Ambulatório para pacientes LBT faz a diferença no Hospital da Mulher do Recife

HMR possui consultório exclusivo com profissionais habilitados para atender lésbicas, bissexuais e transexuais

O médico Cleytoon DavydO médico Cleytoon Davyd - Foto: Brenda Alcântara

Quem passa pelo corredor de consultórios do Hospital da Mulher do Recife (HMR) não imagina que ali funciona o único ambulatório na Capital, semelhante aos demais, voltado especificamente para o público LBT - de lésbicas, bissexuais e transexuais transgenitalizadas (aquelas que passaram por cirurgia de redesignação de gênero). Nenhuma bandeira, nenhuma placa, nada que o separe dos outros: quem entra no Consultório 1 é uma paciente como todas as outras.

Os profissionais dedicados ao segmento também não são exclusivos: eles atendem a todas. A grande diferença é que são preparados para ouvir e acolher as mulheres que os procuram de uma forma respeitosa e sem distinção, que nem sempre é encontrada em todos os lugares. Mas não fazer diferença entre mulheres LBT e as demais pessoas é um ponto delicado a se chegar, já que, considerando a discriminação e o preconceito sofrido socialmente pelas pessoas LGBT, o atendimento deve levar em conta possíveis traumas e violências já vividos pela paciente.

O Disque 100, linha para denúncias do Ministério dos Direitos Humanos, exemplifica como não é incomum esse tipo de sofrimento: de janeiro a junho de 2017 foram registradas 725 queixas de violência contra LGBTs no País, 33 delas em Pernambuco. No ano anterior, o total foi de 1.876 denúncias - 56 no Estado. A maior parte por violência psicológica, física e discriminação, nesta ordem.

Assim como a violência, a privação de informações também não é rara: por muitas vezes não ter atenção ou aceitação suficiente, a parcela LBT deixa de receber ou procurar informações mais acertadas. “Muitas mulheres, de mais de 40 anos (de idade), nunca fizeram um exame preventivo ou uma mamografia, porque acham que mulheres lésbicas ou bissexuais não vão pegar qualquer tipo de doença”, conta Lea Almeida, assistente social do ambulatório. Além disso, a proteção na hora do sexo continua sendo precária e sem muitos artifícios realmente eficazes para evitar o contágio de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs).

Parceria
Por causa desse quadro de falta de cuidado e de problemas sociais, o ambulatório dá suporte às pacientes em três áreas principais: serviço social e atendimentos médico e psicológico. Os profissionais atendem em parceria as pacientes buscando incluir, se necessário, a saúde mental junto aos cuidados físicos. “A gente sabe que o preconceito está aí e é muito grande. Às vezes, devido à forma como chega em um posto de saúde, ou como está vestida, como as pessoas olham, ela vai e não volta mais. Ela se sente rejeitada e excluída”, aponta Anita Ducastel, psicóloga que atende no ambulatório LBT.

“Aqui a gente pode ser quem a gente é sem problemas”, conta Alzenide Simões, 52 anos. “A sociedade, incluindo o Recife, rejeita a população que é diferente”, diz ela, que não vê problemas em afirmar a própria sexualidade nem de apontar os problemas que testemunha. “O público LBT é bastante discriminado. No serviço público de saúde então a gente chega a ficar sem graça, porque parece que estamos falando de coisa de outro mundo”.

Ela também afirma que o que mais a impactou no ambulatório foi reconhecer uma parceria com os profissionais, o que não ocorria em outros lugares. “Se a atendente lá vai fazer meu prontuário e tem por obrigação perguntar minha opção sexual, quero dizer e não sofrer nenhuma reação, o que infelizmente não ocorre. E isso não é só na rede pública. No campo particular a relação é a mesma”, aponta.

Para o médico do ambulatório, Cleytoon Davyd, testemunhar dificuldades em procurar ajuda não são raros. “Quando a mulher é acolhida e percebe que não está em um quartinho escuro e escondido para que ninguém saiba quem ela é, ela consegue interagir no hospital”, compartilha ele sobre a percepção das pessoas que atende. “Você é o paciente e o que você faz ou deixa de fazer, desde não cause problemas a sua saúde, não interessa a ninguém.” Davyd, que tem formação ginecológica, presta um atendimento às mulheres preliminarmente que serve como “porta de entrada” para as outras necessidades. É a partir da conversa com ele que as pacientes são encaminhadas para especialistas do HMR, quando necessário.

“Em outros lugares, às vezes, parece que o pessoal acha que está fazendo um favor para a gente, olha com uma cara de abuso. Mas a gente tem direito a esse serviço como qualquer outra pessoa e tem que ser bem tratada”, insiste a massoterapeuta Ana Paula Gouveia Alves, 49. “Aqui me sinto mais à vontade. Já cheguei falando que sou isso, sou aquilo”, diz, sorrindo. “Aqui ninguém jamais chegou para me dizer ‘vá para aquele lado porque você é assim’. Nunca fez diferença a ninguém. E nem me sinto diferente”, atesta a paciente.

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