Amores em tempo de Aids

País tem 827 mil soropositivos, sendo que 112 mil não sabem que têm o vírus. O risco de contraí-lo é alto

Carlos é soropositivo e namora Fernando há dois anos: “Antes de iniciar qualquer relação digo que tenho o HIV”Carlos é soropositivo e namora Fernando há dois anos: “Antes de iniciar qualquer relação digo que tenho o HIV” - Foto: Felipe Ribeiro/Folha de Pernambuco

Sexualidade e HIV. Amor e HIV. Casamento e HIV. Como conviver com diferenças sorológicas e driblar julgamentos sociais? No Brasil, 827 mil pessoas vivem com HIV/Aids, desses, cerca de 112 mil não sabem que estão infectados, segundo dados divulgados ontem pelo Ministério da Saúde. No Estado, há cerca de 30 mil pessoas com o vírus e a doença. A média é de 1,5 mil novos casos de soropositivos por ano, sendo uma contaminação a cada seis horas.

Leia mais
Camisinha feminina é arma das mulheres contra a Aids

Isso aumenta, e muito, as chances de você, eu ou qualquer um de nós conhecer e se apaixonar por um soropositivo. Já pensou como reagiria a essa situação? Isso vale para encontros homossexuais ou heterossexuais. Relacionamentos soro divergentes. O que eles têm de diferentes? Hoje, Dia Mundial de Luta Contra a Aids, é preciso falar sobre essa possibilidade ultrapassando mais esse tabu do vírus, que mesmo no século 21 insiste em estigmas de solidão e rejeição. Para mostrar as faces de amores reais e possíveis vamos contar a história de dois casais: Fernando e Carlos e Adriana e João. Enredos onde o vírus é apenas coadjuvante em uma vida a dois protagonizada pela parceria diária.

Relacionamento
Carlos descobriu o HIV há duas décadas, aos 29 anos. De lá para cá já foram três relacionamentos sérios com homens sem o vírus. Ele prefere assim, uma vez que a Aids deixa de ser um fator comum ao casal ou o único assunto a ser dividido. O primeiro namoro foi de dois anos, o outro de oito e agora, com Fernando, 31, divide o teto há dois. “Antes de iniciar qualquer relação séria tenho que dizer que tenho a doença. Cabe a pessoa decidir aceitar ou não. Sempre exercitei a questão de ser rejeitado por ser soropositivo. No fundo, a gente sempre tem a esperança de ser aceito”, confidenciou.

Mesmo quando recebe o “sim” dos parceiros, nem sempre a convivência é de lua de mel. Alguns namorados estabeleciam fronteiras sobre carinhos e até beijo na boca, prática que conhecidamente não transmite o vírus, virava proibição. Limites que minavam afetos colocando obstáculos para o futuro. Com Fernando, o medo da rejeição também se fez presente, ainda mais porque o novo amor estava disposto a jogar tudo para o alto: a esposa, a família e a cidade onde morava.

Como a verdade não poderia esperar, a notícia foi por telefone mesmo. “Ele me ligou dizendo que tinha um problema e que precisava contar. Pensava que eu iria me desiludir. Mas já desconfiava desde o nosso primeiro encontro. Não vejo o HIV como uma barreira para nós, apesar da sociedade ainda ser muito preconceituosa”, lembra Fernando. O casal tem uma vida sexual natural, sempre com uso de preservativo. E o convívio social é “normal” como definiram. Contudo, a família de Fernando não sabe do vírus do parceiro, nem ele pretender contar.

Filhos, desejo possível
Há 20 anos Adriana, hoje com 40, e João, 41, eram recém-casados. Esperavam a chegada do primeiro filho. Tudo transcorrida bem na rotina daquela família que começava. Até que João, que era doador regular de sangue do Hemope, buscou o espaço para uma nova coleta. Dias depois a surpresa: uma ligação o convocara para comparecer até o hemocentro. Ele pressentiu que não teria uma boa notícia, e não teve. O vírus foi detectado. Pouco depois, Adriana teve um aborto espontâneo. Envoltos pelo medo e pela tristeza não buscaram os cuidados necessários seja o uso de camisinha, seja o tratamento.

Achavam que ambos tinham o vírus. Depois de um ano, João apresentavam sinais da Aids, caiu doente e, finalmente, começou a ser tratado. Adriana, por sorte, como numa roleta russa, não contraiu o HIV. “Depois disso, a gente sempre se previne. Tive medo que ela me deixasse. Cheguei até a dizer que ela não precisava ficar comigo. Mas ela insistiu e disse que casou para viver a vida toda. Amor é amor, independentemente de HIV, pelo menos para nós”.

Depois do susto inicial do resultado positivo, outro drama. O desejo de ter filhos insistia no coração dela, mas o medo de se contaminar e de contaminar o bebê sempre foi um fantasma. Juntos procuraram uma alternativa. Acionaram a Justiça para fazer uma reprodução assistida pelo SUS, mas não houve sucesso na época. No desespero, acabaram se complicando na polícia e Justiça devido a uma adoção ilegal. “Uma moradora de rua e usuária de drogas nos deu o filho bebê para a gente criar, mas depois buscou a polícia arrependida. A criança foi entregue ao conselho tutelar e depois foi parar num abrigo. Não deu certo. Agora estamos na fila regular de adoção com tudo que a Justiça pede. Vamos aguardar”, contou João.

Vida saudável
O infectologista dos hospitais Correia Picanço e Oswaldo Cruz, Demetrius Montenegro, explicou que não há risco de contaminação entre o casal se o parceiro/a soropositivo estiver com a medicação em dia e fizer o uso regular do preservativo. “Uma vez que o vírus está bem controlado a chance da transmissão cai muito, mesmo se o preservativo romper.” Para esses casos, o SUS oferece procedimentos para a profilaxia pós-exposição.

A gestação também é possível. Para isso, o soropositivo deve ter o vírus indetectável, saúde íntima em dia e após a relação fazer a profilaxia pós-exposição. “Tomando esses cuidados as chances da mulher se contaminar é muito pequena e uma vez que ela não tem o vírus a criança também não terá.” Os casais discordantes e médicos brasileiros aguardam com ansiedade a liberação de mais uma terapia contra o HIV: a profilaxia pré-exposição (PREP). A expectativa é que ela seja disponível em 2017, aumentando a segurança de vários públicos, principalmente os casais.

Veja também

Classes mais altas têm maior potencial de contaminação em repique de casos, diz infectologista
Coronavírus

Classes mais altas têm maior potencial de contaminação em repique de casos, diz infectologista

Protestos contra violência policial deixam 56 mortos e fecham escolas na Nigéria
internacional

Protestos contra violência policial deixam 56 mortos e fecham escolas na Nigéria