A vida depois da cheia

Reportagem vai a Rio Formoso, na Mata Sul do Estado, conversar com pessoas que perderam tudo quando a água em enxurrada arrasou casas e traz a narrativa da calamidade pública que se reverte em lições de resiliência e doação

Cleber de Souza, com sua família no Abrigo da Escola Pedro AlbuquerqueCleber de Souza, com sua família no Abrigo da Escola Pedro Albuquerque - Foto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

RIO FORMOSO (PE) - A água chegou de repente, com força, no último fim de semana de maio de 2017 e pegou todo mundo desprevenido. Não deu tempo nem de subir os móveis, como está acostumado quem mora por aqui, entre mangue e rio, na Zona da Mata Sul de Pernambuco - gente que sabe o que fazer com “a água na canela”, mas se assustou com a “água pelo pescoço”. Passava das quatro da tarde da última quinta (1) quando chegamos a Rio Formoso para ouvir histórias de quem passou pela maior cheia dos últimos tempos no município, que afetou diretamente cerca de 10 mil pessoas.

Com a cidade ainda enlameada, a rotina tenta reexistir. A vida vai seguindo da água que baixou, movida a donativos. A prefeita Isabel Hacker me conta que as primeiras doações que chegaram aos desalojados e desabrigados vieram de moradores que também estavam enfrentando o problema, mas ainda tinham o que dividir. Não para de chegar ajuda e essas pessoas precisam de tudo. Muitas saíram de casa somente com a roupa do corpo, totalmente encharcadas.

A primeira parada é no hospital de campanha do exército brasileiro que estava sendo montado, rapidamente, num campo de várzea às margens da PE 60. Uma estrutura surpreendente, climatizada, erguida para substituir o Hospital e Maternidade Maria José Monteiro, unidade local, que se acabou debaixo d’água - um prejuízo de cerca de R$ 300 mil, entre medicamentos recentemente comprados e o material da reforma que estava em curso. Com a disciplina militar, o hospital de campanha ficou pronto para funcionar às 7h30 do dia seguinte.

Leia também:
Hospital de campanha começa atendimentos em Rio Formoso

Pouco antes das 19h, na escola estadual Joaquim Silvério Pimentel, onde funciona uma central de monitoramento e a recepção e distribuição de donativos, reencontro Isabel Hacker. Em seu primeiro mandato como prefeita, ela anda de um lado para outro, dando orientações, resolvendo problemas. Parece cansada, mas está na agitação de quem, como ela diz, precisa se responsabilizar por uma população de 25 mil pessoas. Conta que quando viu a que nível a água ia subindo, entrou em choque, bebeu três copos de café e precisou arregaçar as mangas. Desde então, está trabalhando sem parar. Foi ela, pessoalmente, quem ligou para a Coordenadoria de Defesa Civil de Pernambuco (Codecipe) para avisar que as coisas não iam bem naquela chuva toda.

A reportagem
A ideia da reportagem é dormir no abrigo da escola Pedro Albuquerque, o maior instalado na cidade, com 330 desabrigados. Entramos procurando a responsável pelo espaço e a surpresa é um lugar organizado e funcionando, comida sendo feita, crianças brincando no pátio com voluntários. O cheiro úmido não nega a situação nem o número de pessoas abrigadas, mas há ordem e divisão de tarefas. A diretora diz que já estiveram ali mais de 500 moradores, mas alguns foram voltando pra casa à medida que a água baixava. Quem ficou perdeu tudo. São famílias inteiras vivendo em salas de aula, dormindo em colchões. Além da cozinha, há um posto de saúde para atendimentos básicos e uma sala de separação de roupas doadas.

Perto das 20h, decidimos andar pela cidade. A guarda municipal nos acompanhou pacientemente e relatando o que aconteceu no fim de semana anterior. Vamos parar em uma área onde se encontram as ruas da Lama e do Matadouro, um dos pontos mais críticos da enchente, onde a água chegou com força, levando tudo. O calçamento foi arrancado, a água entrou no posto de saúde e nas casas - os moradores contam que vinha com força, fazendo correnteza, redemoinhos.

Debaixo de um poste, vemos um homem embalando um bebê e puxamos assunto. José Cássio, 26 anos, que trabalha com Turismo na região, nos convida para entrar e mostra a marca na parede da sala. Perdeu o sofá, o rack e o aparelho de som. Casado e pai de duas meninas, Letícia e Larissa, há sete dias ele não consegue trabalhar, há sete dias não coloca dinheiro em casa, mas diz que, “graças a Deus”, as doações têm chegado. “A gente foi dormir e não acreditava que ia subir assim. Quando o pessoal avisou, a geladeira já estava boiando, o sofá já não prestava mais. Deus é fiel na nossa vida, imagine se não tivesse pessoas de bom coração”, pondera. No primeiro andar da casa, conhecemos Letícia, uma menininha linda de cabelos cacheados e três anos de idade. Pergunto se ela viu a água e ela corre pra janela e aponta pra fora. Quando me despeço dela, Letícia grita de dentro do quarto, orientada pelo pai: “tchau, Deus abençoe!”.

Em frente à casa de Cássio mora a irmã dele, Maria Naércia, com o marido e dois filhos, Vitória e Vinícius. A casa está vazia, com as paredes ainda molhadas e o sofá suspenso, amarrado por corda nas vigas de madeira do telhado. “Subiu muito rápido, não consegui salvar nada”, conta. Foram duas geladeiras, o freezer novo, a máquina de lavar, que ficou presa no mangue atrás da casa. Os móveis das crianças, que Naércia ainda vai pagar a primeira das cinco parcelas de R$ 350, a água levou. Os brinquedos também foram carregados pela enxurrada. Vitória aparece na sala agarrada a um urso. "Esse aí a gente resgatou boiando, porque estava no plástico. Eu fui buscar doações de brinquedos, trouxe os sacos pra cá sem nem ver o que tinha dentro e joguei aqui no meio da sala. Eles ficaram doidinhos", conta a mãe.

21h15, subindo a rua da Lama
“Gritai, porque o Senhor vos tem dado esta cidade” é a frase escrita num banner no quarto de Cícera da Silva, 46 anos, autônoma, que pode parecer uma piada de mau gosto, mas para ela tem todo sentido. Ali falta o básico porque falta perspectiva de como as coisas se resolverão. Pergunto se ela culpa alguém pela situação e ela responde que foi Ele, Deus, "quem quis".

Mesmo resignada aos encaminhamentos divinos, Cícera está preocupada, não tem renda, e como a chuva levou as mercadorias do comércio, ela diz que não sabe como será. "Preciso de R$ 25 para comprar pomada para frieira e não tenho", desabafa. As histórias se repetem, aqui também a água levou tudo. Ela nos mostra a casa, um colchão usado que ganhou de uma amiga, os móveis que desfolharam por causa da água e os alimentos que se perderam. "Quer um cafezinho? É só esquentar", ela oferece pela terceira vez.

Animada com o papo, Cícera quer apresentar uma amiga, na mesma rua, que “quase morre na água”. Saímos rua da Lama acima e vejo uma senhora cabisbaixa no terraço de casa. Dona Josefa está ali há apenas dois meses e perdeu quase tudo. “Eu morava num assentamento e vim para uma bomba chiando”, lamenta, dizendo que foi resgatada numa canoa. “Tem que dar graça a Deus pela vida, porque foi o que sobrou, de fato”. Lá dentro, a mesma coisa: paredes molhadas, cheiro de mofo, móveis perdidos e uma televisão ligada na novela.

Seguimos todos até a casa de Nívea Maria, que é "Binha" desde que nasceu. Tem 41 anos, já foi catadora de caranguejo e hoje “só cuida da casa”. “Eu catava 'mais ela' e a gente ia vender na praia”, diz, apontando para Cícera. A televisão "atrepada" assim que a água ameaçou foi das poucas coisas que sobraram. Quando entro na casa, ainda fria de molhada, é o governador Paulo Câmara quem fala sem ser notado na TV: “Pernambuco está de pé”.

“Meu relato é que eu quase morro. Saí com a água no pescoço, pela janela, porque a porta emperrou”, diz Binha, rindo, porque "já chorou o que tinha pra chorar". Fofo de água, o guarda-roupa foi arrastado com tudo que estava dentro; os vizinhos que seguraram Binha pra correnteza não levar. "As canoas subiam por aqui e quando chegavam ali, faziam um redemoinho. Saímos na canoa eu e Paloma, a cachorra. A água entrava por aqui, saía por ali e os móveis dançavam por dentro de casa".

23h - o abrigo
Colchões estão espalhados por uma das salas de aula feitas em quarto-casa. Os homens da Guarda Municipal de Rio Formoso, nossos guias pela cidade, também se preocuparam em encontrar um lugar seguro no abrigo para nos "hospedar". Ficamos na sala 3 com três famílias, mas ali já passaram seis - que foram, pouco a pouco, voltando para casa. Sentamos num canto do quarto, aguardando a chegada de dois colchões, a centímetros de um homem de meia idade que dorme tranquilamente. O ambiente está escuro, tem apenas a luz da televisão ligada no último noticiário do dia.

A recepção naquele local é tão calorosa que nos deixa surpresos. Por que, convenhamos, não espera-se que alguém que perdeu tudo do pouco que tinha, e esteja insone noite adentro, seja tão solícito com dois recém chegados. Mas Cleber de Souza, 39, “líder” do quarto onde passamos a noite, é assim. Traz os dois colchões para o centro da sala-casa, oferece cobertas e quer ter certeza se estamos bem acomodados. Peço que ele não se preocupe conosco, que vá descansar, e ele rebate, sussurrando: “não vou dormir, preciso vigiar minha família”.

Na manhã seguinte, pedimos a ele para conversar. Cleber conta que é mecânico e "pregador da Palavra", que já esteve envolvido com drogas pesadas e que Jesus o salvou. Ele também perdeu tudo e passou aquela noite pensando em que destino dará aos sete filhos à esposa e a uma sobrinha dela, mãe de três crianças (uma na barriga). "Talvez a gente volte pro Recife", reflete. No meio da conversa, Agnes, a filha de 4 anos, pede colo ao pai. Lá fora, o céu fechado ameaça a chuva, que se cumpre. Ao ver a água caindo, a menina começa a chorar. Pelo que ouvi de uma psicóloga no local, Agnes deve estar com stress pós-traumático: foi a última a ser resgatada quando a água já cobria boa parte da casa. Várias pessoas estão ou ficarão na mesma situação e devem ser acompanhadas pelo sistema de saúde local.

Voltando à madrugada, ela é longa, se arrasta sem fim na insônia e no "ar viciado" daquela sala-casa. Acende-se a luz do cômodo sem maiores cerimônias, uma criança chora até a mãe amamenta-la, mas ninguém se mexe, dormem. Portas se abrem a todo tempo, ouve-se descarga, vômito e vozes. Rafael Furtado, fotógrafo, passa parte da noite fazendo registros silenciosos, aproveitando a luz da televisão ainda ligada. São 2h da manhã e sem poder escrever no escuro, eu penso em Cícera, em Letícia, na água correndo em correnteza forte e fazendo redemoinhos pelo meio da rua da Lama. 

A convivência humana ganha nuances peculiares numa situação como esta, em que a calamidade pública e a pessoal precisam também coexistir. Existe o desamparo da devastação e o alento das doações. Existe uma generosidade inominável, mas quase palpável, quando entramos em uma casa devastada e recebemos ofertas, café, água, cuscuz, bolacha ou meia hora de atenção. Algumas dessas pessoas nem entendem quem somos, o que pretendemos com tanta conversa, mas dão uma importância enorme àquele momento de desabafo e nos fazem sentir abraçados. Uma doação digna dos grandes.

Durante as exatas 22 horas que ficamos em Rio Formoso, sabendo das obras atrasadas das barragens que poderiam ter evitado uma tragédia desse porte, e vendo a montanha de doações que vestem e alimentam aquelas pessoas, penso a todo tempo em uma frase do escritor Nelson Rodrigues: “no Brasil quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte. O Otto Lara está certo: ‘o mineiro só é solidário no câncer’”. O mineiro somos todos nós.

Veja também

Seleção brasileira de rugby lança websérie com equipe feminina
Rugby

Seleção brasileira de rugby lança websérie com equipe feminina

"Tomem a vacina que a esperança não deixa de acabar", disse a primeira vacinada em Pernambuco
Coronavírus

"Tomem a vacina que a esperança não deixa de acabar", disse a primeira vacinada em Pernambuco