Amiga do casal diz que Jussara se preocupava com partilha

Ela foi uma das 25 testemunhas que compareceram à 1ª Vara Criminal de Camaragibe na sexta (7) para a audiência de instrução

Rafael Nunes é advogado de defesa de Danilo e Jussara PaesRafael Nunes é advogado de defesa de Danilo e Jussara Paes - Foto: Arthur Mota/Folha de Pernambuco

Considerada uma das testemunhas-chave do processo que busca elucidar o crime que vitimou o médico Denirson Paes, aos 54 anos, falou com exclusividade à Folha de Pernambuco sobre o relacionamento dele com Jussara Rodrigues, 54, esposa e principal suspeita de ter cometido o homicídio. Amiga íntima do casal desde a juventude, preferiu preservar a identidade. Ela foi uma das 25 testemunhas que compareceram à 1ª Vara Criminal de Camaragibe na sexta (7) para a audiência de instrução.

Foi um momento de comoção e reencontro. Muitos estavam se vendo pela primeira vez desde que Jussara e Danilo Paes, 23 anos, filho mais velho do casal e acusado de ter auxiliado no crime, foram presos, no início de julho. Francisco Ferreira, pai de Denirson, veio de Campo Alegre de Lourdes, na Bahia, para participar da sessão, que foi presidida pela juíza Marília Falcone Gomes Locio. Ele chegou acompanhado do filho mais novo de Denirson e Jussara, Daniel Paes, de 21 anos, e da irmã da vítima, Cleonice Paes da Silva, 55. Os dois foram ouvidos como testemunhas e pediram para não ficar no mesmo ambiente que os réus, que foram mantidos em salas isoladas durante todo o dia. Eles, assim como dez testemunhas, duas de acusação e o restante da defesa, serão ouvidos apenas no dia 14, no segundo dia de audiência.

“Eles podiam ter se separado há muito tempo e nada disso estaria acontecendo”, lamenta a amiga. Ela conta que em 2015, na mesma época em que Jussara entrou com um pedido de medida protetiva contra Denirson, também foi dado início ao processo de separação. “Jussara levou os documentos para uma advogada. Estava tudo certo, conversamos muito sobre. Jussara questionava muito sobre o que levaria na partilha. Eles tinham casado em comunhão parcial de bens e a advogada disse que ela não se preocupasse. Existia um apego ao status, à condição de vida”, lembra. Isso porque, em uma das últimas festas em que ela esteve com o casal, Jussara revelou que já não vivia como “um casal de cama” com Denirson.

Rafael Nunes, advogado de defesa dos réus, argumenta que Jussara agiu em legítima defesa porque sofria agressões físicas constantes de Denirson e, em mais uma briga, teria reagido. “E aí aconteceu esse fato trágico, mas a lei garante que a pessoa pode matar para se defender. Ela errou ao ocultar. Podia ter agido de outra forma", ressalta o defensor. Ele usa a medida protetiva como principal prova para sustentar essa justificativa. “Não existiu agressão nesse caso de 2015. No dia em que ela prestou depoimento, a pessoa que estava colhendo falou que não cabia a Lei Maria da Penha. Mas ela continuou com isso, porque tinha abuso psicológico. Mas sobre ser agredida, ela nunca comentou nada comigo em todos esses anos”, revelou a amiga.

“Dois dias depois, ela voltou atrás da medida protetiva e da separação. Acreditava piamente que não estava sendo traída, que Denirson tinha viajado sozinho. Disse que ele tinha se arrependido, se ajoelhou e prometeu mundos e fundos. Desde então, evitávamos falar sobre relacionamento porque eu me senti feita de besta, por ter apoiado ela em tudo. Eu era amiga dos dois.”

Para a amiga, a grande surpresa foi a polícia apontar a participação de Danilo. “Era um doce de menino. Eu não consigo imaginar um menino bom como ele esquartejando o pai. Isso mexeu demais comigo, ela ter permitido que ele se envolvesse. Não sei. Talvez ele tenha visto algo, viu que perdeu o pai, e acabou se envolvendo. Não entendo”, lamenta.

Após a audiência, Rafael Nunes afirmou que diversas testemunhas questionaram os próprios depoimentos, que foram lidos durante a sessão. “Várias disseram que não tinham falado de determinada forma algumas afirmações. Inclusive o próprio Daniel. Isso mostra que a polícia agiu de maneira tendenciosa”, contou. “O próprio pai de Denirson contou que já viu ele agredindo Jussara. Daniel também falou que só viu o pai dando um beijo na mãe em 2008, o que mostra que ele não tinha carinho pela esposa”, insistiu o advogado. Ele alega que a presunção de inocência garantida pela justiça não está sendo aplicada para Danilo. “Sem antecedentes, nível superior, não tem uma multa. Foi encontrado sangue no quarto de Daniel, também. Em um tênis dele. E ele está solto, é considerado inocente. Por que Danilo também não está? A presunção de inocência está sendo espancada pela justiça.” A reportagem não conseguiu contato com Carlos André Dantas para falar sobre a sessão.

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Entenda o Caso
O cadáver do médico cardiologista Denirson Paes da Silva foi encontrado no último dia 4 de julho dentro de uma cacimba na casa onde morava, no condomínio Torquato Castro, na Estrada de Aldeia, em Camaragibe, Região Metropolitana do Recife. O desaparecimento dele vinha sendo investigado desde o início de junho.

Em um Boletim de Ocorrência registrado no último dia 20 de junho sobre o desaparecimento do marido, a farmacêutica Jussara Rodrigues Silva Paes, 54, alegava que a vítima teria viajado para fora do País e que não teria retornado. A delegada Carmem Lúcia, de Camaragibe, desconfiou do envolvimento dos familiares e solicitou um mandado de busca e apreensão no condomínio em que eles moravam.

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