in natura e minimamente processados como base da alimentação adequada e saudável.

*É nutricionista e atua no Tribunal de Justiça de Pernambuco no Núcleo do Programa Saúde Legal