Acesso tem obstáculos e travas

A burocracia não está apenas em conseguir se inscrever nos serviços. Conseguir fazer exames e obter laudos são problemas

Marina Luciene já ouviu e viu muitas coisas durante os anos que busca ajuda. Para ela,  o preconceito faz muita gente desistirMarina Luciene já ouviu e viu muitas coisas durante os anos que busca ajuda. Para ela, o preconceito faz muita gente desistir - Foto: Brenda alcântara

Preconceito e incompreensão. Essas são as duas palavras que para a estudante Marina Luciene da Silva, 31, descrevem o trato de alguns profissionais envolvidos no acolhimento de tratamento dos obesos. Faz quase 10 anos que ela busca ajuda sem sucesso. “Muitos nutricionistas acham que estamos nessa luta porque queremos.

Ninguém quer ser obeso. A bariátrica representa para mim uma chance de viver e viver melhor”, reclamou. No caminho em busca da operação pensou em desistir com o desestímulo de profissionais. “Estava com uns 150 quilos e fui para uma reunião de inscrição no HUOC. Falaram muitas coisas e eu me senti mal. Na época, eu era mais jovem e esta pessoa disse que eu criasse vergonha e emagrecesse sem cirurgia porque haviam outras pessoas bem maiores. Não era de vergonha que eu estava precisando, e sim ajuda médica”, relembrou.

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O preconceito não para por ai e incluiu até mesmo a comunidade de forma geral. “Já ouvi tantos comentários negativos. Muitas pessoas acham que a gente procura a operação por ser ‘mais fácil’. Mas onde já se viu, ser cortado ser considerado mais fácil?”

Desde 2014, Marina retomou a jornada em busca da bariátrica no Imip. O passo a passo para a autorização é longo e complicado para quem depende do SUS. Pelos critérios federais, as bariátricas dependem de avaliações da equipe médica, que incluem dieta e recomendações clínicas para redução do peso sem a intervenção cirúrgica, assim como exames preparatórios e orientações nutricional e psicológica.

A estudante até hoje, três anos após a entrada no serviço, só conseguiu o laudo cardiológico, que a priori já estaria vencido. “Meu laudo da cardiologista é de 2014 e até agora estou lutando para conseguir o laudo da psicológica e nutricionista. Isso é o retrato do descaso”, lamentou. Só com esses laudos é que ela pode entrar na fila da cirurgia. Ela contou que tem gente esperando há pelo menos três anos no Imip, mesmo com tudo pronto. A demora também se repete no HC e HUOC onde a espera média também é de três anos. No primeiro, há 210 pacientes no ambulatório especializado, sendo destes 60 na lista de prontos para operar e 150 em fase de exames. No HUOC, são mais de 100 na fila de operação e cerca de 110 em exames. No Hospital Agamenon Magalhães (HAM), a gestão aponta uma demora de oito para a cirurgia. A unidade tem cerca de 90 pacientes inseridos no programa de cirurgia bariátrica e sete estão em fase final para realização do procedimento. Para dar celeridade a esta fila os dois maiores serviços fecharam as portas. O HC interrompeu a marcação de primeira consulta ambulatório e o HUOC também só abrirá novas vagas ano que vem. No HAM e Imip novos ainda são aceitos.

A crise financeira dos últimos dois anos e o subfinanciamento da saúde também alimentam este cenário da cirurgia bariátrica, segundo os gestores hospitalares. Um dos pontos é a não remuneração das cirurgias por vídeo. Apesar do MS, ter incluído o procedimento este ano ainda não foi regulamentado. Além disso, prejuízo acumulado no passado pelos hospitais se tornou um rombo. “O sistema público não nos remunerar apesar de operarmos por videolaparoscopia também. Só liberam, a cirurgia por corte, que é a aberta.. O hospital faz e assume o prejuízo. Acabamos fazendo os dois tipos e caímos naquele dilema do SUS: ter que escolher uma corte na barriga ou só os furinho”, comentou o chefe da cirurgia bariátrica do HUOC, Pedro Albuquerque. O chefe do setor no HC e presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica em PE, Flávio Kreimer, avalia que por esse e outros motivos que a bariátrica não tem avançado no SUS de forma constantes. “A demanda é enorme.

Nenhum país consegue operar mais de 5 % dos candidatos à cirurgia bariátrica. No Brasil, temos filas enormes para realização de cirurgias de retirada da vesícula, correção de hérnias, pacientes oncológicos, candidatos a transplante, etc. E temos no SUS o maior sistema de saúde pública do mundo e a existência de listas de esperas acabam ocorrendo.”

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