Afastamento de profissionais por Covid-19 desfalca atendimento em Pernambuco

Segundo boletim epidemiológico, cerca de 35% do total de casos são de pessoas que atuam na linha de frente. Secretário André Longo diz que já contratou 5 mil trabalhadores para reforçar a rede pública.

Acesso a atendimento é essencial no combate ao novo coronavírusAcesso a atendimento é essencial no combate ao novo coronavírus - Foto: Fassbender/AFP

Um aspecto fundamental no combate à pandemia da Covid-19 é o acesso ao sistema de saúde. Nesse sentido, um dos principais alertas diz respeito à ocupação dos leitos de UTI, que passa dos 90% num momento em que os aumentos nos números de casos e mortes batem recordes quase todo dia. E a velocidade com que o vírus se propaga também afeta quem atua na linha de frente. De acordo com o último boletim epidemiológico divulgado pelo poder público, desde a chegada do novo coronavírus, em março, 1.259 profissionais de saúde foram infectados, o que corresponde a 35% do total de notificações confirmadas.

Mais do que expõe o avanço da disseminação da doença, o cenário preocupa porque provoca o afastamento desses profissionais, desfalcando o atendimento à população. São médicos, enfermeiros e técnicos que precisam parar o serviço para se isolarem enquanto seguem tratamento. Na corrida contra o tempo para abrir novas vagas nas UTIs e enfermarias, as secretarias de saúde do Estado e dos municípios realizam processos de seleção simplificada para, pelo menos, garantir a assistência básica nas unidades. A situação também atinge, ainda que em menor escala, a rede privada.

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O alto grau de contaminação na área clínica já interfere no quadro de funcionários ativos dos hospitais. O secretário-geral do Sindicato dos Médicos de Pernambuco (Simepe), Tadeu Calheiros, afirma que o desfalque nas equipes chega a resultar na falta de profissionais nos plantões. Para recompor as escalas, ele defende que todos os aprovados nos últimos concursos sejam convocados. “Imagine o que é ter os plantões extremamente sobrecarregados. Quanto mais cansado [o profissional], mais fácil é o risco de você se contaminar. Você dá um plantão de 12 horas e tem acontecido rotineiramente que não haja rendição, porque quem ia lhe render está afastado e não tem quem substitua”, diz.

Calheiros relata ainda que, apesar de se ter avançado no fornecimento de equipamentos de proteção individual (EPIs), a qualidade do material aumenta os riscos de contaminação. “Houve uma melhora no abastecimento, mas é preciso prestar atenção aos EPIs, principalmente os aventais, que têm uma gramatura mais fina”, critica.

Já a presidente do Sindicato dos Enfermeiros do Estado de Pernambuco (Seepe), Ludmila Outtes, conta que o número de queixas ao órgão aumentou desde o começo da pandemia. A maior parte delas se refere aos EPIs. “Temos recebido 15 vezes mais denúncias, e sempre as mesmas: falta de máscaras e capotes e dificuldade de isolamento. Pacientes com suspeita de Covid dividindo o ambiente com outros que não tinham. E aí o isolamento respiratório não é eficaz”, comenta.

Em uma das coletivas de imprensa realizadas pelo Governo do Estado, o secretário de Saúde, André Longo, disse que se preocupa com o número de afastamentos na rede pública. “Tanto para reposição quanto para ampliação, usamos um cálculo de 20% da força de trabalho. Tínhamos 25 mil profissionais e chamamos, tanto por seleção quanto por concurso, 5 mil”, informou.

Sobre o fornecimento dos EPIs, o gestor afirmou que tem feito aquisições diariamente e que a rede estadual consome, em médias, 80 mil máscaras cirúrgicas por dia. “São quase 2 milhões por mês. É um conjunto logístico muito que precisa funcionar. Adquirimos mais 1 bilhão de máscaras cirúrgicas”, ressaltou. Ele também informou que tem observado a espessura dos aventais. “Tem muita oferta de capote com baixa qualidade. Estamos tendo que fazer um rigoroso controle de qualidade para aquisição disso”, defendeu.

O desafio de manter o quadro também vale para os hospitais particulares. Na semana passada, o Sindicato dos Hospitais, Clínicas, Casas de Saúde e Laboratórios de Pesquisas e Análises Clínicas de Pernambuco (Sindhospe) anunciou que atuará como facilitador na contratação de profissionais, intermediando a comunicação entre os candidatos e as empresas. O presidente do Sindhospe, George Trigueiro, havia alertado para a falta de trabalhadores. “Isso vai trazer problemas porque a maioria [dos afastados] estava trabalhando em UTIs”, afirmou.

"Tem que seguir todos os cuidados", diz médica afastada
Ao sentir os primeiros sintomas de gripe, no fim de março, a pediatra Amarilis Taquechel Varona, 58, começou a tomar medicação, mas não parou de trabalhar de imediato. Cubana que mora há 26 anos no Recife, a médica se divide entre o consultório particular, duas unidades de rede privada na Capital e em Olinda e o Hospital João Murilo de Oliveira, em Vitória de Santo Antão, na Zona da Mata. Este último local era o único que até então tinha colegas contaminados pelo coronavírus. “Acho que foi lá [que me contaminei], mas não posso dizer. Eu me desloco muito, já que moro em Boa Viagem”, afirma.

Mesmo mantendo na rotina todos os cuidados, que incluíam o uso de EPIs e higienização dos objetos pessoais, no dia 26 de março, vieram os primeiros sinais. A profissional, que costumava caminhar na praia de manhã, começou a sentir cansaço durante o exercício. Ao voltar, teve dor de garganta e tosse seca.

“Como na semana anterior tive dores abdominais com diarreia, fiquei de alerta. Comecei a tomar azitromicina para ver como ia. Eu comentava [que estava doente] e, como eu tinha tomado vacina contra a gripe, achavam que era só uma reação”, lembra. Ela ainda trabalhou dois dias e, em 31 de março, foi atendida no hospital de Vitória e voltou para casa.

Na quarentena, como os sintomas se agravavam, Amarilis procurou a emergência de outra unidade, em Boa Viagem, para fazer o teste, que deu positivo para Covid-19. A partir de então, ficou se tratando em casa. Recuperada da doença, a médica voltará ao trabalho no próximo fim de semana. “Você sempre pensa que não é [com você]”, diz. Aos colegas de profissão, ela alerta que não se pode descuidar. “Sintoma respiratório é coronavírus até se provar o contrário”, ressalta.

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