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Opinião

Anunciaram que o mundo iria acabar

Até a semana passada, imaginava que certas situações só acontecessem com celebridades. Estava equivocado. Eu, apenas um ‘rapaz’ latino-americano, sem dinheiro no banco e sem parentes importantes, vi que também posso ser vítima de boatos, com repercussão do tamanho da fama do envolvido. Logo pela manhã recebi, através do WhatsApp, algumas mensagens de pessoas conhecidas, querendo saber se (eu) estava vivo. Respondi a todos que “sim”, até porque ainda não joguei a toalha e permaneço com o objetivo de bater a meta do meu pai, que se foi aos 100 anos e 03 meses de idade. Não fiquei satisfeito em apresentar o texto comprovante de vida. Mandei uma foto, para que não pairasse nenhuma dúvida. Bobagem. A foto podia ser do dia ou da semana anterior. Aparentemente, os questionadores ficaram satisfeitos com a ‘comprovação’.

 Não me assustei, é bom frisar. O ‘divulgador’ pode ter sonhado comigo e vinculou o sonho a uma eventual partida para o além. Ou - tudo é possível - estava com saudade, ficou envergonhado de perguntar e valeu-se de terceiros para saber como eu estava. Nada de mais. Há a 3a hipótese: a do desejo do ‘divulgador’ de me ver sob sete palmos de terra. Pouco provável mas não descartável. Neste mundo chamado moderno a gente vê, lê e ouve coisas que até anjos e santos duvidam.

Pois bem, nessa de desdizer o que não aconteceu, veio à mente uma música de 1938, composta por Assis Valente e Noel Rosa, dois craques. Sem medo de estar falando bobagem, trata-se de uma crônica musicada que poderia ser transformada numa peça de teatro, num romance ou num filme. A letra fala da história de um sujeito que escutou um anúncio garantindo o fim do mundo e, por conta disso, beijou na boca de quem não devia, pegou na mão de quem não conhecia, dançou um samba em traje de maiô, perdoou a ingratidão de um desafeto, gastou mais do que podia etc. O mundo não se acabou e o personagem ficou em maus lençóis. (1)

Uma coisa puxa outra. Meu avô materno contava que, quando criança, se escondia embaixo da cama quando via o céu vermelho-laranja, porque alguém havia dito que aquilo era sinal que o mundo iria se acabar. Perdeu a conta das vezes em que, chorando e tremendo, esperou o the end que não veio, até o dia em que decidiu acompanhar o finale encarando de pé e de olhos abertos o que poderia vir pela frente.

No ano passado escutei de um indivíduo que milhões de pessoas no Brasil morreriam por conta do Covid 19. Lamentavelmente morreu muita gente, mas, pelo andar da carruagem, não chegará à casa dos milhões. Nesta quantidade, brasileiros morrem anualmente de descaso, de fome e de patologias diversas (câncer, malária, dengue, diabetes, doenças cardiovasculares etc.). Os desvios de numerário contribuem para que os óbitos não sejam menores; pra não contrariar, vamos dizer que isso já é outra história.

Encerro por aqui sem necessidade de reconhecer firma, mas com a minha palavra que tudo o que está neste texto saiu da minha cuca e do meu coração, que ainda bate o tum tum tum, como o da música de Antônio Barros e Cecéu. (Em homenagem a Wilma).

(1) Música “E o Mundo não se acabou”, de 1938, gravada por vários intérpretes 

*Executivo do segmento shopping centers
 


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