Amigxs do Casarão se unem por financiamento coletivo

Casarão da Tamarineira ocupado há 30 anos precisa de reformas. A campanha termina no próximo dia 8 e visa arrecadar os R$ 8 mil necessários para concluir a manutenção estrutural do imóvel

Manuella foi uma das primeiras a morar no local, aos 3 anos, em 1987. Prédio precisa de reparos, segundo a Defesa CivilManuella foi uma das primeiras a morar no local, aos 3 anos, em 1987. Prédio precisa de reparos, segundo a Defesa Civil - Foto: Rafael Furtado

Um caso não resolvido de habitação no Recife, que já dura mais de 20 anos, ganhou um novo capítulo, agora reforçado pelo uso da comunicação permitida pela internet. Ocupada atualmente por 22 famílias sem-teto, a residência número 88 da Rua Neto Mendonça, no bairro Tamarineira, na Zona Norte, precisa complementar algumas reformas que tiveram início no ano passado. Para tanto, representantes da sociedade civil simpatizantes da causa, e que se autointitulam Amigxs do Casarão, criaram uma ação para obter financiamento por meio de crowdfunding ou “vaquinha” virtual.

A campanha termina no próximo dia 8 e visa arrecadar os R$ 8 mil necessários para concluir a manutenção estrutural do imóvel. Os interessados podem doar valores a partir de R$ 10, sendo que, a partir de R$ 20, o agradecimento inclui brindes como mudas de plantas, discos de vinil, camisas ou artes personalizadas.

Invasões de imóveis abandonados são bastante comuns em grandes cidades. O que tornou o caso do Casarão da Tamatineira sui generis foi o fato de se tratar de uma ocupação de pessoas pobres em um espaço que acabou se transformando em uma área nobre com um dos metros quadrados mais caros da Cidade e onde a disputa pela exploração imobiliária é intensa.

Os moradores recordam que tudo começou há cerca de três décadas, quando os proprietários se mudaram e deixaram a residência fechada. Sem ninguém para cuidar, aos poucos a casa foi alvo de ladrões, que levaram os móveis e parte da estrutura. Na mesma rua, funcionava uma empresa de alimentos, que dava morada aos próprios funcionários e que foi à falência. Sem terem para onde ir, alguns empregados viram no casarão uma alternativa de moradia. Atualmente, uma segunda geração integra as dezenas de família residentes, formada por filhos e netos dos pioneiros no local.

A dona de casa Manuella Silva Santos, 33, foi morar no casarão aos 3 anos de idade com os pais - ele, ex-funcionário da empresa defronte - e um irmão. “Quando meu pai e minha mãe chegaram tinha muito lixo. Minha mãe tirou mais de oito caçambas (caminhões) de lixo daqui de dentro para morar. Já estava desocupado há muito tempo. Uns carroceiros arrombaram e levaram tudo - telhas, móveis, tudo o que você imaginar”, lembra. “A diferença de um morador para outro foi de dois, três anos. À medida que as pessoas precisavam iam se falando e foram entrando. Assim se tornou essa comunidade”, conta ela, que hoje vive com a mãe, um irmão e dois filhos.

A diarista Maria de Fátima da Silva, 57, chegou ao casarão, um ano depois, em 1994, grávida de 5 meses do quarto de seus cinco filhos. “Minha vida era de muito sacrifício. Vim do Interior muito jovem”, explica ela, que nasceu em Barreiros e morava em Rio Formoso (ambos na Zona da Mata Sul), antes de se mudar para a Capital, aos 13 anos. “Não me adaptei mais à vida no campo.” Assim como o pai de Manuella, Fátima trabalhava para a firma defronte ao casarão. “As pessoas precisando, sem ter onde morar, muitas desempregadas, foram um amigo chamando outro. Cada um foi ocupando seu espaço”, relata.

A dona de casa, Ana Lúcia da Silva Souza, 47, morava na Cidade Tabajara, em Olinda, quando herdou de uma amiga seus aposentos na residência, há 13 anos. Seus quatro filhos, hoje com idades de 28 a 32 anos, formaram sua próprias famílias e também moram no casarão. No total, Ana possui oito netos e mais um filho adotado, de 3 anos. “Somos uma família. Consideramos como um prédio de apartamentos”, compara.

A auxiliar de serviços gerais Josilene Maria da Silva, 36, mora no casarão há 13 anos e possui três filhos. Assim como as demais entrevistadas pela reportagem, ela não se imagina vivendo em outro lugar. “A gente tem menino em escola, trabalha aqui perto. Aqui um ajuda o outro. É um por todos e todos por um”, arremata.

De acordo com advogado Stélio Cavalcanti, 32, membro do Centro Popular de Direitos Humanos - uma das várias instituições participantes da rede Amigxs do Casarão -, a defensoria pública ajuizou uma ação de usucapião para que os moradores se tornem legalmente os donos do imóvel. A Defesa Civil do Recife informou que realizou uma vistoria no imóvel há três anos, a pedido de representantes dos ocupantes, e constatou a existência de problemas relacionados às más condições das estruturas elétrica e hidráulica da casa, recomendando sua recuperação.

Para colaborar com o crowdfunding do Casarão da Tamarineira é preciso acessar o site: www.catarse.me/casaraodatamarineira.

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