Após falarem sobre coronavírus, divulgadores científicos sofrem ataques na internet

Membros do Science Vlogs Brasil (grupo de canais de divulgação científica) afirmam ter começado a sofrer tentativas de invasão de contas em redes sociais e mais ofensas em comentários

Ilustração do novo coronavírusIlustração do novo coronavírus - Foto: Pixabay

Divulgadores científicos estão entre as vítimas da Covid-19 no Brasil. Mas os ataques, em quase todos os casos aqui citados, não partem do Sars-CoV-2. Após a politização do tema -principalmente por afirmações do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) que contrariam a ciência-, membros do Science Vlogs Brasil (grupo de canais de divulgação científica) afirmam ter começado a sofrer tentativas de invasão de contas em redes sociais e mais ofensas em comentários.

Pelo menos cinco canais que têm falado sobre o novo coronavírus relataram à Folha investidas com o intuito de invasão. Foram eles: Universo Racionalista, o Canal do Schwarza, Nunca Vi 1 Cientista, e o ComCiência Corporal. Hugo, que é biólogo e professor da UECE (Universidade Estadual do Ceará), sofreu cerca de 40 ataques virtuais, com tentativas de invasão de contas de Instagram, Facebook e Whatsapp. "Tentaram invadir todas as minhas redes. Não conseguiram", diz.

A investida, segundo o biólogo, coincidiu com a subida de tom de discursos que defendem que o "Brasil não pode parar" (slogan criado pelo governo e, após críticas, retirado do ar) e que as pessoas fora de grupos de risco deveriam voltar a trabalhar.
Bolsonaro defendeu tal posição em pronunciamento em rede nacional, em 24 de março. No discurso, o presidente minimizou a gravidade da Covid-19 e chamou a doença de gripezinha. Criticou também o fechamento de escolas e comércio, medidas para contenção do vírus que foram implementadas em diversos países.

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Bolsonaro tem criticado, sem apresentar argumentos ou pesquisas científicas, as medidas de isolamento social. Ele defende o que chamou de isolamento vertical, no qual somente os grupos de risco são isolados. Algo semelhante foi tentado no Reino Unido, que abandonou o plano assim que percebeu que a situação sairia do controle. O país europeu hoje tem mais de 30 mil casos e uma curva de mortes (3.000) crescente.

Um dia depois do pronunciamento de Bolsonaro, Hugo fez uma postagem explicativa sobre a importância do distanciamento social e com críticas a quem desdenha, sem evidência científica, do isolamento, como Roberto Justus (segundo o qual tais medidas são "um tiro de canhão para matar um pássaro"). No texto da publicação, o biólogo cita também os empresários Junior Durski (Madero), Luciano Hang (Havan) e Bolsonaro.

"Você e mais uma turma infelizmente influente acha que pode contra-argumentar o embasamento científico com artigo de jornal e vídeo de dono de restaurante", diz Hugo em seu vídeo. "Doentes não trabalham, não vendem, não compram e colocam o sistema de saúde do Brasil, que já vai entrar em colapso, em um colapso ainda maior, causando, então, um rombo na economia ainda maior."

O Nunca Vi 1 Cientista foi outro alvo das tentativas de invasão de contas de redes sociais, algumas delas concretizadas, segundo Laura de Freitas, que tem doutorado em biociências e biotecnologia, e é uma das responsáveis pelo canal. Os ataques começaram pouco depois de duas postagens. Uma delas questionava a comparação entre o novo coronavírus e uma gripe, mostrava as taxas de internação relacionadas à Covid-19 e falava sobre a necessidade de achatar a curva da epidemia para que o sistema de saúde dê conta de atender a todo mundo.

A outra postagem explicava não haver, pelo menos por enquanto, evidências científicas para indicar a hidroxicloroquina como tratamento ou cura da Covid-19 e mostrava as falhas metodológicas do estudo sobre a droga que chamou a atenção do presidente americano Donald Trump e de Bolsonaro (que constantemente fala sobre o medicamento).

"Falamos alinhadas às recomendações da OMS [Organização Mundial da Saúde]. O que não é alinhado ao governo", diz Laura. Um dos invasores chegou a responder mensagens de pessoas que acompanham as páginas do Nunca Vi 1 Cientista. Segundo Laura, com a polarização que se criou ao redor da Covid-19, o canal teve que bloquear inúmeras pessoas agressivas nas redes sociais. "Sabe o padrão de foto de perfil que é uma selfie com óculos escuros dentro do carro?"

Ao mesmo tempo, os canais tocado por ela e por Ana Bonassa, que tem um doutorado em Ciências, vêm crescendo em meio à pandemia. No caso do ComCiência Corporal, administrado por Guilherme Lui, foram no mínimo 46 tentativas de invasão. Schwarza diz que talvez um vídeo seu que comenta o primeiro pronunciamentos de Bolsonaro sobre a Covid-19 tenha feito com que seu canal entrasse no radar do invasor.

Um dos administradores da página Universo Racionalista no Facebook chegou a ser ameaçado de agressão física após postar a frase "Não seja gado, a pandemia é um fato".
Douglas Rodrigues Aguiar de Oliveira, um dos administradores da página junto a Kauê Jones, também afirma que os ataques tiveram início com postagens sobre o novo coronavírus. Ele relata tentativas de invasão tanto da conta da página quanto de sua conta pessoal de Instagram.

Laura vê com preocupação a faceta política que a Covid-19 ganhou. "De um lado, você tem autoridades de saúde que sabem do que estão falando, que têm em mãos as recomendações para orientar o governo e a população. Do outro, você tem pessoas que não tem conhecimento científico e de saúde. Isso gera conflito na população que não tem discernimento."

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