Antiga sede da AIP deve ser colocado à venda pelo Estado

Governo estadual, que é dono de parte do imóvel histórico no Centro do Recife, quer cortar despesas

Silvio CostaSilvio Costa - Foto: Divulgação

O Governo de Pernambuco caminha para concretizar a venda de parte do Edifício AIP, na avenida Dantas Barreto, Centro do Recife. A operação diz respeito ao térreo e quatro andares do prédio modernista, de 1958, que há décadas agoniza em meio à precariedade estrutural. Os imóveis se tornaram propriedade pública em 2010, ainda com parte sediando a Associação de Imprensa de Pernambuco (AIP).

As promessas de requalificação, no entanto, jamais saíram do papel. Um novo projeto, na ordem de R$ 2 milhões, aponta para a transferência da entidade para a avenida Conde da Boa Vista, com a criação de uma casa-museu. O retorno do saudoso cinema, na cobertura, arrasta-se aguardando recursos.

Por meio do Projeto de Lei nº 1.084/2016, o assunto foi remetido à apreciação da Assembleia Legislativa em caráter de urgência. A justificativa inclui o corte de despesas com manutenção e vigilância dos bens. “A alegação de crise é muito frágil. Desfazer-se de um patrimônio sem a possibilidade de ampla discussão com a sociedade não é o caminho mais saudável. Hoje temos mecanismos como a cessão onerosa, que permitem a entrada da iniciativa privada, disposta a investir, sem ter que perder o bem por completo”, aponta Leonardo Cisneiros, professor da UFRPE e integrante do coletivo A Cidade Somos Nós. Ele cita a necessidade de priorização de imóveis ociosos para moradia. “A veia cultural do imóvel também não poderia ser deixada para trás”, critica.

Com 14 pavimentos, o edifício, que mantém uma das ultimas salas de cinema de rua no País, assistiu ao desaparecimento vertiginoso de seus condôminos diante de uma situação insustentável. Sem pagamento, o fornecimento de água e energia elétrica foi suspenso. Os elevadores pararam e o antigo restaurante panorâmico também não conseguiu se manter.

A comerciante Lourdes Sampaio, 61 anos, é uma das últimas sobreviventes do AIP, morando desde 1995 e já tendo ocupado o posto de síndica. É dona de um fiteiro bem diante do prédio. A cineasta Cecília Araújo também fala dos laços com a construção. “Meu avô, com 93 anos, é um dos proprietários mais antigos. É a perda de uma grande memória para a cidade, feito às presas, e se distanciando ainda mais da população”, opina.

A AIP já começou a ser transferida para o casarão de número 1424 da avenida Conde da Boa Vista, onde funcionou a TV Pernambuco. O local deve abrigar também biblioteca, laboratórios, memorial da imprensa e café. A associação se mostra favorável às mudanças. “Brigamos durante muito tempo, mas os próprios condôminos não demonstraram interesse na reforma do prédio. A legislação não permite emprego de dinheiro público em imóveis privados. Foi um caminho inevitável”, revela o presidente Múcio Aguiar. Segundo ele, uma emenda parlamentar de R$ 250 mil foi perdida por falta de avaliação, dinheiro que serviria para resolver alguns problemas. “Agora metade do valor da venda será revertido para manutenção do próprio cinema. É o nosso maior anseio”, acrescenta.

A Secretaria de Administração informou por nota que o projeto de lei busca alienar os imóveis mediante procedimento licitatório atendendo ao previsto na legislação. O órgão reiterou o pedido de regime de urgência. Não foi informado cronograma.

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